Por *Elvécio Andrade
O que deveria ser uma
celebração da união entre os povos está se transformando em um verdadeiro
desfile de arbitrariedades, constrangimentos e discriminações. A decisão da FIFA de manter o país antidemocrático Estados Unidos como sede da Copa do Mundo,
mesmo diante de sucessivos episódios de intolerância e abusos, expõe uma
realidade incômoda: os interesses políticos e financeiros parecem falar mais
alto do que os valores que a entidade tanto gosta de defender em seus discursos
oficiais.
É inadmissível que um evento
global, criado para aproximar nações, culturas e povos, seja realizado em um
país que tem protagonizado episódios que vão na direção oposta. A proibição da
entrada de um árbitro de futebol, as revistas consideradas excessivas e
humilhantes contra delegações inteiras e os relatos de discriminação contra
torcedores do Congo, impedidos de ingressar no país para acompanhar os jogos,
representam fatos graves que deveriam ter provocado uma reação firme da FIFA.
Mas o que se vê é exatamente o
contrário. A entidade permanece em silêncio, como se tais acontecimentos fossem
meros detalhes burocráticos. A mesma FIFA que costuma se apresentar como
defensora da inclusão, da diversidade e do combate ao racismo parece fechar os
olhos quando os problemas envolvem a segunda maior potência econômica do
planeta.
A impressão que fica é a de uma vergonhosa subserviência. Quando interesses financeiros entram em campo, os princípios parecem ser colocados no banco de reservas. Se situações semelhantes tivessem ocorrido em países considerados menos influentes no cenário internacional, dificilmente a reação da FIFA seria tão complacente.
Uma Copa do Mundo não pode ser refém de políticas migratórias arbitrárias, barreiras discriminatórias ou atitudes que dificultem a participação de povos e nações. O futebol nasceu para derrubar fronteiras simbólicas, não para reforçá-las. O torcedor não deveria ser tratado como suspeito por causa de sua nacionalidade, origem ou condição econômica.
A permanência dos Estados
Unidos como sede, diante de tantas polêmicas, levanta questionamentos legítimos
sobre a coerência da FIFA e sobre os critérios utilizados para escolher e
manter anfitriões de um dos maiores eventos esportivos do planeta. Afinal, como
falar em integração mundial quando parte dos convidados sequer consegue
atravessar a porta de entrada?
O futebol merece mais
respeito. Os torcedores merecem mais respeito. E a Copa do Mundo merece ser
realizada em um ambiente que represente os valores de igualdade, convivência e
fraternidade entre os povos. Enquanto a FIFA continuar ignorando denúncias,
passando pano para atitudes incompatíveis com esses princípios e baixando as
calças para um país que é governado por um ditador, sua credibilidade
continuará sendo colocada em xeque diante do mundo inteiro.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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