Por *Elvécio Andrade
O Partido Liberal parece ter encontrado no
Espírito Santo uma maneira bastante peculiar de inovar na política: além de
lançar candidatos para disputar vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos
Deputados, a legenda parece estar montando uma espécie de Bancada da
Tornozeleira. E não se trata de piada. É política brasileira em estado
bruto.
A convenção estadual do PL, realizada neste
sábado, 1º, em Vila Velha/ES, na Grande Vitória, homologou 42 candidaturas para
as eleições de 2026, 22 para deputado estadual e 11 para deputado federal,
entre outras. E, no meio dessa festa partidária, aparecem nomes que carregam
não apenas discursos inflamados, bandeiras e promessas eleitorais, nunca cumpridas,
diga-se de passagem, mas também um histórico recente de confrontos com a
Justiça.
O caso mais emblemático é o do deputado
estadual Capitão Assumção. O parlamentar foi submetido pelo STF (Supremo
Tribunal Federal) a medidas cautelares que incluíram o uso de tornozeleira
eletrônica, no contexto das investigações relacionadas aos atos
antidemocráticos. Em fevereiro de 2024, chegou a ser preso pela Polícia Federal
por descumprimento de medidas cautelares. E não está sozinho.
Armandinho Fontoura, Carlos Von e Pastor
Fabiano Oliveira também foram submetidos ao monitoramento eletrônico por
determinação judicial, depois de terem sido presos no contexto das
investigações relacionadas aos atos antidemocráticos. Ou seja: se a política
fosse um desfile de fantasias, o PL capixaba poderia perfeitamente inaugurar a
coleção “Moda Eleitoral 2026, Edição Tornozeleira”.
Só que o problema não é a tornozeleira. A
tornozeleira é apenas um equipamento determinado pela Justiça. O verdadeiro
problema é o que ela representa dentro de uma candidatura e o tipo de mensagem
que um partido transmite ao eleitor quando transforma pessoas envolvidas em
graves controvérsias judiciais em opções eleitorais. E aqui está a pergunta que
precisa ser feita: Que tipo de renovação política é essa?
O Espírito Santo já convive há anos com uma
classe política que, em muitos casos, parece mais preocupada com guerra
ideológica, lacração nas redes sociais, ataques a adversários e fidelidade a
líderes nacionais do que com os problemas concretos da população. Políticos
como os senadores Magno Malta e Marcos Duval; deputados federais Evair de Melo,
Amaro Neto, Messias Donato, Gilvan da Federal (cassado) etc; e deputados
estaduais inexpressivos como Lucas Polese, Capitão Assumção, Sérgio Meneguelli
(o pior de todos), e Pablo Muribeca, que nada fazem pelo Estado.
Enquanto hospitais enfrentam dificuldades,
municípios sofrem com serviços públicos precários, estradas continuam
abandonadas e milhares de capixabas esperam respostas para problemas básicos,
determinados políticos parecem acreditar que governar é gritar mais alto,
atacar o adversário com mais violência e transformar qualquer investigação
judicial em combustível para o discurso de perseguição.
E o eleitor? O eleitor precisa ser tratado como
adulto. Não é suficiente escolher candidato porque ele fala bonito, usa farda,
ostenta uma Bíblia, berra contra o Supremo, aparece nas redes sociais ou posa
ao lado de alguma celebridade política. É preciso pesquisar. Pesquisar a
história. Pesquisar os processos. Pesquisar condenações. Pesquisar decisões
judiciais. Pesquisar o que o candidato efetivamente fez quando teve mandato. Pesquisar,
sobretudo, se aquilo que ele promete combina minimamente com aquilo que ele
pratica. Porque discurso de moralidade qualquer um faz.
Difícil é apresentar uma vida pública que
sobreviva à pesquisa. E há outro capítulo dessa história. O deputado federal
Gilvan da Federal, que havia sido considerado inelegível após condenação
eleitoral por violência política de gênero contra a deputada Camila Valadão,
conseguiu uma liminar no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) suspendendo
provisoriamente os efeitos eleitorais da inelegibilidade. Isso significa que
ele poderá participar das etapas da eleição de 2026 enquanto o mérito da
questão ainda aguarda julgamento definitivo. A condenação, porém, não foi
anulada pela liminar.
Eis aí outro detalhe que o eleitor precisa
compreender: uma liminar não é absolvição. Decisão provisória não apaga
condenação. E autorização para disputar eleição não equivale a certificado de
bons antecedentes políticos. Mas parece que, em determinadas rodas da política,
basta uma decisão provisória para transformar problema judicial em argumento
eleitoral. É a velha estratégia: quando a Justiça condena, é perseguição;
quando a Justiça favorece provisoriamente, é “prova de inocência”. Conveniente,
não?
O PL capixaba tem todo o direito de escolher
seus candidatos. A Justiça Eleitoral tem a competência de decidir quem pode ou
não disputar uma eleição. E o eleitor tem o direito, e talvez a obrigação moral,
de conhecer profundamente quem está pedindo seu voto. Porque voto não é torcida
organizada. Não é culto religioso. Não é declaração de amor a político. Não é
instrumento de vingança contra adversários.
Voto é procuração. E entregar uma procuração
política para alguém significa permitir que essa pessoa fale em seu nome, vote
em seu nome, fiscalize recursos públicos em seu nome e participe das decisões
que afetarão a vida de milhões de capixabas. Por isso, a eleição de 2026
precisa ser menos sobre paixões e mais sobre memória. Menos sobre memes e mais
sobre biografias. Menos sobre gritos e mais sobre resultados. Menos sobre
“mitos” e mais sobre fatos.
E, principalmente, menos sobre candidatos
apresentados como vítimas eternas de alguma conspiração e mais sobre o que
realmente consta nos processos, nas decisões judiciais e no histórico público
de cada um. Se a chamada Bancada da Tornozeleira pretende transformar
seus problemas judiciais em medalhas de honra, cabe ao eleitor decidir se quer
transformar esse símbolo em passaporte para novos mandatos. A democracia não
impede ninguém de disputar eleições quando a lei permite. Mas também não obriga
ninguém a votar em determinado candidato.
E talvez essa seja a maior arma do eleitor: a
memória. No dia da urna, não haverá discurso inflamado, culto, live, bandeira,
camisa de partido ou postagem em rede social capaz de apertar o botão no lugar
do cidadão. Será somente ele, a urna e a consciência. E, diante dela, cada
eleitor terá que responder a uma pergunta simples: é esse realmente o tipo de
político que eu quero representando o Espírito Santo? Porque, no fim das
contas, a tornozeleira pode até ser eletrônica. Mas a responsabilidade pelo
voto é humana.
*Elvécio Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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