Por *Elvécio Andrade
Às vezes, sentado em silêncio na varanda de minha casa no final de
semana, tomando uma cerveja gelada, com o pensamento distante e observando um
cachorro dormir sem preocupações e um gato caminhar com a elegância de quem não
deve satisfações a ninguém, fico imaginando como seria o mundo se, um dia, os
seres humanos simplesmente desaparecessem.
Não por castigo. Não por
tragédia. Apenas partissem, deixando o planeta para aqueles que sempre viveram
nele sem nunca reivindicar sua posse. Penso que as prefeituras fechariam as
portas, os palácios perderiam o sentido, os parlamentos se transformariam em
ruínas cobertas pelo mato. Não porque alguém os tivesse destruído, mas porque
ninguém sentiria necessidade de mandar em ninguém.
Os cães não fariam campanhas
prometendo aquilo que jamais pretendem cumprir. Os gatos não espalhariam
mentiras para conquistar admiradores. Os cavalos não enriqueceriam às custas da
fome dos outros. As formigas continuariam trabalhando sem exigir medalhas,
enquanto as abelhas seguiriam produzindo mel sem criar discursos sobre mérito.
As florestas respirariam
aliviadas. Os rios voltariam a enxergar o céu refletido em suas águas
cristalinas, livres do lixo que nós insistimos em chamar de progresso. As
montanhas permaneceriam exatamente onde sempre estiveram, sem que alguém
decidisse explodi-las apenas porque havia minério suficiente para aumentar uma
conta bancária. Também não existiriam guerras.
Nenhuma raposa convenceria
milhares de animais a morrer para provar que seu território é maior. Nenhum
lobo enviaria jovens para os campos de batalha enquanto permanecesse seguro em
sua toca. Nenhuma baleia pisaria em outra por diferenças de pensamento. As
guerras são uma invenção extraordinariamente humana. E talvez a maior mudança
acontecesse justamente onde nós mais gostamos de afirmar que somos superiores.
As religiões, que tanto mal
causam, deixariam de ser impérios financeiros. Não haveria templos luxuosos
construídos sobre o sacrifício dos humildes. Nenhum animal ameaçaria outro com
castigos eternos para arrancar moedas de quem mal tem o que comer. Ninguém
transformaria a fé em comércio, nem Deus em instrumento de poder. Talvez porque
os animais nunca precisaram disso para compreender a simplicidade da
existência.
Um cachorro demonstra gratidão
abanando o rabo. Um gato oferece confiança quando escolhe dormir ao seu lado. Um
pássaro canta sem cobrar ingresso. Uma árvore oferece sombra até mesmo a quem a
machuca. Enquanto isso, nós, que nos autoproclamamos a espécie racional,
passamos boa parte da vida disputando poder, acumulando riquezas que não
levaremos, odiando pessoas que nunca conhecemos e criando divisões onde a
natureza jamais colocou fronteiras.
Chamamos os animais de
irracionais. Mas nunca encontrei um cachorro corrupto. Nunca ouvi falar de um
gato lavando dinheiro. Jamais vi um cavalo explorando a fé alheia ou um
elefante iniciando uma guerra para aumentar seu prestígio. Os animais conhecem
a fome, o medo, a dor e a luta pela sobrevivência. Nós conhecemos tudo isso...
e ainda acrescentamos a ambição, a vaidade, a mentira e a crueldade gratuita.
Talvez seja por isso que um
cão consiga dormir em paz depois de um dia inteiro, enquanto tantos seres humanos
passam a noite acordados, planejando como enganar alguém na manhã seguinte. Às
vezes penso que Deus, ou a própria natureza, para quem prefere chamá-la assim,
deve olhar para nós com uma tristeza silenciosa. Recebemos inteligência para
proteger a vida, mas frequentemente a usamos para destruí-la.
Quem sabe um dia aprendamos
com aqueles que nunca escreveram um livro de filosofia, nunca fundaram uma
religião, nunca criaram um partido político e jamais discursaram em uma praça. Porque
eles ensinam todos os dias, sem pronunciar uma única palavra. Ensinam que a
lealdade vale mais do que a ambição. Que o afeto vale mais do que a riqueza. Que
viver é muito mais importante do que dominar. E, enquanto esse dia não chega,
continuo observando o cachorro adormecido aos meus pés e o gato caminhando
tranquilamente pelo quintal.
Talvez eles nunca entendam a
nossa linguagem. Mas, olhando para o mundo que construímos, começo a desconfiar
de que somos nós que ainda não aprendemos a deles. No fim, talvez o verdadeiro
paraíso nunca tenha sido um lugar onde os homens governassem a terra, mas um
lugar onde aprendessem a viver nela com a mesma simplicidade de um cão, a mesma
dignidade de um cavalo e a mesma liberdade de um pássaro.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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