Por *Elvécio Andrade
Há uma nova modalidade de candidato surgindo na
política brasileira: o candidato Google Maps. Não conhece a cidade, não conhece
sua história, não conhece a administração, não conhece os problemas em
profundidade, mas chega, liga a câmera do celular, faz meia dúzia de afirmações
e vai embora com a sensação de que acaba de descobrir a pólvora. Foi mais ou
menos isso que aconteceu em Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito
Santo.
O candidato Breno Barcelos, que se apresenta
pelo partido Missão, apareceu na cidade distribuindo críticas e tentando
construir uma imagem de que teria encontrado uma cidade abandonada à própria sorte.
O fato poderia até ser ignorado dada à sua insignificância, mas vamos lá. Ele
se esqueceu de combinar com os francisquenses. Porque quem vive em Barra de São
Francisco sabe que a realidade é bem mais complexa do que aquela que cabe em um
vídeo de TikTok.
Criticar é fácil. Conhecer é outra história. Barra
de São Francisco tem problemas, evidentemente. Toda cidade tem. E qualquer
prefeito está sujeito à fiscalização e às críticas da população. Mas quem
pretende disputar um cargo público precisa fazer o dever de casa. É preciso
pesquisar, estudar, ouvir, entender e, principalmente, é preciso não falar
sobre aquilo que não conhece.
Ao abordar a questão das enchentes, por
exemplo, o candidato parece ter esquecido, ou simplesmente desconhecer, toda a
transformação ocorrida nos últimos anos. A última grande enchente ocorrida no
Município foi em 2013. Intervenções realizadas nos últimos anos pelo atual
prefeito nos cursos d'água e a construção de uma represa com apoio estadual
contribuíram para reduzir drasticamente o histórico temor das grandes
enchentes. Então fica a pergunta: Breno Barcelos pesquisou isso antes de gravar
o vídeo? Ou simplesmente achou que falar de enchente rende engajamento?
Depois veio outra pergunta clássica de qualquer
discurso político superficial: “para onde está indo o dinheiro?” Excelente
pergunta. Aliás, deveria ser feita sempre. Mas existe um detalhe: as respostas
estão disponíveis. Obras, infraestrutura, serviços públicos e ações sociais não
acontecem com dinheiro imaginário. Há investimentos no interior e na sede do Município. Há programas sociais.
Há iniciativas como o Centro de Apoio Alimentar
gratuito, para quem precisa, transporte público gratuito para moradores de bairros
mais distantes e o Hortão Municipal, que abastece creches, escolas e entidades
assistenciais. Tudo isso pode ser fiscalizado. Tudo isso pode ser questionado. Tudo
isso pode ser criticado. Mas, para fazer uma crítica honesta, é preciso
primeiro conhecer. Porque do contrário acontece aquilo que estamos vendo cada
vez mais: o político não procura informação para formar opinião; procura
informação que sirva para confirmar a opinião que já decidiu publicar.
Essa pergunta deveria acompanhar todo candidato
que chega prometendo mundos e fundos: O que você já fez pela cidade ou pelo
Estado? Não vale vídeo. Não vale discurso. Não vale postagem. Não vale frase de
efeito. O que fez de concreto? Que experiência administrativa possui? Que obra
realizou? Que projeto implantou? Que problema resolveu? Que contribuição deixou
para alguma comunidade?
Porque administrar uma cidade, um Estado ou uma
instituição pública não é o mesmo que administrar uma conta de TikTok. No
TikTok, basta apertar “publicar”. Na administração pública, existem orçamento,
licitação, legislação, servidores, contratos, fiscalização, órgãos de controle,
responsabilidade fiscal e milhões de cidadãos esperando resultados. É outro
jogo.
Também houve crítica relacionada ao esgoto
lançado no Rio Itaúnas, que corta c cidade. E aqui cabe uma pergunta elementar:
quem é responsável pelo serviço de saneamento? A prestação dos serviços de
abastecimento de água e esgotamento sanitário envolve a Cesan (Companhia Espírito-Santense
de Saneamento), companhia estadual que atua no setor.
Então, se há problemas no tratamento de esgoto,
que se cobre a empresa responsável. Que se fiscalize. Que se investigue. Que se
exija solução. Mas jogar automaticamente toda a responsabilidade sobre o Município
é, no mínimo, uma maneira muito conveniente de transformar um problema complexo
em discurso eleitoral simplificado e irresponsável. Meia verdade também pode
desinformar.
Mas essa foi a melhor parte. O candidato
afirmou que, caso seja eleito, pretende punir rigorosamente municípios que não
cumprirem suas metas. Aí é que o paraquedas deveria ter aberto novamente. Porque
parece que o candidato ainda não descobriu uma coisa chamada Constituição
Federal. Municípios não são subordinados administrativos do governador. Prefeitos
não são funcionários do governador. O Estado não pode simplesmente entrar em
uma prefeitura e dizer: “Você não cumpriu minha ordem. Está punido!”
Existe autonomia municipal. Existem
competências constitucionais. Existem limites jurídicos. Existem mecanismos
legais de fiscalização e controle. E existe, acima de tudo, uma Constituição
que não foi escrita para caber em uma legenda de TikTok. Por isso, candidato:
estude. Não é provocação. É conselho. Estude Direito Constitucional. Estude
Administração Pública. Estude Federalismo. Estude as competências dos entes
federativos. Estude antes de prometer aquilo que talvez você nem tenha
competência constitucional para fazer.
Talvez o maior erro do candidato inespressivo
tenha sido imaginar que bastaria chegar, gravar alguns vídeos e ir embora. Não.
Barra de São Francisco tem memória. Tem moradores. Tem história. Tem gente que
acompanhou as mudanças da cidade. Tem gente que sabe como era antes e como está
hoje. E tem gente suficientemente inteligente para separar crítica legítima de
oportunismo eleitoral. A cidade não precisa ser tratada como cenário para
candidato aumentar seguidores. Muito menos como laboratório para experiências
políticas de quem ainda precisa aprender o básico sobre administração pública.
Breno Barcelos, se a intenção é disputar uma
eleição, tudo bem, qualquer um pode e tem direito. Até você sem qualquer
expressão política. A democracia permite. Se a intenção é criticar, melhor
ainda. A democracia precisa de fiscalização. Mas faça isso com
responsabilidade. Antes de apontar o dedo, conheça os fatos. Antes de acusar,
apresente provas. Antes de prometer punições, leia a Constituição. Antes de
falar de saneamento, descubra quem presta o serviço. Antes de falar de
enchentes, conheça a história das enchentes. Antes de perguntar para onde vai o
dinheiro, consulte os dados públicos.
E antes de tentar ensinar Barra de São
Francisco a resolver seus problemas... aprenda primeiro quais são eles. Porque
política séria não se faz com paraquedas. Não se faz com bravata. Não se faz
com vídeo de poucos segundos. E definitivamente não se faz confundindo TikTok
com Constituição. Barra de São Francisco não precisa de candidato que chega de
paraquedas. Precisa de gente que tenha os pés no chão. E, principalmente, a
cabeça no lugar.
*Elvécio Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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