Por *Elvécio Andrade
O Brasil é um país sério. Tão sério que permite
que um homem compre uma ilha com o dinheiro do dízimo e ainda chame isso de
“obra de Deus”. Enquanto o padeiro da esquina fecha o mês contando moeda para
pagar o imposto sobre o pão, há templos que fecham o ano contando templos, e
não pagam imposto sobre nenhum deles. A imunidade tributária das igrejas, que a
Constituição escreveu com a melhor das intenções, virou, na prática, um
vale-tudo fiscal. O espírito da lei era proteger a fé. O que se protegeu, no
fim, foi o faturamento.
As igrejas, sobretudo as evangélicas de grande
porte, não são mais apenas casas de oração. São conglomerados. Possuem rádio,
TV, gravadora, editora, faculdade, clínica, imobiliária, e, em alguns casos,
até time de futebol, só falta o patrocínio na camisa ser “Deus Ltda.”. Tudo
isso sob o mesmo guarda-chuva: “entidade religiosa”. E, como tal, intocável. O
fiel, esse sim, é tratado como empresa: paga imposto quando compra, quando
vende, quando trabalha, quando respira. Mas quando repassa parte do seu salário
à igreja, está “semeando”. A igreja, por sua vez, colhe, e não paga o preço da
colheita.
Há uma ironia cruel na chamada “teologia da
prosperidade”. Ela promete ao fiel que, se der tudo o que tem, Deus o fará
prosperar. O que se vê, na prática, é que quem prospera mesmo é o pastor. O
fiel continua pagando aluguel; o pastor compra o prédio. O fiel anda de ônibus;
o pastor tem frota. O fiel faz vaquinha para o tratamento de saúde; o pastor
faz campanha para comprar um jato, e chama isso de “unção aérea”. E não é só
uma questão de gosto. É uma questão de regime tributário. O que deveria ser
doação vira patrimônio blindado.
O que deveria ser transparência vira “mistério
da fé” e o que deveria ser prestação de contas vira “perseguição religiosa”. O
modelo é simples e eficiente: cria-se um produto espiritual (campanha,
corrente, voto, determinação), transforma-se o fiel em cliente, pressionado
emocionalmente a “investir” no próprio milagre, usa-se a linguagem religiosa
para vender a ideia de que questionar é falta de fé, e, no final, o dinheiro
que entrou como “oferta” vira imóvel, vira veículo, vira salário de “obreiro”
que, curiosamente, mora na mesma rua nobre que o bispo.
O fiel, muitas vezes com pouca escolaridade,
pouca familiaridade com finanças e muita necessidade de esperança, entra nesse
esquema achando que está comprando um lugar no céu. Na verdade, está
financiando um apartamento na terra, só que não é para ele. O pior de tudo é
que o Estado sabe. Sabe e consente. Porque mexer nisso é impopular. Porque há
bancada. Porque há voto. Porque há narrativa de “perseguição”. E assim, o
Brasil segue sendo o único país onde o deus é isento de imposto, mas o devoto,
que é real, não.
Cada real que deixa de ser arrecadado por conta
dessa imunidade elástica é um real a menos em saúde, educação, segurança. É o
SUS sem remédio, a escola sem merenda, o asfalto esburacado. É o povo pagando duas
vezes: uma para o governo, outra para a igreja. E a igreja, essa, não presta
conta a ninguém, nem a Deus, parece. No fim, a conta não fecha. A fé, que
deveria ser um refúgio, virou negócio. A igreja, que deveria ser um espaço de
acolhimento, virou uma máquina de acumulação. E o fiel, que deveria ser
cuidado, virou recurso.
É preciso ter coragem para dizer o óbvio:
imunidade tributária não pode ser sinônimo de impunidade fiscal. Se a igreja
age como empresa, que pague imposto como empresa. Se o pastor vive como
executivo, que seja tributado como executivo. Se o dízimo vira patrimônio, que
esse patrimônio seja transparente. Do contrário, o Brasil seguirá sendo esse
laboratório onde o deus é rico, o pastor é milionário, e o fiel, esse sim, é
que tem que ter fé. Porque, de resto, só lhe resta o boleto.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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