Por *Elvécio Andrade
Há algo profundamente errado quando
um Município com apenas 3.151 habitantes, como Nova Belém, no Leste de Minas
Gerais, encontra dinheiro para desembolsar R$ 900 mil por um único show,
enquanto a população convive com carências que deveriam ser prioridade absoluta
de qualquer administração pública.
A prefeitura contratou a péssima cantora Ana Castela por esse valor para uma apresentação na cidade durante a Festa do Café. Pode até existir justificativa legal para a contratação, pode até haver previsão orçamentária e pode até aparecer toda a papelada necessária para transformar o gasto em algo formalmente correto. Mas existe uma pergunta que nenhum documento consegue calar: é moralmente aceitável gastar R$ 900 mil em algumas horas de festa em uma cidade onde falta investimento em saúde, educação, infraestrutura e qualidade de vida? Isso sem contar a contratação do também horrível cantor Guilherme Silva, cujo cachê gira em torno de R$ 200 a R$ 250 mil, segundo apuração.
Segundo dados do Tesouro Transparente,
Nova Belém recebeu, até a data da consulta, R$ 10,34 milhões em repasses do FPM
(Fundo de Participação dos Municípios) em 2026. O cachê da cantora representa
aproximadamente 8,7% de todo esse montante. Traduzindo para uma linguagem que
qualquer cidadão pode entender: a cada R$ 100,00 recebidos pelo Município de
FPM, quase R$ 9,00 foram comprometidos com um único espetáculo. Nove reais em
cada cem.
Para um Município pequeno, isso não é
pouca coisa. É dinheiro público. É dinheiro que poderia ajudar a equipar uma
unidade de saúde, melhorar escolas, recuperar estradas, ampliar serviços
públicos, comprar medicamentos, investir em saneamento, melhorar a infraestrutura
urbana ou financiar projetos capazes de produzir benefícios muito mais
duradouros do que algumas horas de música ruim, iluminação e fogos.
E aqui está o ponto mais revoltante:
show termina. O problema da população fica. A música acaba. O palco é
desmontado. Os artistas vão embora. As luzes se apagam. Mas o morador continua
esperando atendimento médico, continua enfrentando dificuldades de transporte,
continua convivendo com problemas de infraestrutura e continua pagando impostos
para que o poder público faça aquilo que realmente importa.
Não se trata de ser contra festas ou
contra a contratação de artistas. Uma administração pública também pode
promover cultura e entretenimento. O problema é quando o espetáculo começa a
ocupar o lugar da prioridade. Porque R$ 900 mil não são aplausos. São escolhas.
E toda escolha feita com dinheiro público revela aquilo que o administrador
considera prioridade.
O caso de Nova Belém ganha ainda mais
dimensão quando se observa que a contratação faz parte de 26 contratos
identificados no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) para shows de
Ana Castela contratados por prefeituras em 2026. Juntos, esses contratos chegam
a R$ 22,68 milhões. É muito dinheiro circulando em nome da festa enquanto
tantos municípios brasileiros continuam lutando para oferecer serviços públicos
básicos.
E talvez seja justamente aí que
esteja a maior perversidade desse modelo: o dinheiro público é finito, mas a
necessidade da população é praticamente infinita. Quando uma prefeitura decide
gastar R$ 900 mil em um show, ela não está simplesmente escolhendo uma cantora.
Está escolhendo onde colocar R$ 900 mil que pertencem à coletividade. E o
cidadão tem todo o direito de perguntar: Quantas vidas poderiam ser melhoradas
com esse dinheiro? Quantos problemas poderiam ser resolvidos? Quantos
investimentos poderiam permanecer na cidade depois que o palco fosse
desmontado?
Porque contratar uma estrela para uma
noite pode render fotos, aplausos e dividendos políticos imediatos. Investir em
saúde, educação, moradia e infraestrutura talvez renda menos fotografia e menos
palanque, mas melhora a vida das pessoas. E é exatamente por isso que a
população precisa ficar atenta. Não existe nada de errado em levar cultura e
entretenimento aos municípios. Errado é transformar o dinheiro público em
espetáculo enquanto o cidadão continua vivendo na realidade do abandono. Nova
Belém não precisa apenas de uma noite de festa. Precisa de investimentos que
permaneçam quando a festa acabar.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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