Por *Elvécio Andrade
Quatro anos. Foram quatro
longos anos de espera, dor, saudade e revolta. Quatro anos desde que uma
família foi destruída e duas vidas foram brutalmente interrompidas por uma
combinação que, infelizmente, ainda insiste em fazer vítimas todos os dias:
álcool, irresponsabilidade e direção. Na quinta-feira, 23, finalmente veio a
condenação de Gilsie Brito de Souza, sentenciado a 42 anos de prisão pela morte
de Inevaldo de Medeiros Araújo e Valdirene de Fátima Belsof Campi, vítimas de
um acidente ocorrido em Rio Bananal, no Norte do Espírito Santo.
A condenação merece ser
comemorada. Não porque possa devolver Inevaldo e Valdirene às suas famílias,
nada neste mundo será capaz de fazer isso, mas porque representa, ainda que
tardia, uma resposta da Justiça diante de uma tragédia que jamais deveria ter
acontecido. Naquele fatídico 3 de abril de 2022, Inevaldo voltava do trabalho
como guarda-vidas na Lagoa Jesuína, ao lado de Valdirene, sua companheira de
quatro anos. Eles seguiam de motocicleta pela Rodovia Roberto Calmon, a ES-245,
quando tiveram suas vidas brutalmente arrancadas.
Segundo a acusação, Gilsie
dirigia embriagado, sem CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e invadiu a
contramão, provocando a colisão frontal com a motocicleta do casal. Como se
toda essa irresponsabilidade já não fosse suficientemente monstruosa, após o
acidente, ele ainda fugiu do local sem prestar socorro. Inevaldo e Valdirene
morreram ali. Duas pessoas. Dois seres humanos. Dois sonhos interrompidos. Duas
famílias condenadas a conviver para sempre com uma ausência que jamais será
preenchida.
O Tribunal do Júri reconheceu
que Gilsie praticou dois homicídios qualificados com dolo eventual, pois
assumiu o risco de provocar as mortes ao dirigir sob efeito de álcool e sem
habilitação. Foram 21 anos de reclusão pela morte de cada vítima, com
determinação de início imediato do cumprimento da pena. É uma condenação dura.
E, diante da gravidade dos fatos, necessária. Mas fica uma pergunta que não
quer calar: por que foi preciso esperar tanto?
Foram quatro anos até que o
julgamento finalmente acontecesse. Quatro anos de angústia para familiares que,
além de perderem seus entes queridos de maneira tão brutal, precisaram esperar
pela resposta do Poder Judiciário. A Justiça não pode ser apenas justa. Ela
também precisa ser célere. Para quem perdeu alguém, cada dia de espera pode
parecer uma eternidade. Enquanto processos caminham lentamente, a dor das
famílias não diminui. A saudade não prescreve. O sofrimento não entra em
recesso. E a ausência continua presente todos os dias.
A condenação de Gilsie traz,
portanto, um sentimento contraditório: alívio pela justiça finalmente ter sido
feita e indignação pelo tempo que levou para acontecer. Mas essa tragédia
também precisa servir de alerta para uma prática que ainda é absurdamente
comum: dirigir depois de beber. Não existe "só uma cervejinha". Não
existe "eu estou bem para dirigir". Não existe "é
pertinho". Não existe "comigo nunca aconteceu nada". Existe,
sim, a possibilidade concreta de transformar um momento de irresponsabilidade
em uma tragédia irreversível.
Quem bebe e dirige não coloca
apenas a própria vida em risco. Coloca em risco a vida de pessoas inocentes que
estão voltando do trabalho, levando os filhos para casa, indo visitar
familiares ou simplesmente seguindo suas vidas. Inevaldo e Valdirene estavam
apenas seguindo o caminho de volta para casa. Não voltaram. E essa é a parte
mais cruel de tudo: eles não tiveram escolha.
A escolha foi de quem decidiu
dirigir depois de ingerir bebida alcoólica. A escolha foi de quem acreditou que
poderia desafiar a própria sorte. A escolha foi de quem se colocou ao volante
sem habilitação e, segundo a condenação, assumiu o risco de matar. Que a
condenação sirva de resposta aos familiares de Inevaldo e Valdirene. Que sirva
também de alerta para todos aqueles que ainda insistem em misturar álcool e
direção.
E que sirva, sobretudo, para
que a sociedade compreenda uma verdade que deveria ser óbvia: quando alguém
bebe e dirige, não está cometendo uma simples imprudência. Está colocando vidas
em uma roleta macabra. A Justiça chegou. Tarde, mas chegou. Para Inevaldo e
Valdirene, infelizmente, chegou tarde demais. Para suas famílias, nenhuma sentença
será capaz de reparar a perda.
Mas que a condenação traga ao
menos a certeza de que duas vidas não foram esquecidas e de que a
irresponsabilidade ao volante pode, sim, cobrar um preço alto. Porque beber e
dirigir não é coragem. Não é diversão. Não é azar. É irresponsabilidade. E,
quando essa irresponsabilidade mata, deixa para trás uma sentença que nenhuma
família deveria jamais precisar suportar: a condenação de viver para sempre com
a saudade de quem nunca mais vai voltar.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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