Por *Elvécio Andrade
Mais uma vez, diversas cidades
do Espírito Santo terão ruas e avenidas interditadas para a confecção dos
tradicionais tapetes de Corpus Christi. Enquanto alguns enxergam a prática como
uma manifestação religiosa e cultural, milhares de cidadãos enfrentam os
transtornos provocados pelo fechamento de vias públicas, congestionamentos,
desvios improvisados e atrasos que afetam a rotina de toda a população. A
pergunta que fica é simples: por que uma tradição específica de um grupo
religioso deve impactar diretamente o direito de ir e vir de toda a
coletividade?
Todos os anos, motoristas são
obrigados a percorrer caminhos mais longos, enfrentar engarrafamentos e lidar
com a falta de planejamento causada pelas interdições. Trabalhadores chegam
atrasados, comerciantes sofrem prejuízos e moradores enfrentam dificuldades para
acessar suas próprias residências. E tudo isso em nome de uma tradição que
poderia ser realizada em locais adequados, sem transformar ruas públicas em
verdadeiros canteiros temporários de decoração.
Mas o problema vai muito além
do desconforto. Existe uma questão muito mais grave: o risco à vida humana. Imagine
uma ambulância transportando uma vítima de infarto, um paciente em estado grave
ou uma gestante em trabalho de parto. Imagine viaturas policiais ou equipes do
Corpo de Bombeiros precisando ganhar segundos preciosos para salvar uma vida.
Em situações de emergência, cada minuto conta. Qualquer atraso provocado por
bloqueios viários pode significar a diferença entre a vida e a morte.
Além disso, após as
celebrações, muitas ruas ficam cobertas por resíduos dos materiais utilizados
na confecção dos tapetes, exigindo limpeza pública e gerando custos que acabam
sendo suportados por toda a sociedade.
Ninguém está questionando a
liberdade religiosa, um direito garantido pela Constituição. O que se questiona
é a razoabilidade de uma prática que utiliza espaços públicos de forma a
prejudicar milhares de pessoas que não participam da celebração. Em um Estado
laico, o interesse coletivo deveria prevalecer sobre qualquer tradição que
cause transtornos generalizados à população.
Chegou o momento de discutir
alternativas modernas e responsáveis. A fé merece respeito, mas o direito de
circulação, a segurança pública e, principalmente, a preservação da vida humana
também merecem. Tradições podem e devem ser preservadas, desde que não
transformem o cotidiano da população em um grande transtorno nem coloquem em
risco quem depende de um atendimento de emergência.
Quando uma manifestação
religiosa passa a afetar o funcionamento da cidade inteira, a discussão deixa
de ser apenas religiosa e passa a ser uma questão de interesse público. E
interesse público exige equilíbrio, responsabilidade e, acima de tudo, respeito
aos direitos de todos os cidadãos.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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