Por *Elvécio Andrade
O bolsonarismo parece ter descoberto
uma nova modalidade de patriotismo em Barra de São Francisco, no Noroeste do
Espírito Santo: perseguir comerciantes, prestadores de serviços e trabalhadores
que supostamente não compartilham de suas preferências políticas. Uma mensagem
que circula pelo WhatsApp, cujo print chegou ao nosso conhecimento, apresenta
uma relação de estabelecimentos comerciais e profissionais da cidade sob o
título: Lugares petistas para evitar
entrar ou comprar em Barra de São Francisco-ES.
São 18 nomes relacionados na
mensagem, entre supermercados, padaria, profissionais liberais, salões de
beleza, sorveteria e outros pequenos empreendimentos. Não se sabe quem elaborou
originalmente a lista, tampouco se as pessoas mencionadas realmente possuem a
orientação política que lhes foi atribuída. Mas o conteúdo da mensagem é
suficientemente revelador da mentalidade diminuta e intolerante que alimenta
esse tipo de iniciativa.
Aparentemente, para os idealizadores
dessa brilhante estratégia política, comprar pão numa padaria supostamente
petista representa uma ameaça à pátria. Cortar o cabelo com um profissional que
eventualmente votou em Lula deve configurar, nessa lógica delirante, um
atentado à soberania nacional. É o patriotismo que tem medo de uma padaria. Talvez
o próximo passo seja exigir declaração ideológica do açougueiro antes de
comprar um quilo de carne. É de uma pobreza intelectual constrangedora.
O mais curioso é que os mesmos
setores que vivem discursando sobre liberdade de expressão, liberdade individual
e democracia parecem apresentar uma terrível dificuldade para aceitar que o
vizinho, o comerciante ou o trabalhador tenham o direito de pensar e votar
diferentemente deles. Defendem a liberdade, desde que todos sejam livres para
concordar com suas próprias opiniões. Que conceito extraordinário de
democracia.
Barra de São Francisco possui uma
economia fortemente sustentada pelo comércio, pelos serviços, pelos pequenos
empreendedores e pelo trabalho diário de milhares de cidadãos. Não estamos
falando de um universo de gigantes empresariais que podem absorver
tranquilamente qualquer tentativa de prejuízo financeiro. Estamos falando de
comerciantes que precisam pagar funcionários, fornecedores, impostos, aluguel,
energia elétrica e uma infinidade de compromissos para manter suas portas
abertas.
Gente que trabalha, produz, movimenta
a economia local e ajuda a sustentar famílias. E é justamente contra essas
pessoas que os bolsonaristas resolveram incentivar um boicote por motivos
ideológicos. É preciso uma dose monumental de incoerência para se apresentar
como defensor da prosperidade econômica enquanto tenta prejudicar pequenos
negócios da própria cidade. Que patriotismo é esse que pretende enfraquecer o
comércio local?
Que amor ao Município é esse que
transforma trabalhadores em alvos de hostilidade simplesmente porque alguém
suspeita que eles votaram no candidato considerado errado? O que se nota é que
se trata de um fracasso anunciado de uma ideia ridícula. Não há elementos que
indiquem que a mensagem tenha provocado algum impacto econômico efetivo sobre
os estabelecimentos citados. E há bons motivos para duvidar do sucesso dessa
empreitada.
O consumidor comum está muito mais
preocupado com preço, qualidade, atendimento e condições de pagamento do que
com a preferência eleitoral de quem vende pão, corta cabelo ou oferece
determinado serviço. Quem precisa comprar alimentos não costuma exigir o
histórico eleitoral do dono do supermercado. Quem precisa de um fisioterapeuta
procura competência profissional, não um certificado de fidelidade ao
bolsonarismo.
Aliás, se essa lógica fosse levada às
últimas consequências, seus defensores precisariam investigar a preferência política
do médico, do farmacêutico, do mecânico, do motorista e até do funcionário
responsável pelo abastecimento de seus veículos. Seria interessante observar o
tamanho da fila para conseguir autorização ideológica antes de comprar um
simples pastel. O bolsonarista precisa aprender que a democracia não é
propriedade de nenhum grupo político.
O Brasil passou por um processo
eleitoral. Milhões de brasileiros votaram em candidatos diferentes, como é
natural em qualquer democracia. Ninguém é obrigado a gostar de Lula, de
Bolsonaro ou de qualquer outra liderança política. O direito de discordar é
absolutamente legítimo, e o direito de escolher onde gastar o próprio dinheiro
também. O problema começa quando a divergência política se transforma em
campanha organizada de hostilidade contra cidadãos e trabalhadores,
especialmente quando suas preferências eleitorais sequer foram confirmadas.
A Constituição Federal protege a
liberdade de consciência, de convicção política e de expressão. Nenhum
comerciante precisa prestar juramento de fidelidade ideológica para exercer
dignamente sua atividade profissional, e nenhum cidadão deveria ser
constrangido por suas escolhas eleitorais. E é sempre bom lembrar, que a
intolerância não paga boletos. No final das contas, essa lista talvez produza
um resultado bem diferente daquele imaginado por quem a elaborou: despertar
solidariedade aos comerciantes e profissionais mencionados.
Porque Barra de São Francisco precisa
de desenvolvimento, emprego, renda e fortalecimento de sua economia, não de
fiscais ideológicos tentando transformar divergências eleitorais em perseguição
comercial. O episódio também expõe uma contradição particularmente
interessante: há quem se declare defensor incondicional da liberdade econômica,
mas aparentemente queira condicionar o sucesso de um empreendimento à
preferência política de seu proprietário. É o livre mercado com autorização do
comitê ideológico da esquina.
Se depender dessa mentalidade, em
breve será necessário apresentar o título de eleitor antes de pedir um
cafezinho. Aos responsáveis pela elaboração da lista, fica uma sugestão: em vez
de perder tempo tentando prejudicar quem trabalha, experimentem produzir alguma
coisa útil para a cidade. O comércio francisquense agradece e democracia
também. E, por favor, deixem o pão da padaria em paz. Ele não votou em ninguém.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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