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05/08/2026

PL capixaba: o partido onde até faltar a uma reunião pode virar crime de lesa-Malta

Maligno Malta, o Imperador Bufão

Por *Elvécio Andrade

 

Há algo de tragicômico acontecendo no PL capixaba. O partido, que deveria estar preocupado em conquistar prefeitos, vereadores, votos e espaço político, parece ter encontrado uma missão muito mais importante: descobrir quem ousa não prestar continência ao seu comandante. E o comandante, pelo jeito, é o bufão Magno Malta, ou Maligno Malta, como é popularmente conhecido nos bastidores da política.

 

O senador, que aparentemente se considera uma espécie de Imperador da Direita Capixaba, decidiu mostrar que, no seu reino político, fidelidade não é apenas uma questão de princípios partidários. É também, ou principalmente, uma questão de comparecer às agendas certas, apoiar os candidatos certos e, sobretudo, não contrariar o dono da bússola eleitoral, que está numa verdadeira cruzada para eleger a filha inexpressiva politicamente, que nunca fez nada em prol do Estado ou de quem quer que seja.

 

O prefeito de Santa Maria de Jetibá, Ronan Zocoloto Souza Dutra, o popular Ronan Fisioterapeuta, e o vice, Rafael Pimentel, que foram eleitos pelo PL, acabam de descobrir isso da maneira mais amarga: foram expulsos da legenda. O Diretório Estadual, presidido por Malta, ratificou a decisão depois de um PDI (Processo Disciplinar Interno) e comunicou a medida à Justiça Eleitoral. A acusação oficial fala em “grave indisciplina partidária”, descumprimento reiterado de orientações e condutas incompatíveis com os princípios do partido.

 

Bonito no papel. Mas existe uma pergunta incômoda que insiste em aparecer: será que o grande pecado foi realmente a indisciplina partidária ou a imperdoável ousadia de não comparecer a uma agenda do imperador bufão Magno Malta? Porque foi justamente uma ausência que colocou gasolina na fogueira. Ronan e Rafael não apareceram em uma agenda de Malta em Santa Maria de Jetibá, realizada ao lado de Maguinha Malta, pré-candidata ao Senado, que ele tenta empurrar garganta abaixo dos aliados. Para o senador, a ausência representou desrespeito à "principal liderança do partido" no Espírito Santo.

 

Ora, ora... que petulância. Parece que o protocolo mudou. Antigamente, prefeito precisava respeitar o eleitor, cumprir suas obrigações administrativas e prestar contas à população. Agora, aparentemente, existe uma nova solenidade republicana: o prefeito precisa estar presente quando o grande líder chega. Faltou à agenda? Sacrilégio! Discordou da orientação? Heresia! Conversou com adversários? Excomunhão política!

 

Bem-vindos ao PL de Magno Malta, onde a liberdade de escolha parece ter prazo de validade. E o espetáculo fica ainda mais curioso quando lembramos dos números. O PL lançou candidatos a prefeito em nada menos que 50 municípios capixabas nas eleições de 2024. E elegeu apenas cinco. Cinco. Não cinquenta. Cinco. E agora, em vez de tratar esses cinco prefeitos como patrimônio político da legenda e tentar ampliar sua influência, o partido começa a perder justamente alguns deles.

 

Santa Maria de Jetibá foi uma das cinco cidades conquistadas pelo PL. Agora, seu prefeito e seu vice estão fora da legenda. É quase como comprar cinco ingressos para um espetáculo e, depois de descobrir que conseguiu entrar na sala, começar a expulsar os espectadores. E a coisa não para por aí. Em Muqui, o prefeito Sérgio Luiz Anequim, o Camarão, também decidiu seguir caminho diferente daquele desejado pelo imperador estadual.

 


Ele declarou apoio à pré-candidatura de Ricardo Ferraço ao governo do Estado, contrariando a estratégia defendida por Malta, que apoia o ex –prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini. Pronto. Mais um pedaço do castelo começou a balançar. E aí vem a imagem inevitável: os ratos abandonando o navio. Só existe uma diferença. Nos filmes, os ratos percebem que o navio está afundando e fogem. Na política, os políticos percebem antes.

 

Talvez seja por isso que o PL capixaba esteja testemunhando uma debandada que lembra aquelas cenas de desenho animado em que alguém grita “CORRE!” e, em segundos, o terreiro fica vazio. Galinha para um lado. Pinto para outro. Raposa no meio. E o dono do galinheiro perguntando onde foi parar todo mundo. Mas existe uma diferença fundamental entre um partido político e um exército: em uma democracia, prefeito não é soldado de ninguém.

 

Ele tem partido, sim. Tem compromissos partidários, naturalmente. Mas também tem eleitores, tem Município, tem interesses locais, tem responsabilidade administrativa e tem, sobretudo, o direito de fazer escolhas políticas dentro dos limites da democracia e da legislação. Magno Malta pode ser uma liderança importante do PL. Pode ser presidente estadual da legenda. Pode defender quem quiser para governador. Pode apoiar quem quiser para o Senado. O que ele não deveria fazer, e aqui está a crítica política, é agir como se o partido fosse uma extensão de sua própria vontade.

 

Porque liderança não se mede pelo número de pessoas que obedecem. Mede-se pelo número de pessoas que permanecem ao seu lado mesmo quando podem escolher outro caminho. E quando prefeitos eleitos pela própria legenda começam a olhar para fora, talvez seja hora de parar de procurar culpados e começar a procurar respostas. Talvez o problema não esteja apenas nos prefeitos. Talvez esteja no comando. Talvez esteja na estratégia. Talvez esteja na incapacidade de compreender que política é negociação, diálogo, composição e, principalmente, voto.

 

Porque o eleitor não recebe ordem de senador. O eleitor não bate continência para presidente de partido. O eleitor simplesmente vota. E é exatamente aí que mora o perigo para quem confunde liderança com autoridade absoluta. O PL capixaba precisa decidir se quer ser um partido ou um culto à personalidade política. Porque, se continuar expulsando quem pensa diferente, apoiando apenas quem segue a cartilha e transformando ausência em afronta pessoal, pode chegar um momento em que Magno Malta finalmente terá conseguido aquilo que nenhum adversário conseguiu fazer:

 

Deixar o partido completamente unido. Unido em torno de uma única pessoa. Porque os outros terão ido embora. E talvez seja essa a parte mais irônica de toda essa história. Enquanto o comandante tenta organizar o exército, os soldados estão descobrindo que existe vida fora do quartel. Enquanto Malta aponta o caminho, alguns prefeitos parecem ter decidido consultar o próprio mapa. Enquanto o PL fala em fidelidade, a realidade política responde com uma palavra muito mais poderosa: independência.

 

E se a debandada continuar nesse ritmo, o famoso “último que sair apague as luzes” poderá deixar de ser apenas uma piada de internauta e virar recomendação administrativa. Porque, a essa altura, talvez o problema do PL capixaba não seja descobrir quem está traindo o partido. Talvez seja descobrir quem ainda pretende ficar.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.


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