Por *Elvécio Andrade
A notícia sobre a agressão sofrida por uma professora de 49 anos, atacada por cinco alunos do Ensino Médio no interior deSão Paulo, abriu as portas para uma realidade ainda mais assustadora. Depois da
divulgação do episódio, comecei a receber mensagens de professores relatando
situações que deveriam provocar uma verdadeira comoção nacional.
Não foram uma, duas ou três mensagens. Foram
vários depoimentos, encaminhados por meio de mensagens de visualização única,
aparentemente numa tentativa de preservar a identidade de quem já não se sente
seguro nem mesmo para denunciar aquilo que enfrenta no exercício da profissão. E
o conteúdo desses relatos é de causar indignação!
Professores denunciam que a violência nas
escolas não parte exclusivamente dos alunos. Segundo eles, existem também pais
e responsáveis que, além de não estabelecerem limites para os próprios filhos
dentro de casa, não admitem que esses mesmos filhos sejam repreendidos quando cometem
erros no ambiente escolar. É a completa inversão dos valores!
O professor, que deveria ser respeitado como
uma das figuras mais importantes na formação de qualquer cidadão, passou a ser
tratado, conforme os relatos recebidos, como alguém que precisa pedir licença
para ensinar, autorização para corrigir e, praticamente, desculpas por tentar
educar. Mas existe algo ainda mais grave: o abandono dos professores por quem
deveria protege-los. A parte mais revoltante dos depoimentos não está apenas
nas agressões e intimidações denunciadas. Está na postura atribuída às próprias
direções escolares.
Segundo os educadores que entraram em contato,
quando acontecem episódios de violência, os professores frequentemente acabam
sozinhos, sem respaldo, sem proteção e sem providências efetivas por parte de
quem administra as unidades de ensino. Mais grave ainda: os relatos apontam
que, em muitos desses episódios, diretores escolares preferem ficar do lado dos
alunos envolvidos nas ocorrências, deixando os profissionais agredidos numa
situação de completo desamparo.
Se essas denúncias forem confirmadas, estaremos
diante de algo que ultrapassa a omissão administrativa. Estaremos diante de uma
gravíssima deterioração das relações institucionais dentro das escolas. Afinal,
que autoridade moral pode ter uma direção escolar que exige disciplina dos
professores, mas, diante de uma denúncia de agressão, não lhes oferece sequer o
respaldo necessário? Que espécie de ambiente educacional estamos construindo
quando o profissional responsável por ensinar precisa ter medo do aluno, dos
pais do aluno e até da reação de seus superiores? É uma aberração!
Os relatos recebidos não estão concentrados
numa única escola ou cidade. No Espírito Santo, chegaram mensagens de
professores de Barra de São Francisco, Colatina, Águia Branca, Ecoporanga, Nova
Venécia e São Mateus. Em Minas Gerais, os depoimentos partiram de educadores de
Mantena, Açucena, Coronel Fabriciano, Tarumirim, Engenheiro Caldas e Manhuaçu. São
12 municípios de dois estados diferentes. E, embora os relatos ainda precisem
ser individualmente apurados, a repetição das queixas exige atenção imediata
das autoridades educacionais.
Não é admissível que profissionais da educação
tenham receio de revelar publicamente aquilo que enfrentam dentro das
instituições em que trabalham. A escola deveria ser um ambiente de
conhecimento, respeito, segurança e formação humana. Jamais um território de
intimidação, ameaças e medo. Também é preciso tocar numa ferida que muita gente
prefere ignorar.
Há famílias que parecem ter terceirizado integralmente
a educação dos filhos para as escolas, mas não aceitam que os professores
exerçam a autoridade pedagógica necessária para cumprir essa missão. Querem que
a escola ensine, mas não admitem que ela cobre. Exigem disciplina, desde que
seus filhos não sejam disciplinados. Reclamam da falta de autoridade dos
professores, mas são os primeiros a questioná-los quando recebem uma
advertência. É uma lógica tão absurda quanto destrutiva.
Evidentemente, não se pode generalizar. Existem
pais responsáveis, alunos exemplares e diretores comprometidos com seus
profissionais. Mas isso não diminui a gravidade das situações denunciadas. Professor
não é empregado particular de aluno, não é saco de pancadas de adolescente
mal-educado e muito menos alguém obrigado a suportar humilhações para preservar
a aparência de tranquilidade de uma instituição escolar. Respeitar o professor
não é favor. É condição indispensável para que exista educação de verdade.
Diante desses depoimentos, cabe uma cobrança
direta às secretarias de Educação do Espírito Santo e de Minas Gerais, às redes
municipais de ensino e aos demais órgãos competentes. É necessário investigar
as denúncias, identificar possíveis falhas na proteção dos profissionais,
verificar os procedimentos adotados pelas direções escolares diante das
ocorrências e garantir canais seguros para que os educadores possam denunciar
abusos sem medo de represálias.
Não basta produzir campanhas bonitas no Dia dos
Professores, publicar homenagens nas redes sociais e repetir discursos sobre a
importância da educação. Professor não precisa apenas de flores, aplausos e
mensagens de agradecimento uma vez por ano. Precisa de respeito, segurança,
condições dignas de trabalho e, sobretudo, da certeza de que não será
abandonado quando sua integridade física ou psicológica estiver ameaçada.
Se um profissional denuncia uma agressão e a
instituição simplesmente se omite, a mensagem transmitida aos demais é
devastadora: quem agride pode continuar, enquanto quem ensina precisa aprender
a suportar. E isso é inaceitável. Os relatos recebidos representam um alerta
que não pode ser ignorado. Por trás de cada mensagem existe um profissional que
pode estar carregando, silenciosamente, o peso da insegurança, da humilhação e
do desamparo.
A identidade desses educadores será preservada.
Mas suas denúncias não podem ser enterradas pelo silêncio. É preciso que as
autoridades investiguem os fatos, ouçam os profissionais e adotem providências
concretas, porque uma sociedade que permite que seus professores sejam
agredidos já demonstra um preocupante desprezo pelo próprio futuro. E uma
instituição escolar que eventualmente abandona um professor agredido não está
apenas falhando com aquele profissional. Está comprometendo a confiança de toda
a comunidade escolar.
A escola que deveria ensinar o significado da
palavra respeito não pode se transformar justamente no lugar onde o professor
descobre que está sozinho. E fica uma última reflexão: Se estamos formando uma
geração na qual alguns jovens acreditam que podem agredir quem tenta educá-los,
enquanto adultos responsáveis se omitem diante dessas agressões, talvez o
problema mais assustador não seja apenas a violência que já entrou nas escolas.
É o tipo de sociedade que estamos permitindo que saia delas.
Professor não é inimigo, professor não é
alvo, professor não é saco de pancadas. E educação sem respeito não é educação.
É o ensaio de uma barbárie.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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