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23/07/2026

Pregador evangélico leva tiro na testa ao tentar atrapalhar com som alto ritual em terreiro

Pregador provocador levou chumbo na asa

Por *Elvécio Andrade

 

Há algo profundamente errado quando a religião, que deveria ensinar amor, respeito, tolerância e convivência, passa a ser utilizada como instrumento de provocação, imposição e conflito. O episódio ocorrido na noite da última segunda-feira, 20, em Miguel Calmon, no Centro-Norte da Bahia, é mais um triste exemplo de como a intolerância religiosa pode transformar uma situação que poderia ser resolvida com diálogo em um caso de polícia.

 

Segundo informações da polícia, um pregador evangélico colocou uma caixa de som em volume elevadíssimo, em via pública, em frente a um terreiro de religião de matriz africana, com o objetivo de fazer sua pregação se sobrepor ao ritual religioso que acontecia no local. Em outras palavras: aparentemente, não bastava exercer a própria fé. Era preciso tentar calar a fé alheia no grito.

 

Frequentadores do terreiro solicitaram ao pregador implicante que o volume fosse reduzido ou que ele se deslocasse para outro ponto. Diante da recusa, começou uma discussão entre ele e os frequentadores do terreiro. E, em meio ao bate-boca, um disparo de arma de fogo atingiu a região da testa do religioso.

 

O homem foi socorrido e encaminhado para atendimento médico. Devido à gravidade do ferimento, precisou ser transferido para o Hospital Regional de Irecê, onde passou por procedimento cirúrgico para a retirada do projétil. A Delegacia Territorial de Miguel Calmon instaurou inquérito para apurar as circunstâncias da tentativa de homicídio e identificar o responsável pelo disparo.

 

É preciso deixar absolutamente claro: nada justifica um tiro na cabeça de uma pessoa. Nada. Se houve provocação, intolerância ou perturbação, existem leis, autoridades e instrumentos jurídicos para resolver a questão. A violência jamais pode ser a resposta. Mas também não podemos ignorar o outro lado da história.

 

O Brasil vem assistindo, com preocupante frequência, a episódios de intolerância religiosa, especialmente contra religiões de matriz africana. E o problema não está na religião, mas no fanatismo de pessoas que acreditam possuir o monopólio da verdade e, por isso, sentem-se autorizadas a invadir o espaço alheio para impor suas convicções.

 


É o pregador que entra no ônibus lotado e transforma o trajeto de trabalhadores cansados em uma sessão obrigatória de evangelização. É a pregação em praça pública em volume ensurdecedor, incomodando quem só queria descansar ou conversar. É o templo que transforma o culto em uma verdadeira explosão sonora, ignorando completamente o direito dos moradores do entorno ao sossego.

 

É a tentativa insistente de converter quem não pediu para ser convertido. É a abordagem agressiva contra quem professa outra religião. É a demonização de crenças diferentes. É a velha e perigosa ideia de que "só a minha religião presta". E quando a fé chega a esse ponto, já não estamos falando de espiritualidade. Estamos falando de fanatismo.

 

O religioso verdadeiramente convicto não precisa perseguir ninguém. Não precisa invadir ônibus para incomodar que só quer paz e silêncio. Não precisa transformar praça em palanque. Não precisa gritar em templos para provar que acredita em Deus. E, principalmente, não precisa atacar a fé dos outros para demonstrar a força da própria. Quem tem uma fé sólida não precisa destruir a fé alheia para se sentir superior.

 

O Brasil é um país plural e precisa continuar sendo assim. Católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos, ateus e pessoas de tantas outras convicções têm exatamente o mesmo direito de existir, professar suas crenças e viver em paz. Liberdade religiosa não significa liberdade para impor religião. Liberdade de expressão não significa licença para perturbar o sossego. E pregação não pode ser confundida com autorização para invadir o espaço dos outros.

 

O episódio de Miguel Calmon deveria servir de alerta para todos. A intolerância não pode ser respondida com violência, mas também não pode ser tolerada como se fosse uma virtude religiosa. Porque quando alguém acredita que Deus lhe deu o direito de obrigar os outros a ouvir sua pregação, atacar outras crenças ou interferir em cerimônias alheias, talvez seja hora de lembrar que Deus não precisa de intermediários fanáticos para defender Sua existência.

 

No fim das contas, a fé deveria aproximar as pessoas. Quando ela começa a separar, perseguir, provocar e alimentar conflitos, talvez o problema não esteja na religião. Talvez esteja naqueles que esqueceram que, antes de qualquer crença, existe algo chamado respeito. Os evangélicos de longe são os que mais desrespeitam a fé alheia, com recorrentes ataques a terreiros para destruir objetos sagrados e até em igrejas católicas para destruir imagens sagradas.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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