Por *Elvécio Andrade
Há algo profundamente errado
quando a religião, que deveria ensinar amor, respeito, tolerância e
convivência, passa a ser utilizada como instrumento de provocação, imposição e
conflito. O episódio ocorrido na noite da última segunda-feira, 20, em Miguel
Calmon, no Centro-Norte da Bahia, é mais um triste exemplo de como a
intolerância religiosa pode transformar uma situação que poderia ser resolvida
com diálogo em um caso de polícia.
Segundo informações da polícia,
um pregador evangélico colocou uma caixa de som em volume elevadíssimo, em via
pública, em frente a um terreiro de religião de matriz africana, com o objetivo
de fazer sua pregação se sobrepor ao ritual religioso que acontecia no local. Em
outras palavras: aparentemente, não bastava exercer a própria fé. Era preciso
tentar calar a fé alheia no grito.
Frequentadores do terreiro solicitaram ao pregador implicante que o volume fosse reduzido ou que ele se deslocasse
para outro ponto. Diante da recusa, começou uma discussão entre ele e os
frequentadores do terreiro. E, em meio ao bate-boca, um disparo de arma de fogo
atingiu a região da testa do religioso.
O homem foi socorrido e
encaminhado para atendimento médico. Devido à gravidade do ferimento, precisou
ser transferido para o Hospital Regional de Irecê, onde passou por procedimento
cirúrgico para a retirada do projétil. A Delegacia Territorial de Miguel Calmon
instaurou inquérito para apurar as circunstâncias da tentativa de homicídio e
identificar o responsável pelo disparo.
É preciso deixar absolutamente
claro: nada justifica um tiro na cabeça de uma pessoa. Nada. Se houve
provocação, intolerância ou perturbação, existem leis, autoridades e
instrumentos jurídicos para resolver a questão. A violência jamais pode ser a
resposta. Mas também não podemos ignorar o outro lado da história.
O Brasil vem assistindo, com
preocupante frequência, a episódios de intolerância religiosa, especialmente
contra religiões de matriz africana. E o problema não está na religião, mas no
fanatismo de pessoas que acreditam possuir o monopólio da verdade e, por isso,
sentem-se autorizadas a invadir o espaço alheio para impor suas convicções.
É o pregador que entra no
ônibus lotado e transforma o trajeto de trabalhadores cansados em uma sessão
obrigatória de evangelização. É a pregação em praça pública em volume
ensurdecedor, incomodando quem só queria descansar ou conversar. É o templo que
transforma o culto em uma verdadeira explosão sonora, ignorando completamente o
direito dos moradores do entorno ao sossego.
É a tentativa insistente de
converter quem não pediu para ser convertido. É a abordagem agressiva contra
quem professa outra religião. É a demonização de crenças diferentes. É a velha
e perigosa ideia de que "só a minha religião presta". E quando a fé
chega a esse ponto, já não estamos falando de espiritualidade. Estamos falando
de fanatismo.
O religioso verdadeiramente
convicto não precisa perseguir ninguém. Não precisa invadir ônibus para
incomodar que só quer paz e silêncio. Não precisa transformar praça em
palanque. Não precisa gritar em templos para provar que acredita em Deus. E,
principalmente, não precisa atacar a fé dos outros para demonstrar a força da
própria. Quem tem uma fé sólida não precisa destruir a fé alheia para se sentir
superior.
O Brasil é um país plural e
precisa continuar sendo assim. Católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas,
candomblecistas, judeus, muçulmanos, ateus e pessoas de tantas outras
convicções têm exatamente o mesmo direito de existir, professar suas crenças e
viver em paz. Liberdade religiosa não significa liberdade para impor religião. Liberdade
de expressão não significa licença para perturbar o sossego. E pregação não
pode ser confundida com autorização para invadir o espaço dos outros.
O episódio de Miguel Calmon
deveria servir de alerta para todos. A intolerância não pode ser respondida com
violência, mas também não pode ser tolerada como se fosse uma virtude
religiosa. Porque quando alguém acredita que Deus lhe deu o direito de obrigar
os outros a ouvir sua pregação, atacar outras crenças ou interferir em
cerimônias alheias, talvez seja hora de lembrar que Deus não precisa de
intermediários fanáticos para defender Sua existência.
No fim das contas, a fé
deveria aproximar as pessoas. Quando ela começa a separar, perseguir, provocar
e alimentar conflitos, talvez o problema não esteja na religião. Talvez esteja
naqueles que esqueceram que, antes de qualquer crença, existe algo chamado
respeito. Os evangélicos de longe são os que mais desrespeitam a fé alheia, com
recorrentes ataques a terreiros para destruir objetos sagrados e até em igrejas
católicas para destruir imagens sagradas.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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