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01/09/2026

Ministério Público acorda para a farra dos milhões gastos pelas prefeituras com artistas

O Ministério Público finalmente acordou

Por *ElvécioAndrade

 

Depois de uma avalanche de contratos milionários para shows em cidades pequenas, o MPMG (Ministério Público de Minas Gerais) parece ter finalmente despertado do marasmo e descoberto que dinheiro público não nasce em árvore, embora algumas prefeituras estejam tratando seus cofres como se fossem plantações de dinheiro. Ao que tudo indica, as denúncias sobre a verdadeira indústria de contratação de artistas com dinheiro público começam, finalmente, a produzir algum efeito.

 

Depois de tanto tempo assistindo à multiplicação de contratos milionários para shows, principalmente de cantores sertanejos, quase sempre os mesmos nomes, com cachês que fariam até milionário arregalar os olhos, algum órgão de fiscalização resolveu sair do berço esplêndido. Aleluia!

 

O MPMG ingressou com uma Ação Civil Pública na Justiça para tentar suspender gastos de R$ 1,8 milhão destinados à contratação de shows para a 40ª Festa da Banana, em Santa Bárbara do Tugúrio, Município com pouco mais de 4 mil habitantes. A festa está programada para acontecer entre os dias 23 e 27 de setembro, mas a Promotoria aparentemente decidiu perguntar aquilo que deveria ser perguntado há muito tempo. De onde uma cidade tão pequena tira quase dois milhões de reais para bancar cantores enquanto existem demandas básicas que continuam esperando?

 

É uma excelente pergunta. E talvez seja justamente essa pergunta que esteja incomodando. Segundo o MPMG, os gastos precisam ser analisados diante da realidade financeira do Município, já que valores dessa magnitude podem comprometer recursos destinados a áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura. Ora, ora, então existe uma coisa chamada prioridade administrativa? Descobriram! Talvez daqui a pouco alguém descubra também que prefeitura não é produtora de eventos, agência de entretenimento ou patrocinadora particular de artistas milionários.

 

O caso de Santa Bárbara do Tugúrio não é uma aberração isolada. É apenas mais um capítulo de uma novela que vem se repetindo em dezenas de municípios brasileiros. E quase sempre com o mesmo roteiro: Município pequeno, população carente, serviços públicos deficientes, estradas ruins, problemas na saúde, deficiências na educação, infraestrutura pedindo socorro. Mas, quando chega a hora da festa... surge dinheiro. E surge dinheiro rápido, muito dinheiro.

 

Dinheiro suficiente para contratar artistas que cobram centenas de milhares de reais por uma única apresentação. Entre os nomes contratados para a Festa da Banana estão Ana Castela (sempre ela) e Gustavo Mioto, além de nomes inexpressivos como Muriel Alves, Igor Ferrari, Yuri e Troy e Delino Marçal. Ana Castela, que já ganhou entre críticos e indignados com a gastança pública o nada carinhoso apelido de Vampira dos Recursos Públicos, tornou-se um verdadeiro fenômeno quando o assunto é cachê pago por prefeituras. E não é difícil entender a ironia do apelido.

 

Ela chega ao Município, canta durante algumas horas, recebe uma fortuna e vai embora. Quem fica? O Município com suas contas, suas necessidades, seus problemas, e, evidentemente, a conta para o contribuinte pagar. Enquanto o MPMG finalmente resolve olhar para a questão, basta atravessar algumas páginas do diário oficial para encontrar situações igualmente assustadoras. Em Nova Belém (MG), Município com aproximadamente três mil habitantes, a Prefeitura contratou Ana Castela por R$ 900 mil.

 


Novecentos mil reais para uma única apresentação. E, como se isso já não fosse suficientemente extravagante, houve ainda a contratação do péssimo Guilherme Silva por cerca de R$ 200 mil. Enquanto isso, a população continua convivendo com as dificuldades cotidianas de um Município pequeno, onde cada real deveria ser tratado como patrimônio sagrado. Mas aparentemente há uma matemática curiosa na administração pública: Para resolver problemas básicos, falta dinheiro. Para contratar celebridade, aparece.

 

É quase um fenômeno paranormal, e talvez algum pesquisador precise estudar. O problema não é fazer festa. Antes que apareçam os defensores profissionais dos grandes cachês, é preciso deixar uma coisa absolutamente clara: ninguém é contra festa, contra a cultura, contra música ou contra diversão. O que se questiona é a proporcionalidade e a prioridade do gasto público. Uma cidade de três ou quatro mil habitantes realmente precisa gastar centenas de milhares de reais em uma única artista?

 

Uma prefeitura que enfrenta dificuldades em serviços essenciais precisa desembolsar R$ 900 mil por algumas horas de entretenimento? E, principalmente: quem fiscaliza isso antes de o dinheiro sair dos cofres públicos? Porque depois que o dinheiro foi pago, o artista recebeu e o palco foi desmontado, não adianta muita coisa descobrir que talvez o gasto fosse inadequado. Fiscalização não deveria ser uma ambulância administrativa chamada somente depois do acidente.

 

É impossível não reconhecer a importância da iniciativa do Ministério Público de Minas Gerais. Se existem indícios de que contratos milionários podem comprometer recursos essenciais, é obrigação dos órgãos de controle investigar. Mas também é impossível deixar de fazer uma pergunta incômoda: por que só agora? Quantas festas foram realizadas? Quantos cachês milionários já foram pagos? Quantos municípios pequenos comprometeram parcelas significativas de seus recursos com artistas?

 

Quantos contratos passaram pelos órgãos de controle sem provocar qualquer reação? Quantas denúncias precisaram ser feitas até que alguém resolvesse perguntar se aquilo tudo fazia sentido? O Ministério Público parece ter finalmente descoberto a festa. O problema é que a festa já estava acontecendo há bastante tempo. E com dinheiro público. Agora resta saber se essa ação será apenas um episódio isolado ou se representará o início de uma fiscalização muito mais ampla sobre essa verdadeira indústria dos shows milionários bancados por prefeituras.

 

Porque, se houver disposição para investigar, há muito mais coisa para encontrar. E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro problema. Não faltam municípios gastando, não faltam artistas cobrando, não faltam contratos milionários. O que parece ter faltado, durante muito tempo, foi alguém perguntar: “mas precisa mesmo gastar tudo isso?” Enquanto essa pergunta não for feita antes da assinatura dos contratos, o contribuinte continuará pagando a conta de uma festa que, para ele, muitas vezes termina antes mesmo de começar.

 

E talvez esteja na hora de mudar o espetáculo, porque o cidadão já cansou de assistir à mesma apresentação: a prefeitura anuncia, o artista canta, seu empresário recebe, prefeito posa para fotografia e o contribuinte fica com a conta. Agora, pelo menos, o Ministério Público parece ter comprado ingresso para assistir de perto. Esperemos que não seja daqueles ingressos que dão direito apenas à primeira fila, porque a farra dos milhões ainda tem muitos capítulos pela frente.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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