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23/10/2026

Escola virou terra sem lei. Professora é agredida e humilhada e alunos são premiados

Alunos delinquentes agridem professora

Por *Elvécio Andrade

 

O Brasil parece ter ultrapassado todos os limites do absurdo. E, quando imaginamos que chegamos ao fundo do poço, descobrimos que alguém ainda está cavando. Desta vez, o palco da barbárie foi uma escola pública do interior de São Paulo, onde cinco alunos do terceiro ano do Ensino Médio protagonizaram um episódio revoltante de violência, humilhação e degradação contra uma professora de 49 anos.

 

Segundo o relato do episódio, a educadora foi chamada de "morta de fome", "burra" e "velha". Como se a violência verbal não bastasse, um dos estudantes colocou uma sacola sobre sua cabeça, simulou um ato sexual e ainda desferiu três golpes com um capacete contra sua cabeça. Tudo diante da turma, dentro de uma sala de aula, às 11h30 da manhã.

 

Não estamos falando de uma brincadeira de mau gosto, de uma travessura adolescente ou de um simples ato de indisciplina escolar. Estamos falando de uma agressão brutal, acompanhada de humilhação sexual e violência psicológica contra uma mulher que estava simplesmente exercendo sua profissão. E qual foi a extraordinária resposta disciplinar a tamanha selvageria?

 

Dois dias de aulas à distância, uma mediação, um pedido protocolar de desculpas e a possibilidade de transferência. Dois dias. É praticamente um feriadão pedagógico concedido aos agressores. Se essa for realmente toda a resposta institucional, estamos diante de um escárnio. Uma professora é submetida a uma sessão de violência e humilhação pública, enquanto seus agressores recebem uma punição que mais parece um benefício administrativo.

 

Falta apenas entregar um certificado de participação e agradecer pela presença. Qual é a mensagem transmitida quando uma agressão dessa gravidade recebe uma resposta tão insignificante? A de que o professor pode ser humilhado. A de que uma mulher pode ser sexualmente constrangida. A de que a violência física é apenas um pequeno inconveniente disciplinar, resolvido com uma conversa, um aperto de mãos e dois dias estudando no conforto de casa.

 

A escola deveria ensinar limites, respeito, responsabilidade e convivência civilizada. Mas, quando a instituição responde à brutalidade com medidas meramente simbólicas, corre o risco de ensinar exatamente o contrário. E não venham com o discurso açucarado de que são apenas adolescentes que cometeram um pequeno erro. Adolescência não é salvo-conduto para a violência, juventude não transforma agressão em brincadeira e o Estatuto da Criança e do Adolescente não pode ser confundido com um diploma de imunidade.

 

Aliás, o próprio ECA prevê responsabilização por atos infracionais, inclusive quando a conduta corresponde a crimes previstos na legislação penal. O que se exige não é vingança. É responsabilização proporcional à gravidade dos fatos, observados o devido processo legal e os direitos de todos os envolvidos. Existe outro aspecto particularmente repugnante nesse episódio: a violência dirigida à condição feminina da vítima.

 

Não bastava desqualificar sua capacidade intelectual. Era preciso atacar sua idade, sua dignidade, seu corpo e sua sexualidade. A professora deixou de ser tratada como profissional e passou a ser objeto de uma demonstração pública de dominação e humilhação. É o machismo em sua expressão mais primitiva: aquele que acredita que uma mulher pode ser intimidada, ridicularizada e violentada simbolicamente quando ocupa uma posição de autoridade.

 

E seria ingenuidade ignorar o ambiente de hostilidade contra os educadores alimentado nos últimos anos por setores do radicalismo político brasileiro. O bolsonarismo ajudou a popularizar uma retórica de perseguição aos professores, frequentemente apresentados como inimigos ideológicos, doutrinadores ou suspeitos pelo simples exercício do pensamento crítico. Isso significa reconhecer que transformar educadores em alvos permanentes de desprezo público contribui para deteriorar o respeito social à profissão.

 


O professor, que deveria ser valorizado como um dos pilares da sociedade, passou a ser tratado por determinados segmentos como alguém a ser combatido. E, quando essa mentalidade encontra a cultura da impunidade, o resultado pode ser devastador. Também está na hora de enfrentar uma questão que muitos preferem varrer para debaixo do tapete: a responsabilidade familiar.

 

Não é possível aceitar que adolescentes cheguem ao terceiro ano do Ensino Médio sem compreender que colocar uma sacola na cabeça de uma mulher, simular um ato sexual e golpeá-la com um capacete são condutas absolutamente intoleráveis. Onde foram parar os limites? O respeito? A noção elementar de convivência humana? É evidente que nem todo comportamento de um filho pode ser automaticamente atribuído aos pais. Mas a família não pode simplesmente desaparecer da discussão quando o assunto é violência praticada por adolescentes.

 

A legislação brasileira já prevê hipóteses de responsabilidade civil dos pais pelos atos dos filhos menores sob sua autoridade e companhia. O que precisamos discutir é como tornar efetivos esses mecanismos e fortalecer a responsabilização familiar, sem abandonar as garantias legais. Enquanto isso, políticos demagogos continuam explorando o tema da redução da maioridade penal como se uma mudança constitucional, cercada de profundas controvérsias jurídicas, fosse uma solução mágica para todos os problemas da violência juvenil.

 

É mais fácil produzir discursos inflamados, pedir votos e posar de defensor da família do que enfrentar seriamente a negligência, a violência escolar e a ausência de políticas eficazes de prevenção e responsabilização. O mais revoltante é imaginar o que acontece depois que as câmeras são desligadas, a notícia perde espaço e o episódio desaparece das redes sociais. A professora continuará carregando as consequências da agressão.

 

Poderá voltar à sala de aula com medo, insegurança e a dolorosa lembrança de ter sido humilhada diante daqueles que deveria educar. E os agressores? Se a resposta se limitar às medidas disciplinares relatadas, terão recebido uma das piores lições possíveis: a de que até mesmo uma agressão dessa natureza pode terminar praticamente sem consequências relevantes. Uma sociedade que não consegue proteger seus professores está assinando seu próprio atestado de decadência.

 

Não existe educação de qualidade onde o educador precisa temer pela própria integridade física. Não existe autoridade pedagógica onde a violência é relativizada. E não existe futuro promissor para um país que exige tanto de seus professores e oferece tão pouco em troca. O caso exige apuração rigorosa, acolhimento à vítima, avaliação das possíveis infrações cometidas e responsabilização efetiva, inclusive nas esferas cabíveis, respeitadas as garantias legais.

 

Porque uma escola não pode se transformar em território livre para a barbárie. E, se a maior consequência de agredir e humilhar uma professora for ganhar dois dias de aula em casa, não estaremos apenas fracassando na proteção de quem ensina. Estaremos ensinando uma nova geração a acreditar que a violência compensa. O Brasil precisa decidir urgentemente se pretende formar cidadãos ou continuar tratando a brutalidade como uma simples ocorrência de indisciplina escolar.

 

Professor não é saco de pancadas, escola não é reformatório da omissão familiar e pedido de desculpas não pode virar salvo-conduto para a violência. É preciso urgente que se crie uma lei que puna com rigor os pais de adolescentes que agem com agressividade e violência nas escolas, ao invés de sempre bater na mesma tecla de redução de maioridade penal, que todos sabem não ser possível por se tratar de cláusula pétrea.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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