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01/08/2026

Candidato inexpressivo mostra desconhecimento ao criticar Barra de São Francisco

Bruno Barcelos, político de Tik Tok

Por *Elvécio Andrade

 

Há uma nova modalidade de candidato surgindo na política brasileira: o candidato Google Maps. Não conhece a cidade, não conhece sua história, não conhece a administração, não conhece os problemas em profundidade, mas chega, liga a câmera do celular, faz meia dúzia de afirmações e vai embora com a sensação de que acaba de descobrir a pólvora. Foi mais ou menos isso que aconteceu em Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo.

 

O candidato Breno Barcelos, que se apresenta pelo partido Missão, apareceu na cidade distribuindo críticas e tentando construir uma imagem de que teria encontrado uma cidade abandonada à própria sorte. O fato poderia até ser ignorado dada à sua insignificância, mas vamos lá. Ele se esqueceu de combinar com os francisquenses. Porque quem vive em Barra de São Francisco sabe que a realidade é bem mais complexa do que aquela que cabe em um vídeo de TikTok.

 

Criticar é fácil. Conhecer é outra história. Barra de São Francisco tem problemas, evidentemente. Toda cidade tem. E qualquer prefeito está sujeito à fiscalização e às críticas da população. Mas quem pretende disputar um cargo público precisa fazer o dever de casa. É preciso pesquisar, estudar, ouvir, entender e, principalmente, é preciso não falar sobre aquilo que não conhece.

 

Ao abordar a questão das enchentes, por exemplo, o candidato parece ter esquecido, ou simplesmente desconhecer, toda a transformação ocorrida nos últimos anos. A última grande enchente ocorrida no Município foi em 2013. Intervenções realizadas nos últimos anos pelo atual prefeito nos cursos d'água e a construção de uma represa com apoio estadual contribuíram para reduzir drasticamente o histórico temor das grandes enchentes. Então fica a pergunta: Breno Barcelos pesquisou isso antes de gravar o vídeo? Ou simplesmente achou que falar de enchente rende engajamento?

 

Depois veio outra pergunta clássica de qualquer discurso político superficial: “para onde está indo o dinheiro?” Excelente pergunta. Aliás, deveria ser feita sempre. Mas existe um detalhe: as respostas estão disponíveis. Obras, infraestrutura, serviços públicos e ações sociais não acontecem com dinheiro imaginário. Há investimentos no interior e na sede do Município. Há programas sociais.

 

Há iniciativas como o Centro de Apoio Alimentar gratuito, para quem precisa, transporte público gratuito para moradores de bairros mais distantes e o Hortão Municipal, que abastece creches, escolas e entidades assistenciais. Tudo isso pode ser fiscalizado. Tudo isso pode ser questionado. Tudo isso pode ser criticado. Mas, para fazer uma crítica honesta, é preciso primeiro conhecer. Porque do contrário acontece aquilo que estamos vendo cada vez mais: o político não procura informação para formar opinião; procura informação que sirva para confirmar a opinião que já decidiu publicar.

 

Essa pergunta deveria acompanhar todo candidato que chega prometendo mundos e fundos: O que você já fez pela cidade ou pelo Estado? Não vale vídeo. Não vale discurso. Não vale postagem. Não vale frase de efeito. O que fez de concreto? Que experiência administrativa possui? Que obra realizou? Que projeto implantou? Que problema resolveu? Que contribuição deixou para alguma comunidade?

 

Porque administrar uma cidade, um Estado ou uma instituição pública não é o mesmo que administrar uma conta de TikTok. No TikTok, basta apertar “publicar”. Na administração pública, existem orçamento, licitação, legislação, servidores, contratos, fiscalização, órgãos de controle, responsabilidade fiscal e milhões de cidadãos esperando resultados. É outro jogo.

 


Também houve crítica relacionada ao esgoto lançado no Rio Itaúnas, que corta c cidade. E aqui cabe uma pergunta elementar: quem é responsável pelo serviço de saneamento? A prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário envolve a Cesan (Companhia Espírito-Santense de Saneamento), companhia estadual que atua no setor.

 

Então, se há problemas no tratamento de esgoto, que se cobre a empresa responsável. Que se fiscalize. Que se investigue. Que se exija solução. Mas jogar automaticamente toda a responsabilidade sobre o Município é, no mínimo, uma maneira muito conveniente de transformar um problema complexo em discurso eleitoral simplificado e irresponsável. Meia verdade também pode desinformar.

 

Mas essa foi a melhor parte. O candidato afirmou que, caso seja eleito, pretende punir rigorosamente municípios que não cumprirem suas metas. Aí é que o paraquedas deveria ter aberto novamente. Porque parece que o candidato ainda não descobriu uma coisa chamada Constituição Federal. Municípios não são subordinados administrativos do governador. Prefeitos não são funcionários do governador. O Estado não pode simplesmente entrar em uma prefeitura e dizer: “Você não cumpriu minha ordem. Está punido!”

 

Existe autonomia municipal. Existem competências constitucionais. Existem limites jurídicos. Existem mecanismos legais de fiscalização e controle. E existe, acima de tudo, uma Constituição que não foi escrita para caber em uma legenda de TikTok. Por isso, candidato: estude. Não é provocação. É conselho. Estude Direito Constitucional. Estude Administração Pública. Estude Federalismo. Estude as competências dos entes federativos. Estude antes de prometer aquilo que talvez você nem tenha competência constitucional para fazer.

 

Talvez o maior erro do candidato inespressivo tenha sido imaginar que bastaria chegar, gravar alguns vídeos e ir embora. Não. Barra de São Francisco tem memória. Tem moradores. Tem história. Tem gente que acompanhou as mudanças da cidade. Tem gente que sabe como era antes e como está hoje. E tem gente suficientemente inteligente para separar crítica legítima de oportunismo eleitoral. A cidade não precisa ser tratada como cenário para candidato aumentar seguidores. Muito menos como laboratório para experiências políticas de quem ainda precisa aprender o básico sobre administração pública.

 

Breno Barcelos, se a intenção é disputar uma eleição, tudo bem, qualquer um pode e tem direito. Até você sem qualquer expressão política. A democracia permite. Se a intenção é criticar, melhor ainda. A democracia precisa de fiscalização. Mas faça isso com responsabilidade. Antes de apontar o dedo, conheça os fatos. Antes de acusar, apresente provas. Antes de prometer punições, leia a Constituição. Antes de falar de saneamento, descubra quem presta o serviço. Antes de falar de enchentes, conheça a história das enchentes. Antes de perguntar para onde vai o dinheiro, consulte os dados públicos.

 

E antes de tentar ensinar Barra de São Francisco a resolver seus problemas... aprenda primeiro quais são eles. Porque política séria não se faz com paraquedas. Não se faz com bravata. Não se faz com vídeo de poucos segundos. E definitivamente não se faz confundindo TikTok com Constituição. Barra de São Francisco não precisa de candidato que chega de paraquedas. Precisa de gente que tenha os pés no chão. E, principalmente, a cabeça no lugar.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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