Por *Elvécio Andrade
O culto realizado no último
dia 19 de julho, em uma igreja evangélica de Fortaleza/CE, terminou em um
verdadeiro espetáculo de intolerância política, tumulto e agressões, mostrando,
mais uma vez, os riscos de transformar templos religiosos em palanques eleitorais
e púlpitos em tribunas partidárias, como vem ocorrendo nos últimos anos em todo
país.
Segundo relatos, um pastor
convidado, que não teve o nome divulgado, subiu ao púlpito para pregar, mas, em
vez de ministrar a palavra, decidiu enveredar pelo caminho da política e
defender posições ideológicas. Em determinado momento, afirmou que os
evangélicos deveriam apoiar um presidente de direita, e não um de esquerda. O
clima ficou ainda mais tenso quando, segundo os relatos, declarou que
"Lula não é crente, é do mundo".
Diante do desconforto
provocado entre os fiéis, o pastor responsável pela igreja, que também não teve
o nome revelado, pediu que o convidado interrompesse a pregação. Foi então que
o pau torou e o bambu gemeu. O que deveria ser um momento de oração, reflexão e
espiritualidade rapidamente se transformou em um cenário de discussões, acusações,
gritos, empurrões e agressões, num verdadeiro pega pra capar, com porradas
distribuídas a torto e a direito.
Em poucos minutos, o templo
virou um verdadeiro campo de batalha. Segundo testemunhas, alguns participantes
gritavam palavras de ordem políticas e frases como "mito, mito",
"Deus, pátria e família" e "Lula é o demônio", enquanto
mesas eram derrubadas e cadeiras voavam para todos os lados, em uma cena que
pouco ou nada tinha a ver com os ensinamentos de amor, respeito, fraternidade e
tolerância que deveriam nortear qualquer ambiente religioso.
E o mais curioso é que, quando
a situação ficou realmente feia, com irmãos trocando socos e rolando pelo chão,
e irmãs se estapeando e puxando os cabelos umas das outras, o pastor que
provocou toda a confusão simplesmente deixou o local. Saiu de mansinho, entrou
no carro e se escafedeu, enquanto os fiéis ficaram para trás, em meio ao
arranca-rabo generalizado. Ele se valeu da velha lógica do "joga a faísca
e corre para não apagar o incêndio".
Um dos presentes, indignado,
resumiu a situação: "Não é assim que se prega o evangelho. A política
divide, mas a palavra de Deus une". E talvez esteja justamente aí a grande
reflexão que muitos líderes religiosos precisam fazer. As igrejas,
principalmente as evangélicas, decidiram esquecer os ensinamentos de Cristo e partiram
para o ativismo político, escolhendo justamente o pior que há na política, que
Jesus, se vivo, certamente não apoiaria jamais tal escolha.
Quando o púlpito passa a ser
utilizado para promover candidatos, partidos e ideologias, o foco deixa de ser
Cristo e passa a ser o projeto político de quem está pregando. A fé vira
instrumento de mobilização eleitoral, o fiel se transforma em eleitor e a
igreja, que deveria ser espaço de acolhimento e união, acaba se tornando
território de disputa política, e espaço de disseminação de ódio.
É preciso questionar até onde
pode chegar essa mistura entre religião e política. Afinal, quando uma igreja
começa a valorizar mais um político do que os princípios que prega, alguma
coisa está profundamente errada. Quando irmãos passam a enxergar outros irmãos
como inimigos por causa de voto, ideologia ou preferência partidária, é sinal
de que o discurso político conseguiu ocupar um espaço que deveria pertencer à
espiritualidade.
O episódio de Fortaleza, se
confirmados os relatos, é um retrato preocupante de uma realidade que vem se
repetindo em diferentes ambientes religiosos: a politização da fé. E quando a
política partidária entra pela porta principal, a fraternidade muitas vezes
acaba sendo expulsa pelos fundos. O resultado está aí: irmãos contra irmãos,
gritos, agressões, cadeiras voando e um templo transformado em arena política,
e em cage de MMA Gospel.
Talvez seja hora de alguns
líderes religiosos entenderem que púlpito não é palanque, pastor não é cabo
eleitoral e igreja não é comitê de campanha. A fé não precisa de candidato para
existir, muito menos de partido político para sobreviver. O amor ao próximo não
combina com empurrões, agressões, ódio político, adoração a políticos que nada
fazem pelo povo e cadeiras voando.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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