Por *Elvécio Andrade
Uma parcela expressiva do eleitorado de
Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, resolveu conceder uma
votação vitoriosa ao candidato ao do Estado, Lorenzo Pazolini (Republicanos),
político cuja contribuição concreta para o desenvolvimento do Município é zero.
Afinal, quais foram as grandes obras que Pazolini trouxe para Barra de São
Francisco? Quais investimentos conseguiu? Quais emendas parlamentares destinou
ao Município durante sua passagem pela Assembleia Legislativa?
Seria interessante que seus
entusiasmados defensores apresentassem essa relação. De preferência, com
documentos, valores e datas, porque discurso de campanha não tapa buraco,
promessa não constrói rodovia e fotografia sorridente não gera desenvolvimento.
Enquanto isso, Barra de São Francisco experimentou, durante a administração
estadual iniciada por Renato Casagrande (PSB), tendo Ricardo Ferraço (MDB) como
vice-governador e atual chefe do Executivo, uma transformação que até quem
sofre de miopia política deveria conseguir enxergar.
O Município virou um gigantesco
canteiro de obras. Asfalto espalhado por praticamente toda a cidade, inclusive
nas periferias, investimentos em rodovias, intervenções importantes na sede e
no interior, a nova Avenida Ery Silva Fortes, facilitando o acesso a Mantena,
em Minas Gerais, e a nova Estação Rodoviária, reivindicação histórica da
população. São realizações que representam mobilidade, desenvolvimento,
valorização imobiliária, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida.
Não se trata de defender que o
eleitor tenha obrigação de votar em determinado candidato por causa de obras
públicas. Afinal, governante não faz favor quando investe dinheiro público.
Cumpre sua obrigação. Mas existe uma diferença gigantesca entre independência
eleitoral e amnésia coletiva. Uma coisa é não dever fidelidade a político
algum. Outra, completamente diferente, é ignorar quem efetivamente investiu no
Município e entregar uma vitória eleitoral a quem ainda precisa demonstrar o
que fez por ele.
E o mais espantoso é que essa aposta
recai justamente sobre Lorenzo Pazolini, cuja passagem pela Prefeitura de
Vitória foi marcada por críticas e controvérsias envolvendo sua relação com
servidores municipais, a política de remuneração dos profissionais da educação
e medidas administrativas contestadas por categorias do funcionalismo. Não por
acaso, uma carta aberta dirigida a professores, demais servidores, pais e
alunos da rede estadual passou a circular nas redes sociais, alertando para os
riscos de reprodução, em âmbito estadual, de práticas atribuídas à sua
administração na capital.
Entre os episódios mencionados está a
controvérsia sobre a licença-luto dos servidores, além de questionamentos
envolvendo a valorização salarial dos profissionais da educação. São questões
que merecem esclarecimentos públicos, e não apenas slogans cuidadosamente
fabricados por marqueteiros. E, como se não bastasse, existe ainda o componente
político de sua candidatura: a proximidade com o senador Magno Malta,
personagem cuja presença, segundo críticas de adversários, foi convenientemente
reduzida na exposição pública da campanha do segundo turno.
Parece até aquele parente
inconveniente que todo mundo conhece, mas que ninguém quer colocar na
fotografia do casamento. Outro ponto que exige esclarecimento imediato é a
informação que circula sobre uma possível interrupção de obras estaduais em
andamento caso Pazolini vença a eleição. É importante registrar que essa
possibilidade não pode ser apresentada como decisão já anunciada sem
comprovação. Entretanto, o candidato precisa assumir publicamente um
compromisso inequívoco com a continuidade dos investimentos.
Porque uma eventual paralisação
generalizada representaria um desastre: desemprego na construção civil,
prejuízos econômicos, desperdício de recursos públicos e transtornos para milhares
de capixabas. Barra de São Francisco não pode voltar a ser refém de disputas
políticas enquanto máquinas, trabalhadores e investimentos desaparecem de seus
canteiros de obras. O voto é livre, secreto e soberano. Inclusive o voto
equivocado.
A democracia garante ao cidadão até
mesmo o direito de escolher alguém cujas propostas possam contrariar seus
próprios interesses, como é o caso de negros, pobres e homossexuais que votam
na extrema-direita bolsonarista que os odeia. Mas liberdade de escolha não
torna nenhuma decisão imune à crítica.
O que aconteceu em Barra de São
Francisco merece uma reflexão profunda. Não pela obrigação de retribuir
eleitoralmente os investimentos de um governo, mas pela aparente facilidade com
que parte do eleitorado desprezou resultados concretos para apostar em uma candidatura
cuja contribuição ao Município é inexistente. É o velho fenômeno brasileiro de
trocar a realidade pela propaganda, a obra pela promessa, o certo pelo duvidoso
e o benefício coletivo pela paixão partidária.
Depois, quando o progresso estaciona,
os investimentos desaparecem e as promessas evaporam, começa a tradicional
romaria das lamentações. E surge aquela pergunta que acompanha tantas escolhas
políticas desastrosas: como foi que chegamos a esse ponto? Talvez a resposta
esteja diante do espelho.
Barra de São Francisco não precisa de
eleitores obedientes a governantes. Precisa de cidadãos capazes de comparar
realizações, cobrar compromissos, reconhecer investimentos e compreender as
consequências de suas escolhas, porque a ingratidão política pode até render
aplausos nos palanques adversários, mas, quando a conta chega, quem paga não é
o candidato. É a população inteira.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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