Por *Elvécio Andrade
Para disputar o Governo de um Estado,
talvez fosse razoável exigir do candidato alguma coisa além de vontade
política, discurso pronto e microfone na mão. Um pouquinho de conhecimento
sobre os assuntos que pretende administrar também não faria mal. Ou, pelo
menos, a disposição de pesquisar antes de falar diante das câmeras.
Mas, no debate entre os candidatos ao
Governo do Espírito Santo, realizado na terça-feira, 29, o candidato Lorenzo
Pazolini (Republicanos) conseguiu transformar uma questão de saúde pública em
uma verdadeira viagem pelo desconhecido, e, de quebra, criou uma nova
especialidade médica.
Ao falar sobre atendimento às
mulheres, Pazolini afirmou que, em seu governo, haveria atendimento para
aquelas que precisassem fazer “exame de colonoscopia no útero”. Sim, caro
leitor. Você não leu errado. Colonoscopia no útero. A medicina, aparentemente,
acaba de ganhar um novo capítulo.
Para quem não conhece anatomia,
talvez seja importante explicar que o útero e o intestino grosso não são
exatamente vizinhos com porta de comunicação. A colonoscopia é um exame destinado
à avaliação do intestino grosso. Já o útero pertence ao sistema reprodutor
feminino. Ou seja: Pazolini conseguiu colocar a colonoscopia no lugar errado.
E não foi numa conversa de boteco,
num áudio de WhatsApp ou numa roda de amigos depois de algumas cervejas
estupidamente geladas. Foi num debate eleitoral transmitido ao vivo para o
público, diante dos demais candidatos e dos eleitores capixabas. A internet,
naturalmente, não perdoou.
As redes sociais rapidamente
transformaram a declaração em motivo de piada, memes e comentários, afinal,
quando um candidato pretende governar um Estado, mas começa confundindo órgãos
do corpo humano, fica difícil para o eleitor não imaginar o que mais poderá ser
confundido pelo caminho. Imagine o programa de governo: Saúde: resolvida. Educação:
encaminhada. Segurança: em estudo. Anatomia: melhor não perguntar.
O episódio também serve para uma
reflexão bem simples: debate eleitoral não é concurso de improvisação. Quem
pretende comandar um Estado precisa conhecer minimamente os problemas que está
se propondo a enfrentar. Saúde pública, por exemplo, exige muito mais do que
frases de efeito. Exige conhecimento, planejamento, equipe técnica e,
principalmente, cuidado com a informação.
Porque errar uma palavra pode
acontecer com qualquer pessoa, mas transformar o útero em endereço alternativo
do intestino grosso diante de uma audiência estadual é um daqueles momentos em
que o candidato provavelmente gostaria de poder pedir ao mediador: “Tem como
voltar a fita e começar essa resposta de novo?” Não dá, a internet já salvou.
E agora, graças ao debate, talvez o
Espírito Santo tenha descoberto uma nova modalidade de turismo médico: a
colonoscopia uterina. Só falta descobrir onde fica a clínica. E, por favor,
alguém avise ao candidato antes que, no próximo debate, ele resolva procurar o
coração no fígado.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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