Por *Elvécio Andrade
O que deveria ser uma noite de
comemoração pelos 226 anos de Linhares, no Norte do Espírito Santo, terminou,
para muita gente, com gosto de frustração, desperdício de dinheiro e completo
desrespeito. O show do inexpressivo cantor Panda, uma das atrações mais aguardadas
da Expo Linhares 2026, realizado na sexta-feira, 21, transformou-se em um
verdadeiro fiasco: mais de uma hora de atraso e, no fim das contas, apenas
cinco músicas antes que a apresentação fosse encerrada. Cinco músicas!
É difícil imaginar uma forma mais
eficiente de transformar uma contratação cara em um espetáculo de
incompetência. Segundo os relatos, o atraso não nasceu de um único problema.
Houve um verdadeiro efeito dominó na programação, depois do show de Tony
Salles, além de dificuldades logísticas e problemas no trânsito da BR-101
provocados por um acidente em Ibiraçu. Mas é justamente aí que surgem as
perguntas que precisam ser feitas.
Se havia compromissos rígidos de
horário para o encerramento da festa, por que não houve planejamento suficiente
para absorver possíveis imprevistos? Por que uma atração tão aguardada foi
mantida em uma programação que acabou estrangulada pelo relógio? E,
principalmente: quem paga a conta quando a falta de planejamento transforma
dinheiro público em cinco músicas? Também é preciso questionar a
responsabilidade do próprio artista.
Quem assume um compromisso
profissional precisa levar em consideração deslocamento, trânsito, logística e
possíveis imprevistos. Não parece razoável simplesmente apostar que tudo dará
certo e, depois, deixar o público pagar a conta da desorganização. E o público
pagou. Não necessariamente com dinheiro do próprio bolso, mas com tempo,
expectativa e frustração. Gente que se deslocou até o Parque de Exposições
especificamente para assistir ao cantor acabou recebendo uma apresentação tão
curta que mais pareceu uma passagem relâmpago pelo palco.
E existe ainda um detalhe que torna
tudo ainda mais indigesto: quanto custou essa brincadeira? O cachê de Panda não
foi encontrado, até o momento, divulgado de forma clara nos portais de
transparência consultados, enquanto estimativas apontam para algo entre R$ 280
mil e R$ 450 mil, considerando cachê, logística, datas e demais custos. Se o
valor efetivamente contratado estiver nessa ordem de grandeza, a pergunta deixa
de ser apenas sobre um show ruim e passa a ser sobre responsabilidade com
dinheiro público.
Porque estamos falando de dinheiro
que pertence à população. Linhares não é uma cidade sem problemas. Muito pelo
contrário. Há demandas importantes em saúde, infraestrutura, serviços públicos
e, sobretudo, segurança. O Município convive com índices preocupantes de
violência e precisa discutir seriamente onde devem estar suas prioridades. É
nesse cenário que a sucessão de contratações milionárias para festas e shows
começa a soar como uma afronta para quem enfrenta problemas reais todos os
dias.
Não se trata de ser contra cultura,
música ou lazer. Uma cidade pode e deve realizar eventos. O problema é
transformar dinheiro público em uma espécie de caixa eletrônico para contratar
artistas por valores elevados enquanto necessidades básicas continuam
esperando. E quando o espetáculo ainda termina depois de cinco músicas, a
situação fica quase surreal. O cidadão olha para o palco, olha para os
problemas da cidade e fica com uma pergunta incômoda: será que não havia uma
maneira melhor de gastar esse dinheiro?
A população não precisa apenas de
festas. Precisa de segurança, atendimento público digno, serviços funcionando e
investimentos que produzam resultados depois que as luzes do palco se apagam. Porque
artista vai embora, o caminhão desmonta o palco, a música acaba, os fogos
desaparecem no céu, mas as contas ficam. E quem paga é o cidadão.
No caso do show de Panda, restou
ainda uma ironia cruel: depois de toda a expectativa, de toda a estrutura e de
todo o dinheiro envolvido, o público recebeu apenas cinco músicas. Talvez tenha
sido o show mais caro de cinco músicas que se tenha conhecimento. E, para quem
estava lá, certamente também foi um dos mais decepcionantes.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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