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05/09/2026

Gastos absurdos com cantores: Já passou da hora de o Congresso Nacional instaurar uma CPI

Ana Castela, canta mal, mas é a preferida dos prefeitos de municípios miseráveis

Por *Elvécio Andrade

 

Enquanto a população conta moedas para sobreviver, prefeitos parecem contar milhões para contratar celebridades!

 

Há algo profundamente errado quando uma cidade com pouco mais de quatro mil habitantes está disposta a desembolsar R$ 1,816 milhão apenas para contratar artistas para uma festa. E o absurdo fica ainda maior quando se descobre que somente Ana Castela, a Vampira dos Recursos Públicos, receberia R$ 900 mil para subir ao palco da 40ª Festa da Banana, em Santa Bárbara do Tugúrio, Minas Gerais. Mas, felizmente, alguém resolveu apertar o botão de emergência antes que a banana amadurecesse, e o dinheiro público apodrecesse.

 

Atendendo a pedido do MPMG (Ministério Público de Minas Gerais), a Justiça suspendeu os pagamentos e a realização dos shows de Ana Castela, Gustavo Mioto e outros artistas contratados para o evento. A decisão da 1ª Vara Cível de Barbacena proibiu o Município de fazer pagamentos, transferências, liquidações, empenhos ou qualquer outro repasse de recursos públicos relacionados às apresentações. Em caso de descumprimento, a multa estabelecida é de R$ 200 mil por ato.

 

E não é preciso ser economista, contador ou especialista em administração pública para perceber que alguma coisa cheira mal nessa história. O Município estima arrecadar, sozinho, cerca de R$ 930 mil em todo o ano de 2026. Ou seja: pretendia-se gastar quase o dobro da arrecadação própria anual da cidade apenas com seis artistas. Repita-se para que ninguém pense que é erro de digitação: seis artistas custariam quase duas vezes tudo aquilo que a prefeitura espera arrecadar diretamente durante um ano inteiro.

 

E ainda faltariam pagar estrutura, palco, som, iluminação, segurança, montagem, logística, divulgação e toda a parafernália que transforma uma festa popular em uma pequena indústria de gastar dinheiro. A pergunta que deveria ecoar nos gabinetes das prefeituras brasileiras é simples: quem administra uma cidade para cuidar da população ou para promover grandes espetáculos? Porque festa é importante. Cultura é importante. Lazer é importante. Mas existe uma diferença gigantesca entre promover cultura e transformar dinheiro público em combustível para uma indústria de cachês milionários.

 

Segundo informações levadas pelo MPMG à Justiça, houve remanejamento de recursos que originalmente estavam destinados a áreas como saúde, educação e infraestrutura para financiar despesas com eventos. O levantamento também apontou que os gastos municipais com festividades saltaram de aproximadamente R$ 1,6 milhão em 2024 para R$ 4,9 milhões em 2025.

 

É aí que a coisa deixa de ser apenas uma discussão sobre gosto musical e passa a ser uma discussão sobre prioridade administrativa. Porque não existe justificativa moralmente aceitável para colocar um cachê de artista acima das necessidades básicas de milhares de cidadãos. Enquanto falta dinheiro para muita coisa que deveria ser prioridade absoluta, aparecem milhões para contratar celebridades. É a inversão completa da lógica administrativa: primeiro o palco, depois o cidadão. Primeiro o cantor, depois a escola. Primeiro o show, depois a saúde. Primeiro a festa, depois a infraestrutura. E o contribuinte? Bem, o contribuinte continua pagando a conta.

 


A situação fica ainda mais preocupante diante de um dado apresentado pelo próprio Ministério Público: entre 2024 e 2026, ocorreram remanejamentos que totalizaram mais de R$ 4,6 milhões, mediante anulação de dotações originalmente destinadas a outras áreas, incluindo saúde, educação e infraestrutura. Isso não significa, por si só, que tenha ocorrido crime ou desvio de dinheiro. E é justamente por isso que fiscalização rigorosa é indispensável.

 

Onde há valores milionários, contratação direta, municípios pequenos, grandes cachês e remanejamento de verbas, é obrigação dos órgãos de controle olhar cada documento, cada contrato, cada empenho e cada pagamento com lupa. Não basta dizer que existe previsão orçamentária. Dinheiro no orçamento não significa dinheiro sem dono. É dinheiro do cidadão, de quem paga imposto, de quem enfrenta fila em posto de saúde, de quem matricula o filho na escola pública, de quem espera uma rua decente, iluminação, saneamento, transporte e infraestrutura.

 

Dinheiro de gente que muitas vezes não consegue pagar uma conta de supermercado, enquanto uma única apresentação artística pode custar centenas de milhares de reais. E Santa Bárbara do Tugúrio não é um caso isolado. O Brasil inteiro está repleto de municípios pequenos promovendo festas gigantescas, contratando artistas famosos por cifras capazes de causar vertigem em qualquer cidadão comum. E não há absolutamente nada de errado em investigar.

 

Muito pelo contrário. É preciso investigar, comparar cachês, verificar contratos, examinar inexigibilidades, acompanhar os pagamentos, descobrir de onde saiu o dinheiro, saber quais dotações foram canceladas, verificar se recursos originalmente destinados a serviços essenciais foram remanejados, e saber quem ganhou, quem intermediou, quem contratou e quem autorizou. Porque quando milhões de reais começam a circular em festas públicas, o contribuinte tem o direito de perguntar: quanto custa a festa e quanto custa a conta depois dela?

 

Talvez já tenha passado, e muito, da hora de o Congresso Nacional discutir uma CPI específica para investigar a farra dos grandes gastos municipais com shows e festividades, sem transformar a investigação em caça a artistas ou partidos, mas examinando objetivamente o uso de recursos públicos. Porque o problema não é Ana Castela, não é Gustavo Mioto, não é qualquer outro cantor. O problema é o poder público achar normal gastar milhões em entretenimento enquanto serviços essenciais continuam esperando.

 

Artista não é vilão por cobrar caro e prefeito também não pode ser automaticamente chamado de criminoso porque contratou um artista. Mas administrador público tem uma obrigação que nenhum cachê milionário pode comprar: prestar contas à sociedade. E quando uma cidade cuja arrecadação própria anual é estimada em R$ 930 mil pretende gastar R$ 1,816 milhão somente com artistas, não é preciso ser inimigo de festa para fazer uma pergunta incômoda. É preciso apenas ser cidadão. Que banana é essa? Porque, neste caso, quem quase acabou descascado não foi o artista. Foi o dinheiro do povo.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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