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21/10/2026

Em Barra de São Francisco a ingratidão também vota e a falta de memória pode custar caro

Pazolini, ao contrário de Ferraço, nunca fez nada por Barra de São Francisco

Por *Elvécio Andrade

 

Uma parcela expressiva do eleitorado de Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, resolveu conceder uma votação vitoriosa ao candidato ao do Estado, Lorenzo Pazolini (Republicanos), político cuja contribuição concreta para o desenvolvimento do Município é zero. Afinal, quais foram as grandes obras que Pazolini trouxe para Barra de São Francisco? Quais investimentos conseguiu? Quais emendas parlamentares destinou ao Município durante sua passagem pela Assembleia Legislativa?

 

Seria interessante que seus entusiasmados defensores apresentassem essa relação. De preferência, com documentos, valores e datas, porque discurso de campanha não tapa buraco, promessa não constrói rodovia e fotografia sorridente não gera desenvolvimento. Enquanto isso, Barra de São Francisco experimentou, durante a administração estadual iniciada por Renato Casagrande (PSB), tendo Ricardo Ferraço (MDB) como vice-governador e atual chefe do Executivo, uma transformação que até quem sofre de miopia política deveria conseguir enxergar.

 

O Município virou um gigantesco canteiro de obras. Asfalto espalhado por praticamente toda a cidade, inclusive nas periferias, investimentos em rodovias, intervenções importantes na sede e no interior, a nova Avenida Ery Silva Fortes, facilitando o acesso a Mantena, em Minas Gerais, e a nova Estação Rodoviária, reivindicação histórica da população. São realizações que representam mobilidade, desenvolvimento, valorização imobiliária, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida.

 

Não se trata de defender que o eleitor tenha obrigação de votar em determinado candidato por causa de obras públicas. Afinal, governante não faz favor quando investe dinheiro público. Cumpre sua obrigação. Mas existe uma diferença gigantesca entre independência eleitoral e amnésia coletiva. Uma coisa é não dever fidelidade a político algum. Outra, completamente diferente, é ignorar quem efetivamente investiu no Município e entregar uma vitória eleitoral a quem ainda precisa demonstrar o que fez por ele.

 

E o mais espantoso é que essa aposta recai justamente sobre Lorenzo Pazolini, cuja passagem pela Prefeitura de Vitória foi marcada por críticas e controvérsias envolvendo sua relação com servidores municipais, a política de remuneração dos profissionais da educação e medidas administrativas contestadas por categorias do funcionalismo. Não por acaso, uma carta aberta dirigida a professores, demais servidores, pais e alunos da rede estadual passou a circular nas redes sociais, alertando para os riscos de reprodução, em âmbito estadual, de práticas atribuídas à sua administração na capital.

 

Entre os episódios mencionados está a controvérsia sobre a licença-luto dos servidores, além de questionamentos envolvendo a valorização salarial dos profissionais da educação. São questões que merecem esclarecimentos públicos, e não apenas slogans cuidadosamente fabricados por marqueteiros. E, como se não bastasse, existe ainda o componente político de sua candidatura: a proximidade com o senador Magno Malta, personagem cuja presença, segundo críticas de adversários, foi convenientemente reduzida na exposição pública da campanha do segundo turno.

 


Parece até aquele parente inconveniente que todo mundo conhece, mas que ninguém quer colocar na fotografia do casamento. Outro ponto que exige esclarecimento imediato é a informação que circula sobre uma possível interrupção de obras estaduais em andamento caso Pazolini vença a eleição. É importante registrar que essa possibilidade não pode ser apresentada como decisão já anunciada sem comprovação. Entretanto, o candidato precisa assumir publicamente um compromisso inequívoco com a continuidade dos investimentos.

 

Porque uma eventual paralisação generalizada representaria um desastre: desemprego na construção civil, prejuízos econômicos, desperdício de recursos públicos e transtornos para milhares de capixabas. Barra de São Francisco não pode voltar a ser refém de disputas políticas enquanto máquinas, trabalhadores e investimentos desaparecem de seus canteiros de obras. O voto é livre, secreto e soberano. Inclusive o voto equivocado.

 

A democracia garante ao cidadão até mesmo o direito de escolher alguém cujas propostas possam contrariar seus próprios interesses, como é o caso de negros, pobres e homossexuais que votam na extrema-direita bolsonarista que os odeia. Mas liberdade de escolha não torna nenhuma decisão imune à crítica.

 

O que aconteceu em Barra de São Francisco merece uma reflexão profunda. Não pela obrigação de retribuir eleitoralmente os investimentos de um governo, mas pela aparente facilidade com que parte do eleitorado desprezou resultados concretos para apostar em uma candidatura cuja contribuição ao Município é inexistente. É o velho fenômeno brasileiro de trocar a realidade pela propaganda, a obra pela promessa, o certo pelo duvidoso e o benefício coletivo pela paixão partidária.

 

Depois, quando o progresso estaciona, os investimentos desaparecem e as promessas evaporam, começa a tradicional romaria das lamentações. E surge aquela pergunta que acompanha tantas escolhas políticas desastrosas: como foi que chegamos a esse ponto? Talvez a resposta esteja diante do espelho.

 

Barra de São Francisco não precisa de eleitores obedientes a governantes. Precisa de cidadãos capazes de comparar realizações, cobrar compromissos, reconhecer investimentos e compreender as consequências de suas escolhas, porque a ingratidão política pode até render aplausos nos palanques adversários, mas, quando a conta chega, quem paga não é o candidato. É a população inteira.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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