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02/08/2026

E se a terra fosse administrada por cães, gatos e outros animais? A vida teria muito mais sentido

O mundo seria outro (Foto: reprodução)

Por *Elvécio Andrade

 

Às vezes, sentado em silêncio na varanda de minha casa no final de semana, tomando uma cerveja gelada, com o pensamento distante e observando um cachorro dormir sem preocupações e um gato caminhar com a elegância de quem não deve satisfações a ninguém, fico imaginando como seria o mundo se, um dia, os seres humanos simplesmente desaparecessem.

 

Não por castigo. Não por tragédia. Apenas partissem, deixando o planeta para aqueles que sempre viveram nele sem nunca reivindicar sua posse. Penso que as prefeituras fechariam as portas, os palácios perderiam o sentido, os parlamentos se transformariam em ruínas cobertas pelo mato. Não porque alguém os tivesse destruído, mas porque ninguém sentiria necessidade de mandar em ninguém.

 

Os cães não fariam campanhas prometendo aquilo que jamais pretendem cumprir. Os gatos não espalhariam mentiras para conquistar admiradores. Os cavalos não enriqueceriam às custas da fome dos outros. As formigas continuariam trabalhando sem exigir medalhas, enquanto as abelhas seguiriam produzindo mel sem criar discursos sobre mérito.

 

As florestas respirariam aliviadas. Os rios voltariam a enxergar o céu refletido em suas águas cristalinas, livres do lixo que nós insistimos em chamar de progresso. As montanhas permaneceriam exatamente onde sempre estiveram, sem que alguém decidisse explodi-las apenas porque havia minério suficiente para aumentar uma conta bancária. Também não existiriam guerras.

 

Nenhuma raposa convenceria milhares de animais a morrer para provar que seu território é maior. Nenhum lobo enviaria jovens para os campos de batalha enquanto permanecesse seguro em sua toca. Nenhuma baleia pisaria em outra por diferenças de pensamento. As guerras são uma invenção extraordinariamente humana. E talvez a maior mudança acontecesse justamente onde nós mais gostamos de afirmar que somos superiores.

 

As religiões, que tanto mal causam, deixariam de ser impérios financeiros. Não haveria templos luxuosos construídos sobre o sacrifício dos humildes. Nenhum animal ameaçaria outro com castigos eternos para arrancar moedas de quem mal tem o que comer. Ninguém transformaria a fé em comércio, nem Deus em instrumento de poder. Talvez porque os animais nunca precisaram disso para compreender a simplicidade da existência.

 


Um cachorro demonstra gratidão abanando o rabo. Um gato oferece confiança quando escolhe dormir ao seu lado. Um pássaro canta sem cobrar ingresso. Uma árvore oferece sombra até mesmo a quem a machuca. Enquanto isso, nós, que nos autoproclamamos a espécie racional, passamos boa parte da vida disputando poder, acumulando riquezas que não levaremos, odiando pessoas que nunca conhecemos e criando divisões onde a natureza jamais colocou fronteiras.

 

Chamamos os animais de irracionais. Mas nunca encontrei um cachorro corrupto. Nunca ouvi falar de um gato lavando dinheiro. Jamais vi um cavalo explorando a fé alheia ou um elefante iniciando uma guerra para aumentar seu prestígio. Os animais conhecem a fome, o medo, a dor e a luta pela sobrevivência. Nós conhecemos tudo isso... e ainda acrescentamos a ambição, a vaidade, a mentira e a crueldade gratuita.

 

Talvez seja por isso que um cão consiga dormir em paz depois de um dia inteiro, enquanto tantos seres humanos passam a noite acordados, planejando como enganar alguém na manhã seguinte. Às vezes penso que Deus, ou a própria natureza, para quem prefere chamá-la assim, deve olhar para nós com uma tristeza silenciosa. Recebemos inteligência para proteger a vida, mas frequentemente a usamos para destruí-la.

 

Quem sabe um dia aprendamos com aqueles que nunca escreveram um livro de filosofia, nunca fundaram uma religião, nunca criaram um partido político e jamais discursaram em uma praça. Porque eles ensinam todos os dias, sem pronunciar uma única palavra. Ensinam que a lealdade vale mais do que a ambição. Que o afeto vale mais do que a riqueza. Que viver é muito mais importante do que dominar. E, enquanto esse dia não chega, continuo observando o cachorro adormecido aos meus pés e o gato caminhando tranquilamente pelo quintal.

 

Talvez eles nunca entendam a nossa linguagem. Mas, olhando para o mundo que construímos, começo a desconfiar de que somos nós que ainda não aprendemos a deles. No fim, talvez o verdadeiro paraíso nunca tenha sido um lugar onde os homens governassem a terra, mas um lugar onde aprendessem a viver nela com a mesma simplicidade de um cão, a mesma dignidade de um cavalo e a mesma liberdade de um pássaro.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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