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27/07/2026

Pastor convidado fala de política na pregação, irmãos não gostam e pau come solto na igreja

O pau comeu solto dentro da igreja

Por *Elvécio Andrade

 

O culto realizado no último dia 19 de julho, em uma igreja evangélica de Fortaleza/CE, terminou em um verdadeiro espetáculo de intolerância política, tumulto e agressões, mostrando, mais uma vez, os riscos de transformar templos religiosos em palanques eleitorais e púlpitos em tribunas partidárias, como vem ocorrendo nos últimos anos em todo país.

 

Segundo relatos, um pastor convidado, que não teve o nome divulgado, subiu ao púlpito para pregar, mas, em vez de ministrar a palavra, decidiu enveredar pelo caminho da política e defender posições ideológicas. Em determinado momento, afirmou que os evangélicos deveriam apoiar um presidente de direita, e não um de esquerda. O clima ficou ainda mais tenso quando, segundo os relatos, declarou que "Lula não é crente, é do mundo".

 

Diante do desconforto provocado entre os fiéis, o pastor responsável pela igreja, que também não teve o nome revelado, pediu que o convidado interrompesse a pregação. Foi então que o pau torou e o bambu gemeu. O que deveria ser um momento de oração, reflexão e espiritualidade rapidamente se transformou em um cenário de discussões, acusações, gritos, empurrões e agressões, num verdadeiro pega pra capar, com porradas distribuídas a torto e a direito.

 

Em poucos minutos, o templo virou um verdadeiro campo de batalha. Segundo testemunhas, alguns participantes gritavam palavras de ordem políticas e frases como "mito, mito", "Deus, pátria e família" e "Lula é o demônio", enquanto mesas eram derrubadas e cadeiras voavam para todos os lados, em uma cena que pouco ou nada tinha a ver com os ensinamentos de amor, respeito, fraternidade e tolerância que deveriam nortear qualquer ambiente religioso.

 

E o mais curioso é que, quando a situação ficou realmente feia, com irmãos trocando socos e rolando pelo chão, e irmãs se estapeando e puxando os cabelos umas das outras, o pastor que provocou toda a confusão simplesmente deixou o local. Saiu de mansinho, entrou no carro e se escafedeu, enquanto os fiéis ficaram para trás, em meio ao arranca-rabo generalizado. Ele se valeu da velha lógica do "joga a faísca e corre para não apagar o incêndio".

 


Um dos presentes, indignado, resumiu a situação: "Não é assim que se prega o evangelho. A política divide, mas a palavra de Deus une". E talvez esteja justamente aí a grande reflexão que muitos líderes religiosos precisam fazer. As igrejas, principalmente as evangélicas, decidiram esquecer os ensinamentos de Cristo e partiram para o ativismo político, escolhendo justamente o pior que há na política, que Jesus, se vivo, certamente não apoiaria jamais tal escolha.

 

Quando o púlpito passa a ser utilizado para promover candidatos, partidos e ideologias, o foco deixa de ser Cristo e passa a ser o projeto político de quem está pregando. A fé vira instrumento de mobilização eleitoral, o fiel se transforma em eleitor e a igreja, que deveria ser espaço de acolhimento e união, acaba se tornando território de disputa política, e espaço de disseminação de ódio.

 

É preciso questionar até onde pode chegar essa mistura entre religião e política. Afinal, quando uma igreja começa a valorizar mais um político do que os princípios que prega, alguma coisa está profundamente errada. Quando irmãos passam a enxergar outros irmãos como inimigos por causa de voto, ideologia ou preferência partidária, é sinal de que o discurso político conseguiu ocupar um espaço que deveria pertencer à espiritualidade.

 

O episódio de Fortaleza, se confirmados os relatos, é um retrato preocupante de uma realidade que vem se repetindo em diferentes ambientes religiosos: a politização da fé. E quando a política partidária entra pela porta principal, a fraternidade muitas vezes acaba sendo expulsa pelos fundos. O resultado está aí: irmãos contra irmãos, gritos, agressões, cadeiras voando e um templo transformado em arena política, e em cage de MMA Gospel.

 

Talvez seja hora de alguns líderes religiosos entenderem que púlpito não é palanque, pastor não é cabo eleitoral e igreja não é comitê de campanha. A fé não precisa de candidato para existir, muito menos de partido político para sobreviver. O amor ao próximo não combina com empurrões, agressões, ódio político, adoração a políticos que nada fazem pelo povo e cadeiras voando.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.


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