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26/10/2026

Derrotados, bolsonaristas de Barra de São Francisco criam lista de boicote de comércio e serviços

Lista criada pelos bolsonaristas malucos

Por *Elvécio Andrade

 

O bolsonarismo parece ter descoberto uma nova modalidade de patriotismo em Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo: perseguir comerciantes, prestadores de serviços e trabalhadores que supostamente não compartilham de suas preferências políticas. Uma mensagem que circula pelo WhatsApp, cujo print chegou ao nosso conhecimento, apresenta uma relação de estabelecimentos comerciais e profissionais da cidade sob o título: Lugares petistas para evitar entrar ou comprar em Barra de São Francisco-ES.

 

São 18 nomes relacionados na mensagem, entre supermercados, padaria, profissionais liberais, salões de beleza, sorveteria e outros pequenos empreendimentos. Não se sabe quem elaborou originalmente a lista, tampouco se as pessoas mencionadas realmente possuem a orientação política que lhes foi atribuída. Mas o conteúdo da mensagem é suficientemente revelador da mentalidade diminuta e intolerante que alimenta esse tipo de iniciativa.

 

Aparentemente, para os idealizadores dessa brilhante estratégia política, comprar pão numa padaria supostamente petista representa uma ameaça à pátria. Cortar o cabelo com um profissional que eventualmente votou em Lula deve configurar, nessa lógica delirante, um atentado à soberania nacional. É o patriotismo que tem medo de uma padaria. Talvez o próximo passo seja exigir declaração ideológica do açougueiro antes de comprar um quilo de carne. É de uma pobreza intelectual constrangedora.

 

O mais curioso é que os mesmos setores que vivem discursando sobre liberdade de expressão, liberdade individual e democracia parecem apresentar uma terrível dificuldade para aceitar que o vizinho, o comerciante ou o trabalhador tenham o direito de pensar e votar diferentemente deles. Defendem a liberdade, desde que todos sejam livres para concordar com suas próprias opiniões. Que conceito extraordinário de democracia.

 

Barra de São Francisco possui uma economia fortemente sustentada pelo comércio, pelos serviços, pelos pequenos empreendedores e pelo trabalho diário de milhares de cidadãos. Não estamos falando de um universo de gigantes empresariais que podem absorver tranquilamente qualquer tentativa de prejuízo financeiro. Estamos falando de comerciantes que precisam pagar funcionários, fornecedores, impostos, aluguel, energia elétrica e uma infinidade de compromissos para manter suas portas abertas.

 

Gente que trabalha, produz, movimenta a economia local e ajuda a sustentar famílias. E é justamente contra essas pessoas que os bolsonaristas resolveram incentivar um boicote por motivos ideológicos. É preciso uma dose monumental de incoerência para se apresentar como defensor da prosperidade econômica enquanto tenta prejudicar pequenos negócios da própria cidade. Que patriotismo é esse que pretende enfraquecer o comércio local?

 

Que amor ao Município é esse que transforma trabalhadores em alvos de hostilidade simplesmente porque alguém suspeita que eles votaram no candidato considerado errado? O que se nota é que se trata de um fracasso anunciado de uma ideia ridícula. Não há elementos que indiquem que a mensagem tenha provocado algum impacto econômico efetivo sobre os estabelecimentos citados. E há bons motivos para duvidar do sucesso dessa empreitada.

 


O consumidor comum está muito mais preocupado com preço, qualidade, atendimento e condições de pagamento do que com a preferência eleitoral de quem vende pão, corta cabelo ou oferece determinado serviço. Quem precisa comprar alimentos não costuma exigir o histórico eleitoral do dono do supermercado. Quem precisa de um fisioterapeuta procura competência profissional, não um certificado de fidelidade ao bolsonarismo.

 

Aliás, se essa lógica fosse levada às últimas consequências, seus defensores precisariam investigar a preferência política do médico, do farmacêutico, do mecânico, do motorista e até do funcionário responsável pelo abastecimento de seus veículos. Seria interessante observar o tamanho da fila para conseguir autorização ideológica antes de comprar um simples pastel. O bolsonarista precisa aprender que a democracia não é propriedade de nenhum grupo político.

 

O Brasil passou por um processo eleitoral. Milhões de brasileiros votaram em candidatos diferentes, como é natural em qualquer democracia. Ninguém é obrigado a gostar de Lula, de Bolsonaro ou de qualquer outra liderança política. O direito de discordar é absolutamente legítimo, e o direito de escolher onde gastar o próprio dinheiro também. O problema começa quando a divergência política se transforma em campanha organizada de hostilidade contra cidadãos e trabalhadores, especialmente quando suas preferências eleitorais sequer foram confirmadas.

 

A Constituição Federal protege a liberdade de consciência, de convicção política e de expressão. Nenhum comerciante precisa prestar juramento de fidelidade ideológica para exercer dignamente sua atividade profissional, e nenhum cidadão deveria ser constrangido por suas escolhas eleitorais. E é sempre bom lembrar, que a intolerância não paga boletos. No final das contas, essa lista talvez produza um resultado bem diferente daquele imaginado por quem a elaborou: despertar solidariedade aos comerciantes e profissionais mencionados.

 

Porque Barra de São Francisco precisa de desenvolvimento, emprego, renda e fortalecimento de sua economia, não de fiscais ideológicos tentando transformar divergências eleitorais em perseguição comercial. O episódio também expõe uma contradição particularmente interessante: há quem se declare defensor incondicional da liberdade econômica, mas aparentemente queira condicionar o sucesso de um empreendimento à preferência política de seu proprietário. É o livre mercado com autorização do comitê ideológico da esquina.

 

Se depender dessa mentalidade, em breve será necessário apresentar o título de eleitor antes de pedir um cafezinho. Aos responsáveis pela elaboração da lista, fica uma sugestão: em vez de perder tempo tentando prejudicar quem trabalha, experimentem produzir alguma coisa útil para a cidade. O comércio francisquense agradece e democracia também. E, por favor, deixem o pão da padaria em paz. Ele não votou em ninguém.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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