Por *Elvécio Andrade
Há reuniões políticas
que servem para discutir propostas, apresentar ideias e falar sobre o futuro. E
há outras que parecem uma viagem no tempo. A reunião realizada em Cachoeiro de
Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, na quinta-feira, 30 de julho, pertence à
segunda categoria. Ali se juntou um verdadeiro catálogo das velhas práticas e
dos velhos discursos que a política capixaba deveria ter vergonha de apresentar
como novidade.
Estavam no mesmo ambiente o que há de pior na
política capixaba. O senador Magno Malta, ex-prefeito de Vitória Lorenzo
Pazolini, o deputado cassado Gilvan da Federal, Maguinha Malta e outras figuras
do grupo político que pretende disputar o poder no Espírito Santo. Se alguém
tivesse a ideia de reunir, numa única fotografia, o que há de mais atrasado e
controverso na política capixaba, dificilmente conseguiria uma composição tão
eficiente.
Faltou apenas uma placa na entrada: “Bem-vindos
ao passado. O futuro fica do outro lado da rua.” Mas Magno Malta, como sempre,
não decepcionou. Quando parecia que o país finalmente começava a virar a página
de uma das maiores tragédias sanitárias de sua história, o senador resolveu
abrir novamente o velho baú do negacionismo. Cloroquina. Ivermectina. Ataques
às vacinas. Desconfiança da ciência. Tudo isso novamente servido como prato
principal.
É como se algumas pessoas tivessem decidido
que, se não conseguiram convencer o Brasil durante a pandemia, poderiam tentar
novamente alguns anos depois. Só esqueceram de avisar que a ciência continuou
trabalhando enquanto o palanque permanecia parado. A Anvisa já havia
esclarecido que não existiam evidências conclusivas para recomendar cloroquina
ou hidroxicloroquina contra a Covid-19. E as vacinas foram submetidas a
avaliação de segurança e eficácia antes de sua utilização em larga escala.
Mas isso parece não importar muito quando o
objetivo é manter acesa uma guerra política. E então veio outra declaração
reveladora: Magno Malta afirmou que sua filha nunca tomou vacina contra a
Covid. Tudo bem. A decisão sobre a saúde de uma família pertence à própria
família, dentro das orientações médicas e das regras sanitárias vigentes. Mas
transformar uma decisão familiar em argumento para atacar políticas de
vacinação é outra história.
É o velho truque de transformar “aconteceu
comigo” em “logo, é verdade para todo mundo”. Não funciona assim. Se
funcionasse, bastaria encontrar alguém que nunca usou cinto de segurança e
nunca sofreu acidente para concluir que cinto de segurança é inútil. Mas existe
uma diferença fundamental entre experiência pessoal e evidência científica. E
talvez essa diferença seja justamente aquilo que alguns políticos mais insistem
em ignorar.
Porque o Brasil não está discutindo uma
abstração. Estamos falando de uma doença que matou mais de 716 mil brasileiros
justamente pela irresponsabilidade de um ex-presidente negacionista. Mais de
716 mil pessoas. Não são números. São histórias. São famílias. São filhos sem
pais. Pais sem filhos. Avós que não viram netos crescerem. Amigos que
desapareceram. Casamentos interrompidos. Sonhos destruídos.
E, depois de tudo isso, ainda precisamos
assistir a um senador da República ressuscitando as mesmas narrativas que
marcaram aquele período? É de uma irresponsabilidade assustadora. Mas talvez o
detalhe mais interessante seja justamente o cenário. Não foi uma conversa
particular na sala de casa. Não foi uma roda de amigos. Foi um evento político.
E, ao lado de Magno Malta, estava Lorenzo Pazolini, que quer ser governador,
entre outras lideranças. Isso importa. Porque palanque também comunica.
Quem escolhe os companheiros de palco está
apresentando ao eleitor, ainda que indiretamente, o ambiente político que
pretende construir. E o eleitor capixaba precisa prestar atenção. Não basta
perguntar quem será candidato. É preciso perguntar: Quem estará ao lado dele? Que
ideias serão defendidas? Que discursos serão tolerados? Que tipo de política
será praticada?
Porque o Espírito Santo já tem problemas demais
para perder tempo ressuscitando a Cloroquina como se estivéssemos novamente em
2020. O Estado precisa discutir saúde pública, educação, segurança, infraestrutura,
emprego, desenvolvimento, tecnologia e saneamento. Mas parece que alguns
descobriram uma fórmula muito mais simples: pegue uma vacina, acrescente uma
dose de Cloroquina, coloque Ivermectina a gosto, misture com polarização
política e leve ao palanque.
Pronto. Está servido o projeto político. Só
faltou a bula. E talvez ela trouxesse uma advertência: “Este discurso pode
causar efeitos colaterais graves: desinformação, polarização e amnésia
histórica.” Porque há uma coisa que não pode ser esquecida. A política não tem
o direito de transformar tragédias em brinquedos eleitorais. A dor de milhares
de famílias não pode virar munição para ganhar aplausos. E a ciência não pode
ser tratada como adversária política.
Quem quiser combater adversários, que combata
com argumentos. Quem quiser ganhar eleição, que apresente propostas. Quem
quiser governar, que mostre competência. Mas, por favor, deixem a medicina fora
do palanque e a ciência fora da guerra ideológica. O Espírito Santo merece
políticos que olhem para frente. Não políticos tentando reconstruir o futuro
com as ferramentas quebradas do passado.
E aquela fotografia de Cachoeiro talvez tenha
servido justamente para isso: mostrar ao eleitor capixaba quem está de cada
lado da história. De um lado, a ciência, as evidências, a responsabilidade e a
memória das vítimas. Do outro, o negacionismo, a desinformação e a insistência
de políticos desprezíveis em repetir velhas narrativas que já custaram caro
demais ao país.
No fim, fica uma pergunta simples: se esse é o
grupo que pretende conduzir o Espírito Santo ao futuro, por que continua tão
apaixonado pelo passado? Pelas ideias de um ser desprezível que tanto mal fez
ao país? De um ser abominável, que contribuiu para a morte de mais de 700 mil
pessoas? Talvez porque o futuro exija propostas. E o passado, aparentemente,
ainda rende aplausos.
*Elvécio Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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