Por *Elvécio Andrade
O Brasil construiu, diante dos
olhos da população, um dos sistemas mais perversos e hipócritas do planeta: uma
justiça de castas, que pesa toneladas sobre os ombros dos pobres, mas se
transforma em pluma quando alcança os ricos, os poderosos e os donos do poder
político.
De um lado, existem mais de
900 mil brasileiros jogados em presídios superlotados, verdadeiros depósitos
humanos onde falta tudo: espaço, higiene, assistência médica, dignidade e
esperança. Entre essas pessoas esquecidas pelo Estado, estão cerca de 12 mil
idosos, homens e mulheres acima de 60 anos, muitos abandonados em celas
insalubres, convivendo com doenças, calor infernal, violência e abandono
absoluto.
Para essa parcela da
população, a lei aparece com toda sua crueldade. Não há mansão, não há
ar-condicionado, não há jantar em família, não há conforto. Há só grades,
sofrimento e esquecimento. Mas existe um segundo sistema carcerário. Um sistema
VIP. Um sistema feito sob medida para ricos, políticos influentes, corruptos de
colarinho branco e golpistas com sobrenome famoso. Nesse Brasil paralelo, a
prisão vira condomínio de luxo. A pena se transforma em descanso remunerado.
A tornozeleira eletrônica vira
quase um acessório simbólico, enquanto o condenado desfruta de mansões,
empregados, boa comida, visitas constantes e o aconchego familiar. São mais de
235 mil pessoas em prisão domiciliar no país. Entre elas, nomes conhecidos da
política brasileira, como o ladrão de joias, genocida e golpista Jair Messias
Bolsonaro e o corrupto Fernando Collor de Mello, símbolos de uma elite política
que parece viver acima da lei. Enquanto o pobre é esmagado pelo sistema, o
poderoso negocia privilégios.
E o escárnio não termina aí.
No Brasil, existe ainda uma casta intocável: a dos parlamentares protegidos
pelo próprio sistema político. Quando um deputado ou senador é alvo de ordem de
prisão, quem muitas vezes decide se ele ficará preso ou não é justamente a
corporação política da qual faz parte. É o absurdo institucionalizado. É como
entregar a chave do cofre ao ladrão e esperar honestidade. A Constituição
Federal afirma que todos são iguais perante a lei, mas a realidade brasileira
rasga esse princípio diariamente diante da população.
O povo assiste a tudo pagando
impostos, enfrentando filas em hospitais, sobrevivendo com salários miseráveis
e vendo o país afundar em desigualdade. Enquanto isso, uma elite política e
econômica desfruta de privilégios inimagináveis para a maioria dos brasileiros.
Até quando? Até quando a
prisão continuará sendo cruel apenas para quem nasce pobre? Até quando a lei
servirá como espada contra o miserável e como escudo para os poderosos? Até
quando o país aceitará que corruptos e políticos influentes transformem punição
em conforto?
O mais revoltante não é apenas
a existência dessa desigualdade brutal. O mais revoltante é a naturalização
dela. O Brasil se acostumou a ver pobres apodrecendo nas cadeias enquanto
engravatados condenados vivem cercados de luxo. Transformaram a injustiça em
rotina. Transformaram o privilégio em regra. E uma democracia que aceita isso
em silêncio corre o risco de deixar de ser democracia para se tornar apenas um
grande teatro de impunidade seletiva.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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