Por *Elvécio Andrade
Será que desta vez a Justiça
terá coragem de ir até o fim ou o Brasil assistirá a mais uma pizza ou a mais
um capítulo da velha novela da impunidade dos poderosos? A pergunta não é
gratuita. Ela nasce da revolta de quem viu episódios anteriores envolvendo o
senador Magno Malta (PL), mais conhecido como Maligno Malta, terminarem envoltos em controvérsias e
questionamentos.
Muitos ainda se lembram docaso da profissional de saúde do Distrito Federal, que o acusou de agressão e apresentou elementos que seus apoiadores consideravam relevantes para a investigação, incluindo laudo do IML. O arquivamento do caso deixou para trás
uma trilha de dúvidas e uma sensação amarga de que nem todos os brasileiros são
tratados da mesma forma perante a lei. Agora, porém, os ventos parecem soprar
em outra direção.
A Justiça do Espírito Santo
decidiu tornar réus Magno Malta e o delegado aposentado Márcio Lucas Malheiros
de Oliveira em uma queixa-crime relacionada a publicações nas redes sociais.
Pela primeira vez em muito tempo, surge a expectativa de que os fatos sejam
examinados sem blindagens, sem privilégios e sem a reverência quase sagrada que
certos políticos parecem despertar em seus seguidores.
Mas existe uma razão ainda
maior para que esse processo seja acompanhado de perto. O nome de Luiz Alves
Lima deveria servir como alerta permanente contra os perigos dos julgamentos
precipitados e da irresponsabilidade de acusações lançadas ao vento. Em 2009,
ele foi lançado ao abismo. Acusado falsamente por Maligno Malta de um crime monstruoso, foi entregue à fúria de um
sistema prisional que não perdoa quem recebe esse tipo de rótulo.
O resultado foi devastador. Luiz
foi espancado, torturado, submetido a violências indescritíveis e carregará
para sempre as marcas físicas e emocionais daquele pesadelo. Sua visão foi
comprometida, sua dignidade foi esmagada e sua vida foi reduzida a escombros.
Tudo isso antes que a verdade viesse à tona. E a verdade veio.
Exames posteriores afastaram a
acusação que havia servido de base para a destruição de sua existência. Sua
inocência foi reconhecida. Mas o reconhecimento da inocência não reconstrói um
olho perdido. Não apaga cicatrizes. Não devolve noites de sono. Não recupera
anos roubados.
É exatamente por isso que este
processo possui um significado que ultrapassa as partes envolvidas. O que está
sendo testado não é apenas a responsabilidade de dois réus. O que está sendo
testada é a própria credibilidade da Justiça. A sociedade quer saber se haverá
o mesmo rigor reservado ao cidadão comum ou se o peso de um mandato continuará
funcionando como uma armadura contra qualquer consequência.
Nenhum cargo político pode ser
transformado em salvo-conduto moral. Nenhuma influência pode servir de escudo
contra a responsabilização. Nenhum nome, por mais famoso que seja, deveria estar
acima da lei. A população brasileira está cansada de assistir a escândalos que
terminam em absolvições convenientes, arquivamentos polêmicos e esquecimentos
oportunos. Está cansada de ver o sofrimento das vítimas desaparecer dos
holofotes enquanto os poderosos seguem suas vidas como se nada tivesse
acontecido.
Agora, a Justiça tem diante de
si uma oportunidade rara: demonstrar que a verdade vale mais do que a
influência, que as provas valem mais do que a fama e que a lei vale mais do que
o poder. O Brasil não precisa de heróis políticos. Precisa de instituições que
funcionem. E a sociedade espera que, desta vez, a verdade não seja enterrada
antes da sentença, e que o senador pague por tudo que fez e que causou na vida
de um trabalhador inocente. Condenação já!
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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