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29/07/2026

Homem que dirigia embriagado e matou casal em Rio Bananal é condenado a 42 anos de prisão

Inevaldo e Valdirene: vítimas da irresponsabilidade no trânsito

Por *Elvécio Andrade

 

Quatro anos. Foram quatro longos anos de espera, dor, saudade e revolta. Quatro anos desde que uma família foi destruída e duas vidas foram brutalmente interrompidas por uma combinação que, infelizmente, ainda insiste em fazer vítimas todos os dias: álcool, irresponsabilidade e direção. Na quinta-feira, 23, finalmente veio a condenação de Gilsie Brito de Souza, sentenciado a 42 anos de prisão pela morte de Inevaldo de Medeiros Araújo e Valdirene de Fátima Belsof Campi, vítimas de um acidente ocorrido em Rio Bananal, no Norte do Espírito Santo.

 

A condenação merece ser comemorada. Não porque possa devolver Inevaldo e Valdirene às suas famílias, nada neste mundo será capaz de fazer isso, mas porque representa, ainda que tardia, uma resposta da Justiça diante de uma tragédia que jamais deveria ter acontecido. Naquele fatídico 3 de abril de 2022, Inevaldo voltava do trabalho como guarda-vidas na Lagoa Jesuína, ao lado de Valdirene, sua companheira de quatro anos. Eles seguiam de motocicleta pela Rodovia Roberto Calmon, a ES-245, quando tiveram suas vidas brutalmente arrancadas.

 

Segundo a acusação, Gilsie dirigia embriagado, sem CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e invadiu a contramão, provocando a colisão frontal com a motocicleta do casal. Como se toda essa irresponsabilidade já não fosse suficientemente monstruosa, após o acidente, ele ainda fugiu do local sem prestar socorro. Inevaldo e Valdirene morreram ali. Duas pessoas. Dois seres humanos. Dois sonhos interrompidos. Duas famílias condenadas a conviver para sempre com uma ausência que jamais será preenchida.

 

O Tribunal do Júri reconheceu que Gilsie praticou dois homicídios qualificados com dolo eventual, pois assumiu o risco de provocar as mortes ao dirigir sob efeito de álcool e sem habilitação. Foram 21 anos de reclusão pela morte de cada vítima, com determinação de início imediato do cumprimento da pena. É uma condenação dura. E, diante da gravidade dos fatos, necessária. Mas fica uma pergunta que não quer calar: por que foi preciso esperar tanto?

 

Foram quatro anos até que o julgamento finalmente acontecesse. Quatro anos de angústia para familiares que, além de perderem seus entes queridos de maneira tão brutal, precisaram esperar pela resposta do Poder Judiciário. A Justiça não pode ser apenas justa. Ela também precisa ser célere. Para quem perdeu alguém, cada dia de espera pode parecer uma eternidade. Enquanto processos caminham lentamente, a dor das famílias não diminui. A saudade não prescreve. O sofrimento não entra em recesso. E a ausência continua presente todos os dias.

 


A condenação de Gilsie traz, portanto, um sentimento contraditório: alívio pela justiça finalmente ter sido feita e indignação pelo tempo que levou para acontecer. Mas essa tragédia também precisa servir de alerta para uma prática que ainda é absurdamente comum: dirigir depois de beber. Não existe "só uma cervejinha". Não existe "eu estou bem para dirigir". Não existe "é pertinho". Não existe "comigo nunca aconteceu nada". Existe, sim, a possibilidade concreta de transformar um momento de irresponsabilidade em uma tragédia irreversível.

 

Quem bebe e dirige não coloca apenas a própria vida em risco. Coloca em risco a vida de pessoas inocentes que estão voltando do trabalho, levando os filhos para casa, indo visitar familiares ou simplesmente seguindo suas vidas. Inevaldo e Valdirene estavam apenas seguindo o caminho de volta para casa. Não voltaram. E essa é a parte mais cruel de tudo: eles não tiveram escolha.

 

A escolha foi de quem decidiu dirigir depois de ingerir bebida alcoólica. A escolha foi de quem acreditou que poderia desafiar a própria sorte. A escolha foi de quem se colocou ao volante sem habilitação e, segundo a condenação, assumiu o risco de matar. Que a condenação sirva de resposta aos familiares de Inevaldo e Valdirene. Que sirva também de alerta para todos aqueles que ainda insistem em misturar álcool e direção.

 

E que sirva, sobretudo, para que a sociedade compreenda uma verdade que deveria ser óbvia: quando alguém bebe e dirige, não está cometendo uma simples imprudência. Está colocando vidas em uma roleta macabra. A Justiça chegou. Tarde, mas chegou. Para Inevaldo e Valdirene, infelizmente, chegou tarde demais. Para suas famílias, nenhuma sentença será capaz de reparar a perda.

 

Mas que a condenação traga ao menos a certeza de que duas vidas não foram esquecidas e de que a irresponsabilidade ao volante pode, sim, cobrar um preço alto. Porque beber e dirigir não é coragem. Não é diversão. Não é azar. É irresponsabilidade. E, quando essa irresponsabilidade mata, deixa para trás uma sentença que nenhuma família deveria jamais precisar suportar: a condenação de viver para sempre com a saudade de quem nunca mais vai voltar.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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