Por *Elvécio Andrade
Há algo de tragicômico acontecendo no
PL capixaba. O partido, que deveria estar preocupado em conquistar prefeitos,
vereadores, votos e espaço político, parece ter encontrado uma missão muito
mais importante: descobrir quem ousa não prestar continência ao seu comandante.
E o comandante, pelo jeito, é o bufão Magno Malta, ou Maligno Malta, como é popularmente conhecido nos bastidores da política.
O senador, que aparentemente se
considera uma espécie de Imperador da Direita Capixaba, decidiu mostrar que, no
seu reino político, fidelidade não é apenas uma questão de princípios
partidários. É também, ou principalmente, uma questão de comparecer às agendas
certas, apoiar os candidatos certos e, sobretudo, não contrariar o dono da
bússola eleitoral, que está numa verdadeira cruzada para eleger a filha inexpressiva politicamente, que nunca fez nada em prol do Estado ou de quem quer que seja.
O prefeito de Santa Maria de Jetibá, Ronan
Zocoloto Souza Dutra, o popular Ronan
Fisioterapeuta, e o vice, Rafael Pimentel, que foram eleitos pelo PL,
acabam de descobrir isso da maneira mais amarga: foram expulsos da legenda. O
Diretório Estadual, presidido por Malta, ratificou a decisão depois de um PDI
(Processo Disciplinar Interno) e comunicou a medida à Justiça Eleitoral. A acusação
oficial fala em “grave indisciplina partidária”, descumprimento reiterado de
orientações e condutas incompatíveis com os princípios do partido.
Bonito no papel. Mas existe uma
pergunta incômoda que insiste em aparecer: será que o grande pecado foi realmente
a indisciplina partidária ou a imperdoável ousadia de não comparecer a uma
agenda do imperador bufão Magno Malta? Porque foi justamente uma ausência que
colocou gasolina na fogueira. Ronan e Rafael não apareceram em uma agenda de
Malta em Santa Maria de Jetibá, realizada ao lado de Maguinha Malta,
pré-candidata ao Senado, que ele tenta empurrar garganta abaixo dos aliados. Para o senador, a ausência representou desrespeito à
"principal liderança do partido" no Espírito Santo.
Ora, ora... que petulância. Parece
que o protocolo mudou. Antigamente, prefeito precisava respeitar o eleitor,
cumprir suas obrigações administrativas e prestar contas à população. Agora,
aparentemente, existe uma nova solenidade republicana: o prefeito precisa estar
presente quando o grande líder chega. Faltou à agenda? Sacrilégio! Discordou da
orientação? Heresia! Conversou com adversários? Excomunhão política!
Bem-vindos ao PL de Magno Malta, onde
a liberdade de escolha parece ter prazo de validade. E o espetáculo fica ainda
mais curioso quando lembramos dos números. O PL lançou candidatos a prefeito em
nada menos que 50 municípios capixabas nas eleições de 2024. E elegeu apenas
cinco. Cinco. Não cinquenta. Cinco. E agora, em vez de tratar esses cinco
prefeitos como patrimônio político da legenda e tentar ampliar sua influência,
o partido começa a perder justamente alguns deles.
Santa Maria de Jetibá foi uma das
cinco cidades conquistadas pelo PL. Agora, seu prefeito e seu vice estão fora
da legenda. É quase como comprar cinco ingressos para um espetáculo e, depois
de descobrir que conseguiu entrar na sala, começar a expulsar os espectadores. E
a coisa não para por aí. Em Muqui, o prefeito Sérgio Luiz Anequim, o Camarão, também decidiu seguir caminho
diferente daquele desejado pelo imperador estadual.
Ele declarou apoio à pré-candidatura
de Ricardo Ferraço ao governo do Estado, contrariando a estratégia defendida
por Malta, que apoia o ex –prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini. Pronto. Mais
um pedaço do castelo começou a balançar. E aí vem a imagem inevitável: os ratos
abandonando o navio. Só existe uma diferença. Nos filmes, os ratos percebem que
o navio está afundando e fogem. Na política, os políticos percebem antes.
Talvez seja por isso que o PL
capixaba esteja testemunhando uma debandada que lembra aquelas cenas de desenho
animado em que alguém grita “CORRE!” e, em segundos, o terreiro fica vazio. Galinha
para um lado. Pinto para outro. Raposa no meio. E o dono do galinheiro
perguntando onde foi parar todo mundo. Mas existe uma diferença fundamental
entre um partido político e um exército: em uma democracia, prefeito não é
soldado de ninguém.
Ele tem partido, sim. Tem
compromissos partidários, naturalmente. Mas também tem eleitores, tem
Município, tem interesses locais, tem responsabilidade administrativa e tem,
sobretudo, o direito de fazer escolhas políticas dentro dos limites da
democracia e da legislação. Magno Malta pode ser uma liderança importante do
PL. Pode ser presidente estadual da legenda. Pode defender quem quiser para
governador. Pode apoiar quem quiser para o Senado. O que ele não deveria fazer,
e aqui está a crítica política, é agir como se o partido fosse uma extensão de
sua própria vontade.
Porque liderança não se mede pelo
número de pessoas que obedecem. Mede-se pelo número de pessoas que permanecem
ao seu lado mesmo quando podem escolher outro caminho. E quando prefeitos
eleitos pela própria legenda começam a olhar para fora, talvez seja hora de
parar de procurar culpados e começar a procurar respostas. Talvez o problema
não esteja apenas nos prefeitos. Talvez esteja no comando. Talvez esteja na
estratégia. Talvez esteja na incapacidade de compreender que política é
negociação, diálogo, composição e, principalmente, voto.
Porque o eleitor não recebe ordem de
senador. O eleitor não bate continência para presidente de partido. O eleitor
simplesmente vota. E é exatamente aí que mora o perigo para quem confunde
liderança com autoridade absoluta. O PL capixaba precisa decidir se quer ser um
partido ou um culto à personalidade política. Porque, se continuar expulsando
quem pensa diferente, apoiando apenas quem segue a cartilha e transformando
ausência em afronta pessoal, pode chegar um momento em que Magno Malta
finalmente terá conseguido aquilo que nenhum adversário conseguiu fazer:
Deixar o partido completamente unido.
Unido em torno de uma única pessoa. Porque os outros terão ido embora. E talvez
seja essa a parte mais irônica de toda essa história. Enquanto o comandante
tenta organizar o exército, os soldados estão descobrindo que existe vida fora
do quartel. Enquanto Malta aponta o caminho, alguns prefeitos parecem ter
decidido consultar o próprio mapa. Enquanto o PL fala em fidelidade, a
realidade política responde com uma palavra muito mais poderosa: independência.
E se a debandada continuar nesse
ritmo, o famoso “último que sair apague as luzes” poderá deixar de ser apenas
uma piada de internauta e virar recomendação administrativa. Porque, a essa
altura, talvez o problema do PL capixaba não seja descobrir quem está traindo o
partido. Talvez seja descobrir quem ainda pretende ficar.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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