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25/10/2026

Professores sob ataque: a violência nas escolas é mais assustadora do que se possa imaginar

Professores em ação (Foto: reprodução)

Por *Elvécio Andrade

 

A notícia sobre a agressão sofrida por uma professora de 49 anos, atacada por cinco alunos do Ensino Médio no interior deSão Paulo, abriu as portas para uma realidade ainda mais assustadora. Depois da divulgação do episódio, comecei a receber mensagens de professores relatando situações que deveriam provocar uma verdadeira comoção nacional.

 

Não foram uma, duas ou três mensagens. Foram vários depoimentos, encaminhados por meio de mensagens de visualização única, aparentemente numa tentativa de preservar a identidade de quem já não se sente seguro nem mesmo para denunciar aquilo que enfrenta no exercício da profissão. E o conteúdo desses relatos é de causar indignação!

 

Professores denunciam que a violência nas escolas não parte exclusivamente dos alunos. Segundo eles, existem também pais e responsáveis que, além de não estabelecerem limites para os próprios filhos dentro de casa, não admitem que esses mesmos filhos sejam repreendidos quando cometem erros no ambiente escolar. É a completa inversão dos valores!

 

O professor, que deveria ser respeitado como uma das figuras mais importantes na formação de qualquer cidadão, passou a ser tratado, conforme os relatos recebidos, como alguém que precisa pedir licença para ensinar, autorização para corrigir e, praticamente, desculpas por tentar educar. Mas existe algo ainda mais grave: o abandono dos professores por quem deveria protege-los. A parte mais revoltante dos depoimentos não está apenas nas agressões e intimidações denunciadas. Está na postura atribuída às próprias direções escolares.

 

Segundo os educadores que entraram em contato, quando acontecem episódios de violência, os professores frequentemente acabam sozinhos, sem respaldo, sem proteção e sem providências efetivas por parte de quem administra as unidades de ensino. Mais grave ainda: os relatos apontam que, em muitos desses episódios, diretores escolares preferem ficar do lado dos alunos envolvidos nas ocorrências, deixando os profissionais agredidos numa situação de completo desamparo.

 

Se essas denúncias forem confirmadas, estaremos diante de algo que ultrapassa a omissão administrativa. Estaremos diante de uma gravíssima deterioração das relações institucionais dentro das escolas. Afinal, que autoridade moral pode ter uma direção escolar que exige disciplina dos professores, mas, diante de uma denúncia de agressão, não lhes oferece sequer o respaldo necessário? Que espécie de ambiente educacional estamos construindo quando o profissional responsável por ensinar precisa ter medo do aluno, dos pais do aluno e até da reação de seus superiores? É uma aberração!

 

Os relatos recebidos não estão concentrados numa única escola ou cidade. No Espírito Santo, chegaram mensagens de professores de Barra de São Francisco, Colatina, Águia Branca, Ecoporanga, Nova Venécia e São Mateus. Em Minas Gerais, os depoimentos partiram de educadores de Mantena, Açucena, Coronel Fabriciano, Tarumirim, Engenheiro Caldas e Manhuaçu. São 12 municípios de dois estados diferentes. E, embora os relatos ainda precisem ser individualmente apurados, a repetição das queixas exige atenção imediata das autoridades educacionais.

 

Não é admissível que profissionais da educação tenham receio de revelar publicamente aquilo que enfrentam dentro das instituições em que trabalham. A escola deveria ser um ambiente de conhecimento, respeito, segurança e formação humana. Jamais um território de intimidação, ameaças e medo. Também é preciso tocar numa ferida que muita gente prefere ignorar.

 


Há famílias que parecem ter terceirizado integralmente a educação dos filhos para as escolas, mas não aceitam que os professores exerçam a autoridade pedagógica necessária para cumprir essa missão. Querem que a escola ensine, mas não admitem que ela cobre. Exigem disciplina, desde que seus filhos não sejam disciplinados. Reclamam da falta de autoridade dos professores, mas são os primeiros a questioná-los quando recebem uma advertência. É uma lógica tão absurda quanto destrutiva.

 

Evidentemente, não se pode generalizar. Existem pais responsáveis, alunos exemplares e diretores comprometidos com seus profissionais. Mas isso não diminui a gravidade das situações denunciadas. Professor não é empregado particular de aluno, não é saco de pancadas de adolescente mal-educado e muito menos alguém obrigado a suportar humilhações para preservar a aparência de tranquilidade de uma instituição escolar. Respeitar o professor não é favor. É condição indispensável para que exista educação de verdade.

 

Diante desses depoimentos, cabe uma cobrança direta às secretarias de Educação do Espírito Santo e de Minas Gerais, às redes municipais de ensino e aos demais órgãos competentes. É necessário investigar as denúncias, identificar possíveis falhas na proteção dos profissionais, verificar os procedimentos adotados pelas direções escolares diante das ocorrências e garantir canais seguros para que os educadores possam denunciar abusos sem medo de represálias.

 

Não basta produzir campanhas bonitas no Dia dos Professores, publicar homenagens nas redes sociais e repetir discursos sobre a importância da educação. Professor não precisa apenas de flores, aplausos e mensagens de agradecimento uma vez por ano. Precisa de respeito, segurança, condições dignas de trabalho e, sobretudo, da certeza de que não será abandonado quando sua integridade física ou psicológica estiver ameaçada.

 

Se um profissional denuncia uma agressão e a instituição simplesmente se omite, a mensagem transmitida aos demais é devastadora: quem agride pode continuar, enquanto quem ensina precisa aprender a suportar. E isso é inaceitável. Os relatos recebidos representam um alerta que não pode ser ignorado. Por trás de cada mensagem existe um profissional que pode estar carregando, silenciosamente, o peso da insegurança, da humilhação e do desamparo.

 

A identidade desses educadores será preservada. Mas suas denúncias não podem ser enterradas pelo silêncio. É preciso que as autoridades investiguem os fatos, ouçam os profissionais e adotem providências concretas, porque uma sociedade que permite que seus professores sejam agredidos já demonstra um preocupante desprezo pelo próprio futuro. E uma instituição escolar que eventualmente abandona um professor agredido não está apenas falhando com aquele profissional. Está comprometendo a confiança de toda a comunidade escolar.

 

A escola que deveria ensinar o significado da palavra respeito não pode se transformar justamente no lugar onde o professor descobre que está sozinho. E fica uma última reflexão: Se estamos formando uma geração na qual alguns jovens acreditam que podem agredir quem tenta educá-los, enquanto adultos responsáveis se omitem diante dessas agressões, talvez o problema mais assustador não seja apenas a violência que já entrou nas escolas. É o tipo de sociedade que estamos permitindo que saia delas.

 

Professor não é inimigo, professor não é alvo, professor não é saco de pancadas. E educação sem respeito não é educação. É o ensaio de uma barbárie.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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