Por *Elvécio Andrade
Barra de São Francisco parece ter
descoberto uma nova modalidade de fiscalização parlamentar: a fiscalização
cromática! E o pioneiro dessa extraordinária inovação política não poderia ser outro
senão o vereador Carlos Rubens, também conhecido como Carlim da Dengue, o autoproclamado fiscal de obras que, de tanto
procurar defeitos, corre o risco de acabar implicando até com a sombra dos
pedreiros.
Desta vez, o alvo de sua indignação
foi a recuperação do antigo prédio da Prefeitura Municipal, imóvel que
permaneceu abandonado, deteriorado e depredado e que agora passa por uma
reforma. Mas, para Carlim,
aparentemente, prédio abandonado não incomoda. O problema começa quando alguém
resolve recuperá-lo!
Em mais um daqueles vídeos que
parecem produzidos especialmente para alimentar o circo das redes sociais, o
vereador resolveu disparar contra a empresa responsável pela reforma,
questionar o valor da obra, orçada em pouco mais de R$ 100 mil, e, pasmem, reclamar
até das cores utilizadas na pintura. Sim, senhoras e senhores. A fiscalização
chegou ao fundo da lata de tinta!
O parlamentar demonstrou especial
desconforto com a combinação inicial de preto e creme. Diante de tamanha
indignação cromática, surge uma pergunta inevitável: o que será que Carlim da Dengue tem contra a cor preta? Será que agora será necessário
submeter a paleta de cores das obras municipais à aprovação prévia de Sua
Excelência? Talvez uma comissão parlamentar de investigação das tintas resolva
o problema!
O detalhe mais constrangedor dessa
história é que, conforme as informações sobre a reforma, a obra ainda está em
fase de acabamento. As cores que tanto incomodaram o vereador servem apenas como
base para o espelhamento previsto no projeto arquitetônico. Ou seja, Carlim resolveu condenar o resultado de
uma obra que sequer ficou pronta!
E o projeto, segundo informado, está
disponível para consulta pública. Bastaria ao vereador fazer aquilo que se
espera de qualquer parlamentar minimamente comprometido com suas atribuições:
procurar informações, examinar os documentos e entender o que está sendo
executado. Mas consultar projeto não rende tantos likes quanto gravar vídeo
indignado diante de uma parede recém-pintada, não é mesmo? Ou talvez a
capacidade dele não seja suficiente para entender a complexidade de um projeto
arquitetônico, o que é compreensível.
Outro momento digno de registro foi a
crítica à empresa responsável pela reforma, sob o argumento de que ela também
executa outras obras no Município. Parece que alguém precisa apresentar ao
nobre parlamentar um conceito elementar da administração pública: LICITAÇÃO! Empresas contratadas pelo
poder público não são escolhidas conforme a simpatia pessoal do prefeito.
Existem regras, critérios legais, procedimentos administrativos, exigências de habilitação e processos competitivos destinados a assegurar a seleção da proposta mais vantajosa para a administração, observadas as hipóteses previstas em lei. Uma mesma empresa pode, perfeitamente, vencer diferentes licitações e executar mais de um contrato público, desde que cumpra os requisitos legais e contratuais. Isso, por si só, não constitui irregularidade.
Se Carlim desconfia de alguma ilegalidade, tem todo o direito, e, como
vereador, o dever institucional, de fiscalizar. Que solicite os processos
licitatórios, examine os contratos, confira as medições, investigue eventuais
sobrepreços, verifique a execução dos serviços e, encontrando indícios
concretos de irregularidades, encaminhe a documentação aos órgãos competentes. É
para isso que existe o mandato parlamentar. O que não dá é querer substituir
análise documental por encenação, fiscalização por achismo e prova por vídeo de
internet.
A população de Barra de São Francisco
precisa de vereadores atentos à aplicação do dinheiro público, capazes de
identificar irregularidades, cobrar transparência e exigir obras de qualidade. Não
precisa de parlamentar que transforme cada saco de cimento numa conspiração,
cada andaime numa denúncia e cada pincelada num atentado contra o Município.
Fiscalizar é obrigação, denunciar irregularidades comprovadas é dever, questionar
valores, contratos e empresas é absolutamente legítimo.
Mas existe uma distância monumental
entre exercer uma fiscalização séria e sair por aí procurando motivos para
transformar qualquer iniciativa da administração municipal em espetáculo
político. No caso do antigo prédio da prefeitura, seria muito mais produtivo
verificar se o orçamento corresponde aos serviços contratados, se o cronograma
está sendo cumprido e se a reforma atende às especificações do projeto. Isso
seria fiscalização de verdade.
Mas talvez seja pedir demais de quem
aparentemente encontrou na combinação de preto com creme um novo inimigo
político. Carlim da Dengue precisa
compreender uma coisa: ser oposição ao prefeito não significa ser oposição à
recuperação do patrimônio público, ao desenvolvimento da cidade ou ao bom
senso. Barra de São Francisco merece uma Câmara Municipal que fiscalize com
responsabilidade, não um concurso permanente de vídeos indignados.
Afinal, enquanto a prefeitura tenta
recuperar um prédio abandonado, Carlim
parece empenhado em restaurar outra coisa: seu já conhecido e inesgotável repertório
de asneiras e de ataques a qualquer obra que encontre pelo caminho. E, pelo
andar da carruagem, quando o espelhamento estiver concluído, talvez o vereador
finalmente encontre algo que lhe seja bastante útil naquela fachada: a
oportunidade de olhar para o próprio reflexo e entender que o chapéu de bobo da
corte lhe cai muito bem.
Quem sabe assim descubra que, às
vezes, o maior problema não está na obra que se critica, mas no papelão de quem
faz a crítica. Porque uma coisa é fiscalizar o dinheiro público. Outra, bem
diferente, é fazer do mandato um circo e ainda querer que o contribuinte pague
ingresso para assistir.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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