Por *Elvécio Andrade
O brasileiro já viu de tudo na
administração pública. Mas, quando pensamos que o festival de absurdos
finalmente chegou ao último capítulo, aparece alguém disposto a provar que a
criatividade no uso da máquina pública não conhece limites. Desta vez, o palco
do espetáculo foi o Município de Pancas, no Noroeste do Espírito Santo, mais
precisamente o Distrito de Lajinha, onde, no último dia 05 de outubro, uma
ambulância foi flagrada realizando uma missão, digamos, bastante peculiar:
recolher encomendas de plataformas de vendas on-line na residência de uma
ex-entregadora.
Isso mesmo. Não era paciente passando
mal, não era gestante em trabalho de parto, não era idoso precisando de
atendimento médico. Eram encomendas. Pelo visto, em algum lugar da
administração, alguém pode ter confundido o serviço de transporte de pacientes
com o de uma transportadora particular. Só faltou instalar um aplicativo de
entregas no painel da ambulância e colocar uma plaquinha: Seu pedido está a
caminho. Em caso de emergência, aguarde.
Segundo o relato da mulher que
registrou o episódio em vídeo, ela trabalhava realizando entregas de
mercadorias no Município e região, mas decidiu encerrar a atividade após um
desentendimento envolvendo um pedido extraviado. Com isso, comunicou à
responsável pelas entregas que os pacotes restantes estavam disponíveis para
retirada. Até aí, nada de extraordinário. O problema começou quando a pessoa
enviada para recolher as encomendas apareceu em uma ambulância.
Surpresa com a situação, a
ex-entregadora resolveu gravar o procedimento e encaminhou as imagens à
coordenação do Posto de Saúde do Município. Ainda segundo seu relato, a
coordenadora confirmou que o veículo havia sido enviado para buscar os pacotes.
Posteriormente, após a repercussão das imagens nas redes sociais, ela reclamou
da gravação.
Se essa versão for confirmada,
teremos um segundo absurdo dentro do primeiro: em vez de a preocupação se
concentrar na possível utilização irregular de um veículo público, o incômodo acabou
recaindo sobre quem resolveu mostrar o que estava acontecendo. É aquela velha
inversão de valores: o problema deixa de ser o fato e passa a ser a pessoa que
teve a ousadia de registrá-lo.
É preciso lembrar o óbvio, embora,
diante de determinadas situações, até o óbvio pareça precisar de explicação. Uma
ambulância é um veículo destinado ao atendimento das necessidades da saúde
pública. Sua utilização envolve recursos que pertencem à coletividade,
incluindo combustível, manutenção, motorista e disponibilidade operacional. Não
é um automóvel colocado à disposição de interesses particulares.
Enquanto moradores de tantos
municípios brasileiros enfrentam dificuldades para conseguir transporte para
consultas, exames e procedimentos médicos, é absolutamente inadmissível que um
veículo dessa natureza seja desviado de sua finalidade para atender demandas
privadas. E pouco importa se o percurso foi curto, se a ambulância estava
momentaneamente desocupada ou se alguém considerou que não haveria problema em
aproveitar a viagem. O patrimônio público não é extensão da garagem de ninguém.
E ambulância não é veículo de conveniência pessoal.
Após a repercussão do vídeo, a
Secretaria Municipal de Saúde de Pancas publicou uma nota informando que tomou
conhecimento das imagens que mostram a utilização indevida de uma ambulância. A
pasta também comunicou que determinou a abertura de uma sindicância para apurar
os fatos e adotar as medidas cabíveis em relação aos possíveis responsáveis. A
iniciativa é necessária, mas não pode terminar em uma simples nota de
esclarecimento destinada a esfriar a repercussão nas redes sociais.
A população tem o direito de saber
quem autorizou a utilização do veículo, quem solicitou o transporte, qual era a
finalidade da viagem, se houve conhecimento prévio de algum superior
hierárquico e quais providências efetivamente serão adotadas. Também é
importante esclarecer se houve utilização de combustível, motorista e horário
de expediente para atender uma demanda sem qualquer relação com a saúde
pública. Se forem constatadas irregularidades, que os responsáveis respondam
por seus atos, observados o devido processo legal e o direito de defesa.
O episódio de Lajinha seria cômico se
não fosse tão preocupante. Transformar uma ambulância em veículo de coleta de
encomendas é o tipo de situação que escancara a necessidade de fiscalização
permanente sobre o uso dos bens públicos. Afinal, quem paga a conta é o
cidadão. É ele quem financia o combustível, a manutenção, os salários e toda a
estrutura necessária ao funcionamento dos serviços municipais. E esse mesmo
cidadão tem o direito de exigir que os recursos destinados à saúde sejam
utilizados exclusivamente em benefício do interesse público.
Agora, cabe à administração municipal
demonstrar que a sindicância anunciada não será apenas mais um procedimento
burocrático condenado ao esquecimento. Porque, se a moda pega, daqui a pouco
teremos ambulância buscando compras no supermercado, ônibus escolar fazendo
mudança e caminhão de coleta de lixo transportando móveis particulares.
Em Pancas, as encomendas
aparentemente conseguiram aquilo que muitos brasileiros lutam diariamente para
obter: transporte público até a porta de casa. E, nesse caso, com direito a
ambulância. Só resta torcer para que, enquanto os pacotes eram recolhidos,
ninguém tenha precisado daquele veículo para uma emergência de verdade. Porque
mercadoria atrasada pode esperar. Uma vida, não.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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