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04/08/2026

Quem mandou matar Jonas Soprani, o Caçador de Corruptos, não conseguiu matar sua memória

Jonas era incansável contra a corrupção

Por *Elvécio Andrade

 

Há homens que passam pela vida sem incomodar ninguém. Jonas Soprani não foi um deles. Ele escolheu o caminho mais difícil: incomodar o poder. Denunciou, questionou, fiscalizou, cobrou, apontou problemas, criticou políticos, prefeitos, vereadores, secretários municipais e órgãos públicos. Principalmente no Norte e no Noroeste do Espírito Santo, tornou-se conhecido como Caçador de Corruptos, por não aceitar o silêncio como resposta diante daquilo que considerava errado.

 

E quem incomoda o poder sabe que nem sempre será recebido com aplausos. Jonas acumulou adversários. Acumulou desafetos. Acumulou inimigos. Até que, em 23 de junho de 2021, aos 48 anos, foi assassinado a tiros em um bar no Bairro Novo Horizonte, em Linhares, no Norte do Espírito Santo, no seu momento de lazer. O Samu chegou. Houve tentativa de salvamento. Jonas foi levado ao Hospital Rio Doce. Mas a vida daquele homem que tantas vezes enfrentou o poder terminou naquela noite.

 

Quatro anos depois, ainda dói. Dói porque Jonas não morreu de velhice. Não morreu depois de cumprir uma longa trajetória. Não teve a oportunidade de envelhecer, olhar para trás e dizer que havia feito sua parte. Ele foi brutalmente retirado de cena. E justamente por isso sua história não pode terminar no Boletim de Ocorrência, no processo judicial ou nos nomes dos acusados.

 

A prisão de Cosme Damasceno, em Cariacica/ES, representa mais um avanço no caso. Segundo a investigação policial e a denúncia do Ministério Público, ele participou da logística do assassinato. Genebaldo Carlos da Fonseca Júnior já foi condenado a mais de 59 anos de prisão. Waldeir de Freitas Lopes, vereador na época do crime, é apontado como mandante e José Natalino Santos Mendes como executor, embora o processo ainda tenha recursos e desdobramentos judiciais.

 


Que a Justiça faça o que precisa fazer. Até o fim. Mas que ninguém confunda Justiça com esquecimento, porque uma condenação pode encerrar um processo, mas não pode encerrar uma memória. Jonas precisa ser lembrado não apenas como o homem que foi assassinado, mas como aquele que viveu antes dos tiros. O homem que incomodava, que denunciava. O homem que não parecia entender que, diante de determinadas estruturas de poder, seria muito mais conveniente permanecer calado.

 

E talvez essa tenha sido sua maior qualidade. Ou seu maior perigo. Num país onde muitos se calam para preservar amizades, empregos, interesses ou conveniências, Jonas escolheu falar. Num país onde tantos têm medo de enfrentar autoridades, ele enfrentou. Num país onde denúncias podem desaparecer rapidamente nas páginas da internet, ele insistiu. Até que as armas falaram mais alto.

 

Mas existe uma ironia cruel nessa história. Os tiros conseguiram matar Jonas, mas não conseguiram matar aquilo que ele representava. Porque cada denúncia que alguém faz contra uma irregularidade. Cada cidadão que pergunta onde foi parar o dinheiro público. Cada jornalista que não se curva diante de autoridade. Cada pessoa que exige transparência. Cada voz que se levanta contra a corrupção, é uma espécie de resposta àqueles que acreditam que o medo é suficiente para calar uma sociedade.

 

Por isso, este não é apenas um texto sobre uma prisão. É um texto sobre memória. É um texto sobre coragem. É um texto sobre o preço que algumas pessoas pagam por não aceitarem o silêncio. E é, sobretudo, um alerta. Quando alguém é assassinado por enfrentar aquilo que considera errado, a sociedade não pode simplesmente virar a página. Precisa perguntar. Precisa investigar. Precisa cobrar. Precisa lembrar. Porque o esquecimento é uma segunda morte. E essa, Jonas não merece. Os tiros levaram Jonas Soprani, mas não levaram sua voz.

 

E enquanto essa voz continuar ecoando na memória daqueles que conheceram sua luta, quem tentou silenciá-lo terá conseguido matar apenas um homem, jamais a sua causa.


*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.


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