Por *Elvécio Andrade
Enquanto a população de Rio
Bananal, no Norte do Espírito Santo, enfrenta dificuldades cada vez maiores
para conseguir atendimento médico, medicamentos, transporte público de qualidade
e segurança, a Prefeitura parece viver em uma realidade paralela. A gestão do
prefeito Bruno Pella (Podemos), anuncia com pompa e circunstância uma grande
festa para comemorar os 47 anos de emancipação político-administrativa do Município, nos dias 11, 12 e 13 de setembro, gastando valores que beiram o
absurdo diante do cenário de abandono enfrentado pelos moradores.
A pergunta que ecoa nas ruas é
simples: qual é a prioridade da administração municipal? No Distrito de São
Jorge Tiradentes, a situação é alarmante. Pichações atribuídas ao Comando
Vermelho espalham-se pelos postes, transmitindo uma sensação de insegurança e
abandono. Como se não bastasse, a comunidade ficou sem ambulância após a posse
da atual administração. O único veículo que atendia os moradores foi retirado e
nunca mais substituído. Em uma emergência médica, resta ao cidadão rezar para
que o socorro chegue a tempo.
Na saúde, o quadro é ainda
mais revoltante. No Povoado de Santa Rita faltam médicos para atendimento
básico. Moradores relatam dificuldades para conseguir consultas, medicamentos
desapareceram das prateleiras dos postos de saúde e faltam até materiais de
limpeza. Para completar o cenário de caos, ninguém sabe ao certo quem responde
pela Secretaria Municipal de Saúde, evidenciando uma gestão marcada pela falta
de transparência e pela ausência de respostas à população.
A frota municipal também se
tornou motivo de preocupação. Segundo denúncias, veículos da Saúde e de outras
secretarias estão circulando ou permanecendo parados com documentação atrasada,
situação que expõe o Município a riscos administrativos, jurídicos e
financeiros. Enquanto isso, a renovação do contrato com uma empresa tradicional
fornecedora de peças não ocorreu, sendo substituída por um sistema de cartão administrado
por uma empresa da Bahia, que, segundo denúncias, ficará com percentuais
superiores a 60% sobre peças e serviços adquiridos. O resultado pode ser um
aumento expressivo dos custos pagos pelo contribuinte.
Outra situação que desperta questionamentos é a ocupação de cargos estratégicos por pessoas de fora do Município. O secretário de Obras é de Governador Lindenberg, o secretário de Assistência Social tem domicílio eleitoral em Cariacica e o Procurador-Geral é de Linhares. A impressão que fica é a de que Rio Bananal, com tantos profissionais capacitados, foi transformada em uma espécie de agência de empregos para pessoas de outras cidades.
Mas nada simboliza melhor a
desconexão da administração com a realidade do povo do que os gastos previstos
para a festa de aniversário da cidade. Segundo levantamento divulgado pelo Colatina News, apenas os cachês dos
artistas consumirão R$ 960 mil dos cofres públicos. O cantor Vitor Fernandes
custará R$ 350 mil. A dupla Danilo & Davi receberá R$ 230 mil. Já a dupla
Clayton e Romário embolsará R$ 380 mil. E isso sem contar palco, iluminação,
painéis de LED, segurança, camarins, direitos autorais, estrutura logística e
demais despesas que serão bancadas pela Prefeitura.
Estamos falando de
praticamente um milhão de reais apenas em cachês. Dinheiro suficiente para
reforçar o atendimento médico, adquirir medicamentos, recuperar veículos da
frota municipal, melhorar a estrutura da saúde, ampliar serviços essenciais e
devolver dignidade a comunidades que hoje convivem com o abandono.
Ninguém é contra cultura,
lazer ou comemorações populares. O problema surge quando a festa se transforma
em prioridade absoluta enquanto os serviços básicos afundam em problemas. Não
se trata de impedir eventos, mas de exigir responsabilidade administrativa e
respeito ao dinheiro público. A impressão que fica é a de que a gestão
municipal escolheu investir em luzes de palco enquanto a população permanece no
escuro. Escolheu o espetáculo em vez da solução. Escolheu os holofotes em vez
das necessidades reais do povo.
E quando os shows terminarem,
os artistas forem embora e os fogos se apagarem, os moradores continuarão
convivendo com a mesma realidade: falta de médicos, falta de medicamentos,
falta de ambulância, problemas na frota, insegurança e uma administração que
parece mais preocupada em promover festas do que em resolver os dramas
cotidianos da população.
O povo de Rio Bananal merece muito mais do que três noites de música. Merece uma gestão que trate os recursos públicos com responsabilidade e coloque as necessidades da população acima dos interesses políticos e do marketing administrativo.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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