Por: *Elvécio
Andrade
Em Guanhães, no Vale do Rio Doce, Leste de Minas
Gerais, o silêncio sempre foi uma instituição muito respeitada, desde que não
haja ninguém por perto. Porque, havendo duas pessoas ou mais, e um mínimo de
curiosidade, ele é imediatamente revogado por unanimidade.
Na manhã em que viaturas cercaram a prefeitura,
no dia 25 de março, a cidade viveu aquele raro momento em que a imaginação
popular trabalhou mais rápido que qualquer investigação oficial. Em questão de
minutos, já havia hipóteses suficientes para uma série completa, com direito a spin-off e documentário.
“É Polícia Federal”, decretaram alguns, com a
segurança de quem nunca deixa a dúvida atrapalhar uma boa afirmação. Afinal,
muitas viaturas só podem significar uma coisa: coisa grande. E, convenhamos,
nada alimenta mais o espírito coletivo do que a possibilidade de um escândalo
“bem caprichado”.
Mas a realidade, sempre ela, resolveu ser menos
cinematográfica e mais constrangedora. O caso não era de corrupção mirabolante
nem de conspiração internacional. Era algo mais… caseiro. Daqueles que não
exigem CPI, mas dão um baita assunto. O prefeito estava sendo preso por prática
de violência doméstica e familiar.
E no centro disso tudo, como personagem
principal de uma história que ninguém pediu mas todo mundo quis assistir,
estava o prefeito bolsonarista (sempre eles, não escapa um) Evandro Lott Moreira, do
Republicanos, grande defensor do mito dos desmiolados e do lema fascista Deus,
pátria e família.
Quando a prisão preventiva veio, no dia 1º de abril, data,
aliás, que parece escolhida por um roteirista debochado, Guanhães já não
precisava de confirmação oficial. A cidade já tinha produzido, revisado e
distribuído sua própria versão dos fatos, com atualizações em tempo real e
comentários especializados de quem “não gosta de falar, mas já sabendo…”.
O interessante é que o acontecimento não ficou
restrito ao fato em si. Em Guanhães, notícia nunca vem sozinha, ela puxa um
debate, que puxa uma indignação, que puxa uma análise geopolítica completamente
desnecessária, mas inevitável. Foi assim que, em meio ao caso, surgiu o
analista de esquina, aquele que resolve o estado e o país entre um gole e
outro.
Sem cerimônia, ele ampliou o alcance da
discussão e trouxe à mesa nomes como Romeu Zema e Nikolas Ferreira, como quem
monta um time de culpados para um problema que, até então, era bem localizado. “Esperar
o que de um povo que vota num pateta como o Romeu Zema e em um moleque de rua
como o Nikolas Ferreira”?
E pronto: em poucos minutos, Guanhães não estava mais discutindo um caso específico. Estava debatendo o destino de Minas, do Brasil e, se deixassem, do planeta. Enquanto isso, a prefeitura, aquela mesma que foi cercada, virou quase um ponto turístico informal. Não pela arquitetura, claro, mas pelo valor histórico: “foi aqui que começou a conversa”.
No fim, fica a lição que ninguém pediu, mas
todo mundo confirma: a verdade pode até ser séria, mas em Guanhães ela nunca
anda sozinha. Vem sempre acompanhada de exagero, julgamento instantâneo e uma
criatividade que faria inveja a muito roteirista. E talvez seja melhor assim. Porque, se depender apenas dos fatos, a
realidade corre o sério risco de ser… sem graça.
*Elvécio
Andrade é
radialista, jornalista, blogueiro, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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