Em Balneário Camboriu a profissão mais antiga ganha embalagem moderna e nome inglês - Colatina News

Recentes


Acessos

google.com, pub-2151647549971277, DIRECT, f08c47fec0942fa0

03/09/2026

Em Balneário Camboriu a profissão mais antiga ganha embalagem moderna e nome inglês

 

Evento fracassa por falta de homens

Por *Elvécio Andrade

 

Ao que tudo indica, até os relacionamentos de conveniência, mais conhecidos como a profissão mais antiga da terra, ganharam marketing, ingresso VIP e linguagem gourmetizada.

 

Uma festa realizada em Balneário Camboriú, Santa Catarina, chamou atenção justamente por aquilo que faltou: homens. O evento, voltado a mulheres interessadas em relacionamentos no chamado modelo “sugar”, tinha previsão de reunir aproximadamente 150 pessoas, entre elas cerca de 30 homens. Só que muitos dos cavalheiros que haviam comprado seus ingressos simplesmente não apareceram. E aí aconteceu o inesperado.

 

Em meio à festa, algumas participantes começaram a perguntar: “cadê eles?” É uma pergunta aparentemente inocente, mas que ganha contornos bastante curiosos quando se conhece o propósito declarado das participantes: encontrar alguém disposto a financiar projetos pessoais, como pagar faculdade, quitar imóvel ou bancar outras despesas. E aqui começa a parte mais interessante, e também mais incômoda, dessa história.

 

Porque, quando uma relação afetiva passa a envolver dinheiro como elemento central da negociação, talvez seja necessário parar por alguns segundos e perguntar se estamos realmente diante de uma novidade revolucionária ou apenas diante de uma prática antiga que ganhou roupagem moderna, vocabulário importado e iluminação de balada. Os preços também ajudam a explicar o curioso fenômeno.

 

Enquanto algumas mulheres pagaram até R$ 800 pelo ingresso, os homens chegaram a desembolsar nada menos que R$ 20 mil. Vinte mil reais. Por esse valor, já não parece exatamente uma simples festa para “conhecer pessoas”. Parece mais um mercado de expectativas, no qual cada participante entra sabendo, ou imaginando, o que pretende encontrar do outro lado. E não há nada de ilegal em adultos estabelecerem relacionamentos consensuais baseados em interesses, desde que não exista exploração, coerção ou qualquer outra forma de abuso.

 

O problema é outro: a tentativa de vender isso como se fosse necessariamente uma expressão superior de emancipação feminina. Porque liberdade é poder escolher, mas liberdade também deveria significar poder dizer: “Eu não preciso transformar uma relação em uma transação para provar meu valor.” E talvez seja justamente aí que mora a contradição. Durante décadas, a sociedade lutou, corretamente, para que mulheres não fossem tratadas como objetos, propriedades ou mercadorias.

 


Agora, entretanto, aparece uma indústria inteira tentando transformar relações afetivas em produtos de luxo, com homens pagando cifras exorbitantes e mulheres procurando parceiros capazes de resolver problemas financeiros. Mudaram-se os termos. Antes, chamava-se de outras maneiras. Hoje, fala-se em “sugar daddy”, “sugar baby”, networking afetivo, relacionamento de benefícios” e toda uma coleção de expressões sofisticadas capazes de transformar uma velha lógica de troca em algo aparentemente moderno e elegante.

 

É quase como colocar perfume francês em uma situação que continua tendo dinheiro no centro da mesa. E antes que alguém interprete isso como crítica às mulheres que participam desse tipo de relacionamento, convém deixar claro: cada adulto é livre para fazer suas próprias escolhas. A crítica é dirigida à contradição. Se o argumento é que isso representa empoderamento, então precisamos perguntar: empoderamento para quem? Para a mulher que conquista independência financeira, constrói sua própria carreira e não depende de ninguém?

 

Ou para aquela que procura um homem disposto a pagar sua faculdade, sua casa ou seus projetos pessoais? Porque existe uma diferença gigantesca entre usar a própria liberdade para escolher um relacionamento e apresentar a dependência financeira de outra pessoa como se ela fosse, por si só, uma conquista de emancipação. No fim, talvez a pergunta mais sincera daquela noite não tenha sido apenas: “cadê eles?” Talvez fosse: “cadê o amor?” Ou, quem sabe, numa versão ainda mais adequada aos novos tempos: “cadê a maquininha?”

 

Porque quando o afeto ganha ingresso de R$ 800, o pretendente chega com uma expectativa de R$ 20 mil e o objetivo declarado envolve pagar faculdade ou quitar imóvel, fica difícil acreditar que estamos diante de uma revolução sentimental. Talvez seja apenas o velho “interesse” usando roupa nova. E, nesse mercado cada vez mais sofisticado de sentimentos, parece que até o romance descobriu que também pode ser parcelado em 12 vezes sem juros.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook @sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal: @colatinanews4085

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário