Por *Elvécio Andrade
Ao que tudo indica, até os
relacionamentos de conveniência, mais conhecidos como a profissão mais antiga
da terra, ganharam marketing, ingresso VIP e linguagem gourmetizada.
Uma festa realizada em Balneário
Camboriú, Santa Catarina, chamou atenção justamente por aquilo que faltou:
homens. O evento, voltado a mulheres interessadas em relacionamentos no chamado
modelo “sugar”, tinha previsão de reunir aproximadamente 150 pessoas, entre
elas cerca de 30 homens. Só que muitos dos cavalheiros que haviam comprado seus
ingressos simplesmente não apareceram. E aí aconteceu o inesperado.
Em meio à festa, algumas
participantes começaram a perguntar: “cadê eles?” É uma pergunta aparentemente
inocente, mas que ganha contornos bastante curiosos quando se conhece o
propósito declarado das participantes: encontrar alguém disposto a financiar
projetos pessoais, como pagar faculdade, quitar imóvel ou bancar outras
despesas. E aqui começa a parte mais interessante, e também mais incômoda,
dessa história.
Porque, quando uma relação afetiva
passa a envolver dinheiro como elemento central da negociação, talvez seja
necessário parar por alguns segundos e perguntar se estamos realmente diante de
uma novidade revolucionária ou apenas diante de uma prática antiga que ganhou
roupagem moderna, vocabulário importado e iluminação de balada. Os preços
também ajudam a explicar o curioso fenômeno.
Enquanto algumas mulheres pagaram até
R$ 800 pelo ingresso, os homens chegaram a desembolsar nada menos que R$ 20
mil. Vinte mil reais. Por esse valor, já não parece exatamente uma simples
festa para “conhecer pessoas”. Parece mais um mercado de expectativas, no qual
cada participante entra sabendo, ou imaginando, o que pretende encontrar do
outro lado. E não há nada de ilegal em adultos estabelecerem relacionamentos
consensuais baseados em interesses, desde que não exista exploração, coerção ou
qualquer outra forma de abuso.
O problema é outro: a tentativa de
vender isso como se fosse necessariamente uma expressão superior de emancipação
feminina. Porque liberdade é poder escolher, mas liberdade também deveria
significar poder dizer: “Eu não preciso transformar uma relação em uma transação
para provar meu valor.” E talvez seja justamente aí que mora a contradição. Durante
décadas, a sociedade lutou, corretamente, para que mulheres não fossem tratadas
como objetos, propriedades ou mercadorias.
Agora, entretanto, aparece uma
indústria inteira tentando transformar relações afetivas em produtos de luxo,
com homens pagando cifras exorbitantes e mulheres procurando parceiros capazes
de resolver problemas financeiros. Mudaram-se os termos. Antes, chamava-se de outras
maneiras. Hoje, fala-se em “sugar daddy”, “sugar baby”, networking afetivo,
relacionamento de benefícios” e toda uma coleção de expressões sofisticadas
capazes de transformar uma velha lógica de troca em algo aparentemente moderno
e elegante.
É quase como colocar perfume francês
em uma situação que continua tendo dinheiro no centro da mesa. E antes que
alguém interprete isso como crítica às mulheres que participam desse tipo de
relacionamento, convém deixar claro: cada adulto é livre para fazer suas
próprias escolhas. A crítica é dirigida à contradição. Se o argumento é que
isso representa empoderamento, então precisamos perguntar: empoderamento para
quem? Para a mulher que conquista independência financeira, constrói sua
própria carreira e não depende de ninguém?
Ou para aquela que procura um homem
disposto a pagar sua faculdade, sua casa ou seus projetos pessoais? Porque
existe uma diferença gigantesca entre usar a própria liberdade para escolher um
relacionamento e apresentar a dependência financeira de outra pessoa como se
ela fosse, por si só, uma conquista de emancipação. No fim, talvez a pergunta
mais sincera daquela noite não tenha sido apenas: “cadê eles?” Talvez fosse: “cadê
o amor?” Ou, quem sabe, numa versão ainda mais adequada aos novos tempos: “cadê
a maquininha?”
Porque quando o afeto ganha ingresso
de R$ 800, o pretendente chega com uma expectativa de R$ 20 mil e o objetivo
declarado envolve pagar faculdade ou quitar imóvel, fica difícil acreditar que
estamos diante de uma revolução sentimental. Talvez seja apenas o velho
“interesse” usando roupa nova. E, nesse mercado cada vez mais sofisticado de
sentimentos, parece que até o romance descobriu que também pode ser parcelado
em 12 vezes sem juros.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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