Corpus Christi: Até quando a população terá que pagar a conta dessa tradição religiosa? - Colatina News

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03/06/2026

Corpus Christi: Até quando a população terá que pagar a conta dessa tradição religiosa?

Interdição de ruas prejudica a população

Por *Elvécio Andrade

 

Mais uma vez, diversas cidades do Espírito Santo terão ruas e avenidas interditadas para a confecção dos tradicionais tapetes de Corpus Christi. Enquanto alguns enxergam a prática como uma manifestação religiosa e cultural, milhares de cidadãos enfrentam os transtornos provocados pelo fechamento de vias públicas, congestionamentos, desvios improvisados e atrasos que afetam a rotina de toda a população. A pergunta que fica é simples: por que uma tradição específica de um grupo religioso deve impactar diretamente o direito de ir e vir de toda a coletividade?

 

Todos os anos, motoristas são obrigados a percorrer caminhos mais longos, enfrentar engarrafamentos e lidar com a falta de planejamento causada pelas interdições. Trabalhadores chegam atrasados, comerciantes sofrem prejuízos e moradores enfrentam dificuldades para acessar suas próprias residências. E tudo isso em nome de uma tradição que poderia ser realizada em locais adequados, sem transformar ruas públicas em verdadeiros canteiros temporários de decoração.

 

Mas o problema vai muito além do desconforto. Existe uma questão muito mais grave: o risco à vida humana. Imagine uma ambulância transportando uma vítima de infarto, um paciente em estado grave ou uma gestante em trabalho de parto. Imagine viaturas policiais ou equipes do Corpo de Bombeiros precisando ganhar segundos preciosos para salvar uma vida. Em situações de emergência, cada minuto conta. Qualquer atraso provocado por bloqueios viários pode significar a diferença entre a vida e a morte.

 

Além disso, após as celebrações, muitas ruas ficam cobertas por resíduos dos materiais utilizados na confecção dos tapetes, exigindo limpeza pública e gerando custos que acabam sendo suportados por toda a sociedade.

 


Ninguém está questionando a liberdade religiosa, um direito garantido pela Constituição. O que se questiona é a razoabilidade de uma prática que utiliza espaços públicos de forma a prejudicar milhares de pessoas que não participam da celebração. Em um Estado laico, o interesse coletivo deveria prevalecer sobre qualquer tradição que cause transtornos generalizados à população.

 

Chegou o momento de discutir alternativas modernas e responsáveis. A fé merece respeito, mas o direito de circulação, a segurança pública e, principalmente, a preservação da vida humana também merecem. Tradições podem e devem ser preservadas, desde que não transformem o cotidiano da população em um grande transtorno nem coloquem em risco quem depende de um atendimento de emergência.

 

Quando uma manifestação religiosa passa a afetar o funcionamento da cidade inteira, a discussão deixa de ser apenas religiosa e passa a ser uma questão de interesse público. E interesse público exige equilíbrio, responsabilidade e, acima de tudo, respeito aos direitos de todos os cidadãos.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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