Por *Elvécio Andrade
A cena aconteceu pelas ruas de Manhuaçu, na Zona da Mata, de Minas
Gerais, na manhã de sexta-feira, 04, e deixou muita gente de queixo caído. E
não foi por causa do preço do pão francês. É que uma mulher extremamente
enfurecida, soltando fogo pelas ventas e cuspindo maribondos, foi flagrada
correndo totalmente nua pelas ruas atrás de um homem, aos gritos de “vai ter
que pagar, vai ter que pagar, vai ter que pagar!”, enquanto carregava um pedaço
de madeira na mão. No caminho alguém lhe jogou uma blusa e ela vestiu.
Quem saía de casa para trabalhar ganhou, de
graça, um espetáculo que provavelmente não estava incluído na programação
matinal. Quem estava indo à padaria teve que decidir rapidamente se comprava
pão ou se permanecia no local para acompanhar o desfecho da novela. Já aqueles
que voltavam da tradicional peregrinação pelos botecos da noite anterior
provavelmente pensaram que ainda estavam bêbados. Mas, segundo as informações
que circulam sobre o episódio, tudo tinha começado algumas horas antes.
O homem, que não teve o nome divulgado, passou
a noite em um puteiro, que não é a Boate Azul, desfrutando dos serviços
oferecidos. Até aí, tudo dentro do roteiro. O problema apareceu quando chegou a
hora mais temida de qualquer estabelecimento comercial: a hora de pagar a
conta. Foi então que o cidadão, na maior cara de pau, informou que estava sem
dinheiro e pediu para “pendurar”. Ora, meus amigos, uma coisa é pedir para
pendurar uma cerveja no boteco. Outra, completamente diferente, é tentar
transformar serviço consumido em puteiro em financiamento de longo prazo.
Em Minas Gerais, “pendurar” é quase uma
instituição. Tem freguês que deve três cafés, cinco pingados e uma dúzia de
fiados e ainda entra no estabelecimento cumprimentando todo mundo como se fosse
acionista majoritário. Mas aparentemente a negociação daquela madrugada não
terminou em acordo. E diante da falta de grana, o homem resolveu aplicar a
velha estratégia empresarial brasileira: fugir da dívida. Só que não contava
com a determinação da credora. E foi aí que Manhuaçu testemunhou uma das
cobranças mais inusitadas de sua história recente.
A mulher saiu correndo atrás do caloteiro do
jeito que veio ao mundo, empunhando um pedaço de madeira e deixando claro que,
naquele estabelecimento, a política de crédito era bastante rigorosa. Enquanto
gritava “vai ter que pagar!”, ela alcançou o caloteiro e aplicou várias
pauladas em suas costas. A cena, convenhamos, reúne todos os ingredientes de
uma comédia brasileira: uma cobrança em plena rua, um devedor desesperado, uma
credora indignada, uma arma improvisada, testemunhas perplexas e uma pergunta
que permanece no ar: Afinal, ele pagou ou não pagou?
Porque, até o momento, não há informações sobre
o desfecho financeiro da operação: se a mulher recebeu o valor referente à
noite de trabalho ou se terminou a manhã com o prejuízo dobrado: sem receber e
ainda tendo que correr atrás do cliente. Se houve registro policial, também não
se sabe. Mas uma coisa parece certa: depois desse episódio, talvez alguns
homens de Manhuaçu pensem duas vezes antes de pedir “para pendurar” no puteiro
da cidade.
Porque uma dívida comum pode gerar cobrança no
WhatsApp, uma dívida de bar pode render um “acerta sexta-feira”, mas, pelo
visto, naquela madrugada, o fiado veio acompanhado de juros, correção monetária
e pauladas. E fica a lição para os consumidores de ocasião: antes de pedir para
pendurar, confira se a credora trabalha com cartão, Pix ou boleto. Porque,
dependendo do caso, a cobrança pode vir correndo atrás de você, e completamente
sem roupa.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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