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28/08/2026

Cinco músicas e muita indignação. Cantor transforma festa milionária em desrespeito ao público

Panda: cantor caro e desconhecido

Por *Elvécio Andrade

 

O que deveria ser uma noite de comemoração pelos 226 anos de Linhares, no Norte do Espírito Santo, terminou, para muita gente, com gosto de frustração, desperdício de dinheiro e completo desrespeito. O show do inexpressivo cantor Panda, uma das atrações mais aguardadas da Expo Linhares 2026, realizado na sexta-feira, 21, transformou-se em um verdadeiro fiasco: mais de uma hora de atraso e, no fim das contas, apenas cinco músicas antes que a apresentação fosse encerrada. Cinco músicas!

 

É difícil imaginar uma forma mais eficiente de transformar uma contratação cara em um espetáculo de incompetência. Segundo os relatos, o atraso não nasceu de um único problema. Houve um verdadeiro efeito dominó na programação, depois do show de Tony Salles, além de dificuldades logísticas e problemas no trânsito da BR-101 provocados por um acidente em Ibiraçu. Mas é justamente aí que surgem as perguntas que precisam ser feitas.

 

Se havia compromissos rígidos de horário para o encerramento da festa, por que não houve planejamento suficiente para absorver possíveis imprevistos? Por que uma atração tão aguardada foi mantida em uma programação que acabou estrangulada pelo relógio? E, principalmente: quem paga a conta quando a falta de planejamento transforma dinheiro público em cinco músicas? Também é preciso questionar a responsabilidade do próprio artista.

 

Quem assume um compromisso profissional precisa levar em consideração deslocamento, trânsito, logística e possíveis imprevistos. Não parece razoável simplesmente apostar que tudo dará certo e, depois, deixar o público pagar a conta da desorganização. E o público pagou. Não necessariamente com dinheiro do próprio bolso, mas com tempo, expectativa e frustração. Gente que se deslocou até o Parque de Exposições especificamente para assistir ao cantor acabou recebendo uma apresentação tão curta que mais pareceu uma passagem relâmpago pelo palco.

 

E existe ainda um detalhe que torna tudo ainda mais indigesto: quanto custou essa brincadeira? O cachê de Panda não foi encontrado, até o momento, divulgado de forma clara nos portais de transparência consultados, enquanto estimativas apontam para algo entre R$ 280 mil e R$ 450 mil, considerando cachê, logística, datas e demais custos. Se o valor efetivamente contratado estiver nessa ordem de grandeza, a pergunta deixa de ser apenas sobre um show ruim e passa a ser sobre responsabilidade com dinheiro público.

 


Porque estamos falando de dinheiro que pertence à população. Linhares não é uma cidade sem problemas. Muito pelo contrário. Há demandas importantes em saúde, infraestrutura, serviços públicos e, sobretudo, segurança. O Município convive com índices preocupantes de violência e precisa discutir seriamente onde devem estar suas prioridades. É nesse cenário que a sucessão de contratações milionárias para festas e shows começa a soar como uma afronta para quem enfrenta problemas reais todos os dias.

 

Não se trata de ser contra cultura, música ou lazer. Uma cidade pode e deve realizar eventos. O problema é transformar dinheiro público em uma espécie de caixa eletrônico para contratar artistas por valores elevados enquanto necessidades básicas continuam esperando. E quando o espetáculo ainda termina depois de cinco músicas, a situação fica quase surreal. O cidadão olha para o palco, olha para os problemas da cidade e fica com uma pergunta incômoda: será que não havia uma maneira melhor de gastar esse dinheiro?

 

A população não precisa apenas de festas. Precisa de segurança, atendimento público digno, serviços funcionando e investimentos que produzam resultados depois que as luzes do palco se apagam. Porque artista vai embora, o caminhão desmonta o palco, a música acaba, os fogos desaparecem no céu, mas as contas ficam. E quem paga é o cidadão.

 

No caso do show de Panda, restou ainda uma ironia cruel: depois de toda a expectativa, de toda a estrutura e de todo o dinheiro envolvido, o público recebeu apenas cinco músicas. Talvez tenha sido o show mais caro de cinco músicas que se tenha conhecimento. E, para quem estava lá, certamente também foi um dos mais decepcionantes.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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