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26/08/2026

Pagar R$ 900 mil por um show de cantora meia boca não é festa, é debochar dá população

Contratar Ana Castela é jogar dinheiro no lixo

Por *Elvécio Andrade

 

Há algo profundamente errado quando um Município com apenas 3.151 habitantes, como Nova Belém, no Leste de Minas Gerais, encontra dinheiro para desembolsar R$ 900 mil por um único show, enquanto a população convive com carências que deveriam ser prioridade absoluta de qualquer administração pública.

 

A prefeitura contratou a péssima cantora Ana Castela por esse valor para uma apresentação na cidade durante a Festa do Café. Pode até existir justificativa legal para a contratação, pode até haver previsão orçamentária e pode até aparecer toda a papelada necessária para transformar o gasto em algo formalmente correto. Mas existe uma pergunta que nenhum documento consegue calar: é moralmente aceitável gastar R$ 900 mil em algumas horas de festa em uma cidade onde falta investimento em saúde, educação, infraestrutura e qualidade de vida? Isso sem contar a contratação do também horrível cantor Guilherme Silva, cujo cachê gira em torno de R$ 200 a R$ 250 mil, segundo apuração.

 

Segundo dados do Tesouro Transparente, Nova Belém recebeu, até a data da consulta, R$ 10,34 milhões em repasses do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) em 2026. O cachê da cantora representa aproximadamente 8,7% de todo esse montante. Traduzindo para uma linguagem que qualquer cidadão pode entender: a cada R$ 100,00 recebidos pelo Município de FPM, quase R$ 9,00 foram comprometidos com um único espetáculo. Nove reais em cada cem.

 

Para um Município pequeno, isso não é pouca coisa. É dinheiro público. É dinheiro que poderia ajudar a equipar uma unidade de saúde, melhorar escolas, recuperar estradas, ampliar serviços públicos, comprar medicamentos, investir em saneamento, melhorar a infraestrutura urbana ou financiar projetos capazes de produzir benefícios muito mais duradouros do que algumas horas de música ruim, iluminação e fogos.

 

E aqui está o ponto mais revoltante: show termina. O problema da população fica. A música acaba. O palco é desmontado. Os artistas vão embora. As luzes se apagam. Mas o morador continua esperando atendimento médico, continua enfrentando dificuldades de transporte, continua convivendo com problemas de infraestrutura e continua pagando impostos para que o poder público faça aquilo que realmente importa.

 


Não se trata de ser contra festas ou contra a contratação de artistas. Uma administração pública também pode promover cultura e entretenimento. O problema é quando o espetáculo começa a ocupar o lugar da prioridade. Porque R$ 900 mil não são aplausos. São escolhas. E toda escolha feita com dinheiro público revela aquilo que o administrador considera prioridade.

 

O caso de Nova Belém ganha ainda mais dimensão quando se observa que a contratação faz parte de 26 contratos identificados no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) para shows de Ana Castela contratados por prefeituras em 2026. Juntos, esses contratos chegam a R$ 22,68 milhões. É muito dinheiro circulando em nome da festa enquanto tantos municípios brasileiros continuam lutando para oferecer serviços públicos básicos.

 

E talvez seja justamente aí que esteja a maior perversidade desse modelo: o dinheiro público é finito, mas a necessidade da população é praticamente infinita. Quando uma prefeitura decide gastar R$ 900 mil em um show, ela não está simplesmente escolhendo uma cantora. Está escolhendo onde colocar R$ 900 mil que pertencem à coletividade. E o cidadão tem todo o direito de perguntar: Quantas vidas poderiam ser melhoradas com esse dinheiro? Quantos problemas poderiam ser resolvidos? Quantos investimentos poderiam permanecer na cidade depois que o palco fosse desmontado?

 

Porque contratar uma estrela para uma noite pode render fotos, aplausos e dividendos políticos imediatos. Investir em saúde, educação, moradia e infraestrutura talvez renda menos fotografia e menos palanque, mas melhora a vida das pessoas. E é exatamente por isso que a população precisa ficar atenta. Não existe nada de errado em levar cultura e entretenimento aos municípios. Errado é transformar o dinheiro público em espetáculo enquanto o cidadão continua vivendo na realidade do abandono. Nova Belém não precisa apenas de uma noite de festa. Precisa de investimentos que permaneçam quando a festa acabar.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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