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25/08/2026

O estranho silêncio diante de Flávio Bolsonaro enquanto Lulinha vira alvo permanente

Flávio Dino é o antídoto contra as derrapadas do bolsonarista André Mendonça no STF

Por *Elvécio Andrade

 

Há decisões judiciais que precisam ser analisadas não apenas pelo que determinam, mas também pelo contexto em que são tomadas. E o caso envolvendo o filme Dark Horse, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e as investigações que atingem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, coloca novamente uma pergunta incômoda sobre a mesa: a Justiça brasileira está utilizando a mesma régua para todos?

 

Na segunda-feira, 24, o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a Polícia Federal a acessar os dados apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo durante a operação que investigou Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse. A investigação paulista apura suspeitas de fraudes e desvios de recursos públicos em um contrato de R$ 108 milhões envolvendo o Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora.

 

E aqui está o ponto que merece toda a atenção. A Polícia Federal investiga se recursos públicos e emendas parlamentares foram utilizados irregularmente na produção do filme que tenta transformar Jair Bolsonaro em personagem cinematográfico. Entre os parlamentares citados nas apurações está Mário Frias, que destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil.

 

E o caso ganhou uma dimensão ainda maior depois que vieram a público informações de que Flávio Bolsonaro havia pedido R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção. Vorcaro, por sua vez, é figura central nas investigações do caso Banco Master. Flávio nega irregularidades e afirma que os recursos eram privados.

 

Ora, se existe suspeita de dinheiro público, emendas parlamentares e recursos de um banqueiro investigado circulando em torno de uma produção cinematográfica ligada diretamente à família Bolsonaro, é absolutamente legítimo perguntar: até onde vai essa investigação? Quem será efetivamente investigado? E por que determinados personagens parecem sempre receber um tratamento diferente?

 

Não se trata de pedir condenação antecipada de ninguém. Muito pelo contrário. Se há suspeitas, que sejam investigadas até o fim. Se não há crime, que os investigados sejam inocentados. É exatamente assim que deveria funcionar um Estado Democrático de Direito. O problema começa quando a percepção de tratamento desigual passa a contaminar a confiança da sociedade nas instituições. Veja-se o caso de Lulinha.

 

Em fevereiro, a pedido da Polícia Federal, André Mendonça determinou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva. Meses depois, o nome de Lulinha continua sendo explorado politicamente, especialmente em ano eleitoral. A PF mantém investigações sobre suspeitas de tráfico de influência, enquanto a defesa nega qualquer irregularidade. A própria PGR pediu que um dos inquéritos fosse enviado à primeira instância por não envolver autoridade com foro privilegiado.

 


E há algo ainda mais curioso: diante dos vazamentos de informações sigilosas envolvendo Lulinha, o próprio Mendonça determinou investigação para descobrir quem teria vazado os dados. Isso é correto. Sigilo judicial precisa ser respeitado. Mas a sociedade tem o direito de perguntar por que determinadas investigações parecem ganhar uma exposição pública gigantesca enquanto outras avançam em velocidade muito diferente.

 

No caso Banco Master, por exemplo, Flávio Bolsonaro aparece politicamente associado às investigações envolvendo Daniel Vorcaro e também ao episódio do financiamento de Dark Horse. A PF continua apurando o caso, enquanto Mendonça é o relator das investigações relacionadas ao Master. E é justamente aí que mora a pergunta que ninguém deveria ter medo de fazer: se a Justiça deve ser cega, por que às vezes parece enxergar uns muito melhor do que outros? Não estamos falando de proteger Lulinha. Se Lulinha cometeu crime, que seja investigado, denunciado, julgado e, havendo provas, condenado.

 

Filho de presidente não pode estar acima da lei. Mas exatamente pela mesma lógica, filho de ex-presidente também não pode estar acima dela. Não existe Estado Democrático de Direito quando a régua muda conforme o sobrenome do investigado. O Brasil já sofreu demais com a transformação da Justiça em instrumento de disputa política. Já vimos investigações serem utilizadas como munição eleitoral, vazamentos destruírem reputações e suspeitas serem apresentadas como condenações antes mesmo de qualquer julgamento.

 

Por isso, a cobrança precisa ser simples e absolutamente democrática: investiguem todos. Quebrem sigilos quando houver fundamento legal. Façam buscas quando houver elementos para isso. Apreendam documentos quando a Justiça autorizar. Sigam o dinheiro. Sigam os contratos. Sigam as emendas. Sigam os banqueiros. Sigam os políticos. Mas façam tudo isso com a mesma régua. Porque se a Justiça for implacável com Lulinha e seletivamente cautelosa quando o nome envolvido for Flávio Bolsonaro, não teremos justiça.

 

Teremos apenas a velha política usando instituições diferentes para produzir resultados diferentes. E o cidadão brasileiro já está cansado de assistir a esse espetáculo. A Justiça não pode ter lado. Não pode ter candidato. Não pode ter filho preferido. E, principalmente, não pode escolher quem merece ser investigado com lupa e quem merece ser observado com binóculo. Se há irregularidades no caso Dark Horse, que se descubra tudo.

 

Se há irregularidades no caso Master, que se descubra tudo. Se há irregularidades envolvendo Lulinha, que se descubra tudo. E se não houver crime, que todos sejam absolvidos. A única coisa que não pode ser aceita é uma Justiça de dois pesos e duas medidas. Porque quando a Justiça perde a aparência de imparcialidade, quem perde não é Lula, Bolsonaro, Flávio ou Lulinha. Quem perde é a própria democracia.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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