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03/08/2026

PL capixaba cria a Bancada da Tornozeleira e dá uma banana para a renovação em 2026

A Bancada da Tornozeleira

Por *Elvécio Andrade

 

O Partido Liberal parece ter encontrado no Espírito Santo uma maneira bastante peculiar de inovar na política: além de lançar candidatos para disputar vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, a legenda parece estar montando uma espécie de Bancada da Tornozeleira. E não se trata de piada. É política brasileira em estado bruto.

 

A convenção estadual do PL, realizada neste sábado, 1º, em Vila Velha/ES, na Grande Vitória, homologou 42 candidaturas para as eleições de 2026, 22 para deputado estadual e 11 para deputado federal, entre outras. E, no meio dessa festa partidária, aparecem nomes que carregam não apenas discursos inflamados, bandeiras e promessas eleitorais, nunca cumpridas, diga-se de passagem, mas também um histórico recente de confrontos com a Justiça.

 

O caso mais emblemático é o do deputado estadual Capitão Assumção. O parlamentar foi submetido pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a medidas cautelares que incluíram o uso de tornozeleira eletrônica, no contexto das investigações relacionadas aos atos antidemocráticos. Em fevereiro de 2024, chegou a ser preso pela Polícia Federal por descumprimento de medidas cautelares. E não está sozinho.

 

Armandinho Fontoura, Carlos Von e Pastor Fabiano Oliveira também foram submetidos ao monitoramento eletrônico por determinação judicial, depois de terem sido presos no contexto das investigações relacionadas aos atos antidemocráticos. Ou seja: se a política fosse um desfile de fantasias, o PL capixaba poderia perfeitamente inaugurar a coleção “Moda Eleitoral 2026, Edição Tornozeleira”.

 

Só que o problema não é a tornozeleira. A tornozeleira é apenas um equipamento determinado pela Justiça. O verdadeiro problema é o que ela representa dentro de uma candidatura e o tipo de mensagem que um partido transmite ao eleitor quando transforma pessoas envolvidas em graves controvérsias judiciais em opções eleitorais. E aqui está a pergunta que precisa ser feita: Que tipo de renovação política é essa?

 

Cabe ao eleitor votar com consciência

O Espírito Santo já convive há anos com uma classe política que, em muitos casos, parece mais preocupada com guerra ideológica, lacração nas redes sociais, ataques a adversários e fidelidade a líderes nacionais do que com os problemas concretos da população. Políticos como os senadores Magno Malta e Marcos Duval; deputados federais Evair de Melo, Amaro Neto, Messias Donato, Gilvan da Federal (cassado) etc; e deputados estaduais inexpressivos como Lucas Polese, Capitão Assumção, Sérgio Meneguelli (o pior de todos), e Pablo Muribeca, que nada fazem pelo Estado.

 

Enquanto hospitais enfrentam dificuldades, municípios sofrem com serviços públicos precários, estradas continuam abandonadas e milhares de capixabas esperam respostas para problemas básicos, determinados políticos parecem acreditar que governar é gritar mais alto, atacar o adversário com mais violência e transformar qualquer investigação judicial em combustível para o discurso de perseguição.

 

E o eleitor? O eleitor precisa ser tratado como adulto. Não é suficiente escolher candidato porque ele fala bonito, usa farda, ostenta uma Bíblia, berra contra o Supremo, aparece nas redes sociais ou posa ao lado de alguma celebridade política. É preciso pesquisar. Pesquisar a história. Pesquisar os processos. Pesquisar condenações. Pesquisar decisões judiciais. Pesquisar o que o candidato efetivamente fez quando teve mandato. Pesquisar, sobretudo, se aquilo que ele promete combina minimamente com aquilo que ele pratica. Porque discurso de moralidade qualquer um faz.

 

Difícil é apresentar uma vida pública que sobreviva à pesquisa. E há outro capítulo dessa história. O deputado federal Gilvan da Federal, que havia sido considerado inelegível após condenação eleitoral por violência política de gênero contra a deputada Camila Valadão, conseguiu uma liminar no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) suspendendo provisoriamente os efeitos eleitorais da inelegibilidade. Isso significa que ele poderá participar das etapas da eleição de 2026 enquanto o mérito da questão ainda aguarda julgamento definitivo. A condenação, porém, não foi anulada pela liminar.

 

Eis aí outro detalhe que o eleitor precisa compreender: uma liminar não é absolvição. Decisão provisória não apaga condenação. E autorização para disputar eleição não equivale a certificado de bons antecedentes políticos. Mas parece que, em determinadas rodas da política, basta uma decisão provisória para transformar problema judicial em argumento eleitoral. É a velha estratégia: quando a Justiça condena, é perseguição; quando a Justiça favorece provisoriamente, é “prova de inocência”. Conveniente, não?

 


O PL capixaba tem todo o direito de escolher seus candidatos. A Justiça Eleitoral tem a competência de decidir quem pode ou não disputar uma eleição. E o eleitor tem o direito, e talvez a obrigação moral, de conhecer profundamente quem está pedindo seu voto. Porque voto não é torcida organizada. Não é culto religioso. Não é declaração de amor a político. Não é instrumento de vingança contra adversários.

 

Voto é procuração. E entregar uma procuração política para alguém significa permitir que essa pessoa fale em seu nome, vote em seu nome, fiscalize recursos públicos em seu nome e participe das decisões que afetarão a vida de milhões de capixabas. Por isso, a eleição de 2026 precisa ser menos sobre paixões e mais sobre memória. Menos sobre memes e mais sobre biografias. Menos sobre gritos e mais sobre resultados. Menos sobre “mitos” e mais sobre fatos.

 

E, principalmente, menos sobre candidatos apresentados como vítimas eternas de alguma conspiração e mais sobre o que realmente consta nos processos, nas decisões judiciais e no histórico público de cada um. Se a chamada Bancada da Tornozeleira pretende transformar seus problemas judiciais em medalhas de honra, cabe ao eleitor decidir se quer transformar esse símbolo em passaporte para novos mandatos. A democracia não impede ninguém de disputar eleições quando a lei permite. Mas também não obriga ninguém a votar em determinado candidato.

 

E talvez essa seja a maior arma do eleitor: a memória. No dia da urna, não haverá discurso inflamado, culto, live, bandeira, camisa de partido ou postagem em rede social capaz de apertar o botão no lugar do cidadão. Será somente ele, a urna e a consciência. E, diante dela, cada eleitor terá que responder a uma pergunta simples: é esse realmente o tipo de político que eu quero representando o Espírito Santo? Porque, no fim das contas, a tornozeleira pode até ser eletrônica. Mas a responsabilidade pelo voto é humana.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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