Por *Elvécio Andrade
Há algo profundamente contraditório quando uma instituição religiosa invoca a pobreza, a humildade e os ensinamentos de Jesus para justificar sua existência, mas, ao mesmo tempo, organiza eventos milionários, cobra ingressos de milhares de reais e depois recorre à imunidade tributária para não pagar impostos. Foi exatamente esse paradoxo que apareceu na Justiça de São Paulo. Em decisão publicada em 14 de agosto de 2026, a 12ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo rejeitou o pedido da Igreja Batista da Lagoinha em Alphaville para afastar a cobrança de R$ 254.456,55 de ISS relacionada à bilheteria do festival gospel Vira Brasil 2025.
O evento aconteceu na virada de 2024 para 2025,
no então Allianz Parque, hoje Nubank Parque, reuniu aproximadamente 35 mil
pessoas e tinha ingressos que chegavam a inacreditáveis R$ 3.850 no setor VIP,
enquanto o ingresso mais barato custava R$ 275. Isso mesmo, R$ 275 para entrar
em um evento religioso. Parece até piada, né? Mas não é. O estádio foi alugado
por R$ 1,456 milhão, houve transmissão ao vivo pelo SBT, patrocínios,
bilheteria e nada menos que 15 atrações no palco, entre elas Eli Soares, Ana
Nóbrega e Tiffany Hudson.
E então surge a pergunta que não quer calar: isso
era um culto religioso ou um gigantesco empreendimento comercial com embalagem
gospel? A igreja sustentou judicialmente que o Vira Brasil seria um culto
religioso de grande porte e, por isso, deveria estar protegido pela imunidade
tributária constitucional concedida aos templos e entidades religiosas. O juiz
Fabricio Figliuolo Horta Fernandes acertadamente não comprou a tese.
Segundo a sentença, a presença de elementos
como exploração econômica organizada, transmissão contratada, patrocínios,
receita de bilheteria e ingressos comercializados em diferentes categorias e
preços afastava a aplicação automática da imunidade. E aqui está o ponto
central. Imunidade tributária não deveria ser confundida com salvo-conduto para
transformar fé em negócio. A própria Prefeitura de São Paulo foi ainda mais
contundente ao argumentar que anunciar o evangelho não seria compatível com a
elitização e a mercantilização do acesso à fé.
A Justiça acolheu esse entendimento e julgou
improcedentes os pedidos da igreja. E talvez essa decisão seja muito maior do
que os R$ 254 mil cobrados. Ela coloca o dedo numa ferida que o Brasil insiste
em fingir que não existe. O problema não é a existência de igrejas. O problema
é quando determinadas instituições religiosas passam a operar como verdadeiras
corporações, movimentando valores milionários, promovendo eventos caríssimos,
adquirindo patrimônios milionários e, ao mesmo tempo, reivindicando privilégios
fiscais sob o argumento de que tudo acontece em nome da fé.
A pergunta deveria ser simples: se existe
exploração econômica, por que o contribuinte comum precisa pagar impostos
enquanto determinados negócios religiosos tentam escapar deles? Um pequeno
comerciante, uma empresa e um trabalhador pagam impostos, assim como uma
família paga impostos embutidos praticamente em tudo aquilo que consome. Mas
quando determinadas estruturas religiosas movimentam cifras milionárias, surge
frequentemente o argumento de que não se trata de negócio. É fé, é culto, é
missão, é evangelização.
Convenientemente, quando chega a hora da
arrecadação, parece que Deus também ganha CNPJ. Existe ainda uma questão social
que precisa ser enfrentada sem hipocrisia. Milhões de brasileiros frequentam
igrejas e contribuem voluntariamente com dízimos e ofertas. Muitos são pessoas
humildes, que lutam diariamente para pagar aluguel, alimentação, medicamentos e
contas básicas, e ninguém pode generalizar dizendo que todo fiel é enganado ou
que toda igreja explora seus seguidores.
Mas também não podemos fechar os olhos para
casos em que a fé é utilizada como instrumento de pressão psicológica, promessa
de prosperidade ou mecanismo de arrecadação. O problema começa quando a
necessidade do fiel se transforma em oportunidade financeira para a
instituição. O sujeito não tem dinheiro para comprar comida para a família, mas
é convencido de que precisa entregar o dízimo. Não consegue pagar uma conta,
mas escuta que precisa fazer uma oferta. Está endividado, mas alguém lhe
promete que, se "plantar uma semente", Deus devolverá multiplicado.
E enquanto o fiel entrega o pouco que tem,
determinadas estruturas religiosas acumulam patrimônio, propriedades e
negócios. Quem está sacrificando a própria sobrevivência e quem está
enriquecendo com o sacrifício alheio? Essa pergunta merece resposta. Infelizmente
a imunidade tributária dos templos possui fundamento constitucional e não pode
simplesmente ser revogada por indignação ou vontade política. Mas isso não
significa que o tema não possa ser discutido. Muito pelo contrário.
É urgente discutir os limites dessa imunidade
e, principalmente, estabelecer mecanismos rigorosos de transparência,
fiscalização e comprovação de que os recursos e atividades beneficiados estão
efetivamente vinculados às finalidades religiosas protegidas pela Constituição.
Porque uma coisa é manter um templo aberto para a comunidade. Outra,
completamente diferente, é organizar um espetáculo com milhares de pagantes,
ingressos VIP de milhares de reais, patrocinadores, contratos comerciais e
transmissão televisiva e depois dizer: "É culto. Não pode cobrar
imposto."
Aí fica fácil demais. A fé vira produto, o fiel
vira consumidor, o dízimo vira receita, o pastor vira empresário, o culto vira
espetáculo, e o Estado vira patrocinador involuntário da operação. Não se trata
de perseguir evangélicos, católicos, espíritas ou qualquer outra religião. Trata-se
de uma discussão sobre dinheiro público, privilégios fiscais, transparência e
responsabilidade. Qualquer instituição religiosa que cumpra sua função social e
religiosa merece respeito.
Mas qualquer instituição que utilize a religião
como instrumento para construir impérios econômicos precisa estar sujeita aos
mesmos princípios de transparência que qualquer outra organização que movimenta
grandes quantias. Porque deus pode até perdoar, mas o contribuinte brasileiro
já está cansado de pagar a conta. E
talvez seja justamente esse o recado mais importante deixado pela decisão da
Justiça paulista:
A fé pode ser gratuita, mas quando ela ganha
preço, VIP, patrocínio, bilheteria milionária e exploração comercial, é preciso
perguntar se ainda estamos diante de um templo ou de uma empresa usando deus
como marca. Se a resposta for a segunda opção, talvez seja hora de o Brasil
parar de tratar determinadas estruturas religiosas como intocáveis. Não para
cobrar imposto da fé, mas para impedir que a fé seja usada como escudo contra a
fiscalização de negócios milionários.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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