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31/07/2026

Palanque do atraso reúne o que de pior existe na política capixaba para defender o passado

Senador vomita asneiras em encontro político

Por *Elvécio Andrade

 

Há reuniões políticas que servem para discutir propostas, apresentar ideias e falar sobre o futuro. E há outras que parecem uma viagem no tempo. A reunião realizada em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, na quinta-feira, 30 de julho, pertence à segunda categoria. Ali se juntou um verdadeiro catálogo das velhas práticas e dos velhos discursos que a política capixaba deveria ter vergonha de apresentar como novidade.

 

Estavam no mesmo ambiente o que há de pior na política capixaba. O senador Magno Malta, ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini, o deputado cassado Gilvan da Federal, Maguinha Malta e outras figuras do grupo político que pretende disputar o poder no Espírito Santo. Se alguém tivesse a ideia de reunir, numa única fotografia, o que há de mais atrasado e controverso na política capixaba, dificilmente conseguiria uma composição tão eficiente.

 

Faltou apenas uma placa na entrada: “Bem-vindos ao passado. O futuro fica do outro lado da rua.” Mas Magno Malta, como sempre, não decepcionou. Quando parecia que o país finalmente começava a virar a página de uma das maiores tragédias sanitárias de sua história, o senador resolveu abrir novamente o velho baú do negacionismo. Cloroquina. Ivermectina. Ataques às vacinas. Desconfiança da ciência. Tudo isso novamente servido como prato principal.

 

É como se algumas pessoas tivessem decidido que, se não conseguiram convencer o Brasil durante a pandemia, poderiam tentar novamente alguns anos depois. Só esqueceram de avisar que a ciência continuou trabalhando enquanto o palanque permanecia parado. A Anvisa já havia esclarecido que não existiam evidências conclusivas para recomendar cloroquina ou hidroxicloroquina contra a Covid-19. E as vacinas foram submetidas a avaliação de segurança e eficácia antes de sua utilização em larga escala.

 

Mas isso parece não importar muito quando o objetivo é manter acesa uma guerra política. E então veio outra declaração reveladora: Magno Malta afirmou que sua filha nunca tomou vacina contra a Covid. Tudo bem. A decisão sobre a saúde de uma família pertence à própria família, dentro das orientações médicas e das regras sanitárias vigentes. Mas transformar uma decisão familiar em argumento para atacar políticas de vacinação é outra história.

 

É o velho truque de transformar “aconteceu comigo” em “logo, é verdade para todo mundo”. Não funciona assim. Se funcionasse, bastaria encontrar alguém que nunca usou cinto de segurança e nunca sofreu acidente para concluir que cinto de segurança é inútil. Mas existe uma diferença fundamental entre experiência pessoal e evidência científica. E talvez essa diferença seja justamente aquilo que alguns políticos mais insistem em ignorar.

 

Porque o Brasil não está discutindo uma abstração. Estamos falando de uma doença que matou mais de 716 mil brasileiros justamente pela irresponsabilidade de um ex-presidente negacionista. Mais de 716 mil pessoas. Não são números. São histórias. São famílias. São filhos sem pais. Pais sem filhos. Avós que não viram netos crescerem. Amigos que desapareceram. Casamentos interrompidos. Sonhos destruídos.

 


E, depois de tudo isso, ainda precisamos assistir a um senador da República ressuscitando as mesmas narrativas que marcaram aquele período? É de uma irresponsabilidade assustadora. Mas talvez o detalhe mais interessante seja justamente o cenário. Não foi uma conversa particular na sala de casa. Não foi uma roda de amigos. Foi um evento político. E, ao lado de Magno Malta, estava Lorenzo Pazolini, que quer ser governador, entre outras lideranças. Isso importa. Porque palanque também comunica.

 

Quem escolhe os companheiros de palco está apresentando ao eleitor, ainda que indiretamente, o ambiente político que pretende construir. E o eleitor capixaba precisa prestar atenção. Não basta perguntar quem será candidato. É preciso perguntar: Quem estará ao lado dele? Que ideias serão defendidas? Que discursos serão tolerados? Que tipo de política será praticada?

 

Porque o Espírito Santo já tem problemas demais para perder tempo ressuscitando a Cloroquina como se estivéssemos novamente em 2020. O Estado precisa discutir saúde pública, educação, segurança, infraestrutura, emprego, desenvolvimento, tecnologia e saneamento. Mas parece que alguns descobriram uma fórmula muito mais simples: pegue uma vacina, acrescente uma dose de Cloroquina, coloque Ivermectina a gosto, misture com polarização política e leve ao palanque.

 

Pronto. Está servido o projeto político. Só faltou a bula. E talvez ela trouxesse uma advertência: “Este discurso pode causar efeitos colaterais graves: desinformação, polarização e amnésia histórica.” Porque há uma coisa que não pode ser esquecida. A política não tem o direito de transformar tragédias em brinquedos eleitorais. A dor de milhares de famílias não pode virar munição para ganhar aplausos. E a ciência não pode ser tratada como adversária política.

 

Quem quiser combater adversários, que combata com argumentos. Quem quiser ganhar eleição, que apresente propostas. Quem quiser governar, que mostre competência. Mas, por favor, deixem a medicina fora do palanque e a ciência fora da guerra ideológica. O Espírito Santo merece políticos que olhem para frente. Não políticos tentando reconstruir o futuro com as ferramentas quebradas do passado.

 

E aquela fotografia de Cachoeiro talvez tenha servido justamente para isso: mostrar ao eleitor capixaba quem está de cada lado da história. De um lado, a ciência, as evidências, a responsabilidade e a memória das vítimas. Do outro, o negacionismo, a desinformação e a insistência de políticos desprezíveis em repetir velhas narrativas que já custaram caro demais ao país.

 

No fim, fica uma pergunta simples: se esse é o grupo que pretende conduzir o Espírito Santo ao futuro, por que continua tão apaixonado pelo passado? Pelas ideias de um ser desprezível que tanto mal fez ao país? De um ser abominável, que contribuiu para a morte de mais de 700 mil pessoas? Talvez porque o futuro exija propostas. E o passado, aparentemente, ainda rende aplausos.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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