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27/08/2026

A assombração Hartung: o cadáver político que resolveu sair da tumba para dar palpites

Hartung: o defunto político surge das trevas

Por *Elvécio Andrade

 

Era uma noite qualquer no Espírito Santo. O silêncio pairava sobre o cenário político, quando, de repente, um estranho ruído começou a ecoar pelos corredores da história... rrrr... rrrr... craaac... Não era o vento. Não era um terremoto. Muito menos algum fenômeno sobrenatural registrado pela ciência. Era a tampa de concreto de uma velha e sombria sepultura política sendo lentamente empurrada por mãos que pareciam ter passado anos tentando escapar da escuridão. E então ele surgiu.

 

Pálido, esquálido, carregando nos olhos as marcas de um tempo que já passou e, nos lábios, algumas opiniões sobre o futuro do Espírito Santo. Sim, meus caros leitores: Paulo Hartung resolveu sair da cova política. O ex-governador, que há algum tempo parecia ter sido definitivamente encaminhado ao arquivo morto da política capixaba, decidiu reaparecer justamente quando a corrida eleitoral de 2026 começa a ganhar corpo.

 

E reapareceu da maneira mais conveniente possível: por meio de um vídeo publicado em seu Instagram, no qual disparou críticas sem, curiosamente, ter coragem suficiente para apontar diretamente quem pretendia atingir. Falou em “paralisia”, “acomodação” e “arrogância”. Mas nomes? Ah, nomes não. Aí já seria exigir demais de uma alma penada. É muito mais fácil lançar frases no ar, como quem joga uma maldição sobre um castelo abandonado, deixando para os outros a tarefa de descobrir quem seria o alvo.

 

As declarações podem ser interpretadas como críticas indiretas aos grupos políticos ligados ao governador Ricardo Ferraço e ao ex-governador Renato Casagrande. E Hartung ainda resolveu aumentar a dose de dramaticidade ao afirmar que o Espírito Santo “não está preparado para o futuro”. É quase possível imaginar a cena. A câmera lentamente se aproxima de um velho cemitério. A lua cheia ilumina as lápides. Um corvo grasna. A neblina cobre o chão. E, de repente, uma voz rouca surge das profundezas: “O Espírito Santo não está preparado para o futuro...”

 

Corta! Talvez falte apenas o letreiro: “Baseado em uma opinião de alguém que já teve o seu futuro político.” Mas o momento mais curioso dessa reaparição espectral é quando o ex-governador afirma não estar “satisfeito” com o que está sendo feito atualmente no Estado. Ora, ora... Alguém poderia, por gentileza, lembrar à ilustre assombração que o Espírito Santo não é propriedade particular de Paulo Hartung? O Estado não é um feudo. Não é uma herança.

 

E muito menos um velho casarão político no qual determinado personagem vampiresco tenha direito permanente de entrar, sair e determinar quem pode ou não morar ali. O tempo passa, governos passam, governadores passam e políticos também deveriam compreender que existe uma coisa chamada fim de ciclo.

 


Durante os últimos oito anos, o Espírito Santo atravessou um período de avanços e transformações que não podem simplesmente ser apagados por algumas frases gravadas diante de uma câmera. É claro que nenhum governo está acima de críticas. Sempre haverá problemas, erros, desafios e aquilo que precisa ser melhorado. Mas uma coisa é fazer crítica responsável, apresentar propostas e discutir caminhos.

 

Outra é reaparecer das trevas, lançar palavras como “paralisia”, “acomodação” e “arrogância” e deixar no ar a impressão de que tudo está errado, sem sequer apresentar uma alternativa concreta. Isso não é exatamente uma contribuição ao debate. É mais parecido com uma assombração batendo nas janelas durante a madrugada. E talvez exista uma explicação para tanta indignação. Pode ser que algumas pessoas simplesmente não consigam aceitar que o relógio político continuou funcionando depois que elas deixaram de ser protagonistas.

 

O problema é que política não é filme de terror em que o morto pode voltar infinitamente para assombrar os vivos. Ou, pelo menos, não deveria ser. Hartung teve seu tempo. Governou o Estado, teve poder, teve influência, teve espaço, teve sua importância na história política capixaba. Mas história não é propriedade privada, e protagonismo político não vem com cláusula de eternidade.

 

Portanto, se realmente pretende voltar ao debate público, talvez seja melhor abandonar a fantasia de fantasma e vestir novamente a roupa de cidadão político: dar nomes, apresentar propostas, discutir números, apontar soluções e explicar qual futuro pretende construir. Porque aparecer das sombras apenas para dizer que tudo está “paralisado”, “acomodado” e tomado pela “arrogância” é fácil. Difícil é convencer o eleitor de que uma alma penada política que passou tanto tempo em silêncio realmente voltou trazendo alguma novidade.

 

Por enquanto, o que se viu foi apenas uma tampa de concreto de um mausoléu abandonado se abrindo. E, de dentro da escuridão, surgiu uma voz conhecida. Agora resta saber se Paulo Hartung realmente voltou para a política... ou se foi apenas mais uma assombração eleitoral dando uma voltinha antes de retornar à escuridão das trevas do cemitério. Rrrr... rrrr... craaac... A tampa continua aberta, mas ninguém sabe por quanto tempo.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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