Por *Elvécio Andrade
O caso envolvendo o senador Magno Malta, ou Maligno Malta, como queiram, vai muito além de uma simples denúncia de agressão dentro de um hospital. O episódio escancara algo ainda mais perverso: o medo, o silêncio e a
sensação de impotência que surgem quando uma pessoa comum acusa alguém cercado
pelo poder político, influência e exposição pública.
A técnica de enfermagem, que
preferiu esconder sua identidade por receio de represálias, fez um relato
devastador. Não apenas pela suposta violência física sofrida, mas
principalmente pelo peso emocional que veio depois. “Me sinto um lixo, sem
importância alguma”, declarou. Uma frase curta, mas que resume perfeitamente o
sentimento de quem percebe que, diante de certos personagens da política
brasileira, a própria dignidade parece valer menos que um mandato parlamentar.
O mais simbólico nisso tudo é
que ela sequer sabia quem era o senador antes do atendimento. Não havia
motivação política, disputa ideológica ou qualquer tipo de provocação. Havia
apenas uma profissional da saúde realizando seu trabalho dentro do Hospital DF
Star, seguindo protocolos médicos durante um exame delicado.
Segundo o relato, ao
identificar um problema no acesso venoso e orientar o paciente sobre o
procedimento necessário, recebeu em troca aquilo que muitos trabalhadores
brasileiros conhecem bem: arrogância, humilhação e abuso vindo de quem acredita
estar acima dos demais. O tapa no rosto foi acompanhado de insultos como
“imunda” e “incompetente”. Uma cena que, se confirmada, revela não apenas
agressividade, mas um sentimento de superioridade assustador.
E é justamente aqui que o caso
começa a ganhar contornos ainda mais inquietantes. A vítima afirma que havia testemunha.
Um colega que confirmou inicialmente ter visto a agressão, mas que,
“estranhamente”, mudou sua versão na delegacia. Coincidência? Medo? Pressão?
Conveniência? Ninguém sabe. Mas o Brasil conhece muito bem esse roteiro. Quando
figuras poderosas entram em cena, versões começam a mudar, memórias ficam
nebulosas e a verdade passa a caminhar algemada.
A própria existência de um
“protocolo diferenciado para pacientes importantes” dentro de hospital já
levanta uma questão desconfortável: desde quando a saúde passou a medir
cidadãos pelo tamanho do cargo ou da influência política? Porque, ao que tudo
indica, em certos ambientes, existem pacientes comuns… e existem os intocáveis.
O mais revoltante talvez seja
perceber que a profissional afirma possuir provas do ocorrido, mas nada veio à
tona publicamente até agora. Enquanto isso, a vítima relata abalo emocional
profundo, medo e sensação de abandono. Já o homem poderoso segue protegido pela
liturgia do cargo, pela velha imprensa corrupta, pelos aliados e pela velha
estrutura que frequentemente transforma denúncias graves em simples tempestades
passageiras de noticiário.
No Brasil da desigualdade
moral, a palavra de uma técnica de enfermagem vale muito pouco quando confronta
os interesses de um senador influente. E talvez seja exatamente isso que torne
esse episódio tão simbólico: não é apenas sobre uma agressão. É sobre a
suspeita permanente de que o poder político continua funcionando como escudo
para certos comportamentos que jamais seriam tolerados vindo de um cidadão comum.
Porque quando a vítima tem
medo de falar… e a testemunha muda de versão… o silêncio deixa de parecer
acaso. Passa a soar como sistema. Por que não exibiram as imagens? Qual a
participação da diretoria do hospital no desaparecimento das imagens que
poderiam desvendar tudo? Qual será o posicionamento do Ministério Público? Está
tudo muito estranho. Cheirando mal.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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