Por *Elvécio Andrade
Era uma noite qualquer no Espírito
Santo. O silêncio pairava sobre o cenário político, quando, de repente, um
estranho ruído começou a ecoar pelos corredores da história... rrrr... rrrr...
craaac... Não era o vento. Não era um terremoto. Muito menos algum fenômeno
sobrenatural registrado pela ciência. Era a tampa de concreto de uma velha e
sombria sepultura política sendo lentamente empurrada por mãos que pareciam ter
passado anos tentando escapar da escuridão. E então ele surgiu.
Pálido, esquálido, carregando nos
olhos as marcas de um tempo que já passou e, nos lábios, algumas opiniões sobre
o futuro do Espírito Santo. Sim, meus caros leitores: Paulo Hartung resolveu
sair da cova política. O ex-governador, que há algum tempo parecia ter sido
definitivamente encaminhado ao arquivo morto da política capixaba, decidiu
reaparecer justamente quando a corrida eleitoral de 2026 começa a ganhar corpo.
E reapareceu da maneira mais
conveniente possível: por meio de um vídeo publicado em seu Instagram, no qual
disparou críticas sem, curiosamente, ter coragem suficiente para apontar
diretamente quem pretendia atingir. Falou em “paralisia”, “acomodação” e
“arrogância”. Mas nomes? Ah, nomes não. Aí já seria exigir demais de uma alma
penada. É muito mais fácil lançar frases no ar, como quem joga uma maldição
sobre um castelo abandonado, deixando para os outros a tarefa de descobrir quem
seria o alvo.
As declarações podem ser
interpretadas como críticas indiretas aos grupos políticos ligados ao
governador Ricardo Ferraço e ao ex-governador Renato Casagrande. E Hartung
ainda resolveu aumentar a dose de dramaticidade ao afirmar que o Espírito Santo
“não está preparado para o futuro”. É quase possível imaginar a cena. A câmera
lentamente se aproxima de um velho cemitério. A lua cheia ilumina as lápides. Um
corvo grasna. A neblina cobre o chão. E, de repente, uma voz rouca surge das
profundezas: “O Espírito Santo não está preparado para o futuro...”
Corta! Talvez falte apenas o
letreiro: “Baseado em uma opinião de alguém que já teve o seu futuro político.”
Mas o momento mais curioso dessa reaparição espectral é quando o ex-governador
afirma não estar “satisfeito” com o que está sendo feito atualmente no Estado. Ora,
ora... Alguém poderia, por gentileza, lembrar à ilustre assombração que o
Espírito Santo não é propriedade particular de Paulo Hartung? O Estado não é um
feudo. Não é uma herança.
E muito menos um velho casarão
político no qual determinado personagem vampiresco tenha direito permanente de
entrar, sair e determinar quem pode ou não morar ali. O tempo passa, governos
passam, governadores passam e políticos também deveriam compreender que existe
uma coisa chamada fim de ciclo.
Durante os últimos oito anos, o
Espírito Santo atravessou um período de avanços e transformações que não podem
simplesmente ser apagados por algumas frases gravadas diante de uma câmera. É
claro que nenhum governo está acima de críticas. Sempre haverá problemas,
erros, desafios e aquilo que precisa ser melhorado. Mas uma coisa é fazer
crítica responsável, apresentar propostas e discutir caminhos.
Outra é reaparecer das trevas, lançar
palavras como “paralisia”, “acomodação” e “arrogância” e deixar no ar a
impressão de que tudo está errado, sem sequer apresentar uma alternativa
concreta. Isso não é exatamente uma contribuição ao debate. É mais parecido com
uma assombração batendo nas janelas durante a madrugada. E talvez exista uma
explicação para tanta indignação. Pode ser que algumas pessoas simplesmente não
consigam aceitar que o relógio político continuou funcionando depois que elas
deixaram de ser protagonistas.
O problema é que política não é filme
de terror em que o morto pode voltar infinitamente para assombrar os vivos. Ou,
pelo menos, não deveria ser. Hartung teve seu tempo. Governou o Estado, teve
poder, teve influência, teve espaço, teve sua importância na história política
capixaba. Mas história não é propriedade privada, e protagonismo político não
vem com cláusula de eternidade.
Portanto, se realmente pretende
voltar ao debate público, talvez seja melhor abandonar a fantasia de fantasma e
vestir novamente a roupa de cidadão político: dar nomes, apresentar propostas,
discutir números, apontar soluções e explicar qual futuro pretende construir. Porque
aparecer das sombras apenas para dizer que tudo está “paralisado”, “acomodado”
e tomado pela “arrogância” é fácil. Difícil é convencer o eleitor de que uma
alma penada política que passou tanto tempo em silêncio realmente voltou
trazendo alguma novidade.
Por enquanto, o que se viu foi apenas
uma tampa de concreto de um mausoléu abandonado se abrindo. E, de dentro da
escuridão, surgiu uma voz conhecida. Agora resta saber se Paulo Hartung
realmente voltou para a política... ou se foi apenas mais uma assombração
eleitoral dando uma voltinha antes de retornar à escuridão das trevas do
cemitério. Rrrr... rrrr... craaac... A tampa continua aberta, mas ninguém sabe
por quanto tempo.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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