Por *Elvécio Andrade
Há homens que passam pela vida sem
incomodar ninguém. Jonas Soprani não foi um deles. Ele escolheu o caminho mais
difícil: incomodar o poder. Denunciou, questionou, fiscalizou, cobrou, apontou
problemas, criticou políticos, prefeitos, vereadores, secretários municipais e
órgãos públicos. Principalmente no Norte e no Noroeste do Espírito Santo,
tornou-se conhecido como Caçador de Corruptos,
por não aceitar o silêncio como resposta diante daquilo que considerava errado.
E quem incomoda o poder sabe que nem
sempre será recebido com aplausos. Jonas acumulou adversários. Acumulou
desafetos. Acumulou inimigos. Até que, em 23 de junho de 2021, aos 48 anos, foi
assassinado a tiros em um bar no Bairro Novo Horizonte, em Linhares, no Norte
do Espírito Santo, no seu momento de lazer. O Samu chegou. Houve tentativa de
salvamento. Jonas foi levado ao Hospital Rio Doce. Mas a vida daquele homem que
tantas vezes enfrentou o poder terminou naquela noite.
Quatro anos depois, ainda dói. Dói
porque Jonas não morreu de velhice. Não morreu depois de cumprir uma longa
trajetória. Não teve a oportunidade de envelhecer, olhar para trás e dizer que
havia feito sua parte. Ele foi brutalmente retirado de cena. E justamente por
isso sua história não pode terminar no Boletim de Ocorrência, no processo
judicial ou nos nomes dos acusados.
A prisão de Cosme Damasceno, em
Cariacica/ES, representa mais um avanço no caso. Segundo a investigação
policial e a denúncia do Ministério Público, ele participou da logística do
assassinato. Genebaldo Carlos da Fonseca Júnior já foi condenado a mais de 59
anos de prisão. Waldeir de Freitas Lopes, vereador na época do crime, é
apontado como mandante e José Natalino Santos Mendes como executor, embora o
processo ainda tenha recursos e desdobramentos judiciais.
Que a Justiça faça o que precisa
fazer. Até o fim. Mas que ninguém confunda Justiça com esquecimento, porque uma
condenação pode encerrar um processo, mas não pode encerrar uma memória. Jonas
precisa ser lembrado não apenas como o homem que foi assassinado, mas como
aquele que viveu antes dos tiros. O homem que incomodava, que denunciava. O
homem que não parecia entender que, diante de determinadas estruturas de poder,
seria muito mais conveniente permanecer calado.
E talvez essa tenha sido sua maior
qualidade. Ou seu maior perigo. Num país onde muitos se calam para preservar
amizades, empregos, interesses ou conveniências, Jonas escolheu falar. Num país
onde tantos têm medo de enfrentar autoridades, ele enfrentou. Num país onde
denúncias podem desaparecer rapidamente nas páginas da internet, ele insistiu. Até
que as armas falaram mais alto.
Mas existe uma ironia cruel nessa
história. Os tiros conseguiram matar Jonas, mas não conseguiram matar aquilo
que ele representava. Porque cada denúncia que alguém faz contra uma
irregularidade. Cada cidadão que pergunta onde foi parar o dinheiro público. Cada
jornalista que não se curva diante de autoridade. Cada pessoa que exige
transparência. Cada voz que se levanta contra a corrupção, é uma espécie de
resposta àqueles que acreditam que o medo é suficiente para calar uma
sociedade.
Por isso, este não é apenas um texto
sobre uma prisão. É um texto sobre memória. É um texto sobre coragem. É um
texto sobre o preço que algumas pessoas pagam por não aceitarem o silêncio. E
é, sobretudo, um alerta. Quando alguém é assassinado por enfrentar aquilo que considera
errado, a sociedade não pode simplesmente virar a página. Precisa perguntar. Precisa
investigar. Precisa cobrar. Precisa lembrar. Porque o esquecimento é uma
segunda morte. E essa, Jonas não merece. Os tiros levaram Jonas Soprani, mas
não levaram sua voz.
E enquanto essa voz continuar ecoando
na memória daqueles que conheceram sua luta, quem tentou silenciá-lo terá
conseguido matar apenas um homem, jamais a sua causa.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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