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12/06/2026

A Copa da contradição em que o futebol encontra as fronteiras da discriminação

Os EUA serão a pior sede da Copa do Mundo

Por *Elvécio Andrade

 

A Copa do Mundo de 2026 corre o sério risco de entrar para a história não pelos gols, pelas grandes partidas ou pelos craques em campo, mas pelas polêmicas que cercam um de seus principais anfitriões: os Estados Unidos da América, que está sendo considerada a pior sede de todos os tempos. O país que se apresenta ao mundo como símbolo da democracia e da liberdade vem sendo alvo de críticas crescentes por causa do tratamento dispensado a integrantes de delegações estrangeiras às vésperas do maior evento esportivo do planeta.

 

O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, impedido de entrar em território estadunidense mesmo possuindo visto válido e estando oficialmente credenciado pela FIFA, tornou-se mais um capítulo de uma sequência de episódios que levantam sérias dúvidas sobre a imparcialidade dos procedimentos migratórios adotados pelo governo estadunidense.

 

Antes dele, o atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a um interrogatório de aproximadamente sete horas após ser confundido com outra pessoa. Integrantes da delegação iraquiana também relataram dificuldades semelhantes, incluindo o impedimento da entrada de um fotógrafo oficial da seleção. Em outro episódio, jogadores do Senegal foram submetidos a revistas rigorosas ainda na pista do aeroporto. Já membros da delegação do Uzbequistão passaram por inspeções com cães farejadores e detectores de metal durante atividades ligadas à preparação para o Mundial.

 

Isoladamente, cada caso poderia ser tratado como um incidente burocrático. Juntos, porém, formam um quadro preocupante. Afinal, por que os relatos mais constrangedores parecem atingir justamente representantes de países africanos, árabes e asiáticos? Por que não surgem notícias semelhantes envolvendo delegações das grandes potências europeias ou das tradicionais seleções da América do Sul?

 

A percepção de tratamento desigual é extremamente danosa para um evento que deveria simbolizar união, respeito e igualdade entre os povos. O futebol existe justamente para derrubar fronteiras, não para reforçá-las.

 

A controvérsia torna-se ainda mais intensa quando observamos aquilo que muitos enxergam como uma evidente incoerência nos critérios políticos do futebol internacional. A Rússia foi excluída de competições após a invasão da Ucrânia, medida amplamente apoiada por diversos países ocidentais. Entretanto, críticos questionam por que outras nações envolvidas em conflitos armados e operações militares, como os próprios Estados Unidos e Israel, que juntos atacaram o Irã, não enfrentam sanções semelhantes no âmbito esportivo.

 


Essa disparidade alimenta acusações de seletividade política e de aplicação desigual dos princípios que deveriam reger o esporte mundial. Nesse contexto, cresce entre alguns setores da opinião pública internacional a defesa de protestos e até de boicotes simbólicos contra a realização de partidas em território estadunidense. Para esses críticos, a Copa de 2026 estaria sendo organizada em um ambiente marcado por tensões migratórias, discursos nacionalistas e políticas que, segundo seus opositores, contradizem os valores de inclusão que a FIFA afirma defender.

 

A figura do presidente Donald J. Trump também aparece no centro desse debate. Seus adversários o acusam de adotar uma postura agressiva na política internacional e de governar com forte concentração de poder, alimentando divisões internas e conflitos diplomáticos. Seus apoiadores, por outro lado, argumentam que suas políticas reforçam a segurança nacional e a soberania dos Estados Unidos. Seja qual for a visão adotada, é inegável que sua liderança desperta reações intensas em todo o mundo.

 

A verdade é que uma Copa do Mundo deveria ser lembrada pela confraternização entre os povos. Quando árbitros são barrados, atletas são tratados como suspeitos e delegações inteiras enfrentam constrangimentos por sua origem nacional, o espetáculo esportivo corre o risco de ser ofuscado por algo muito maior: o questionamento global sobre igualdade, respeito e dignidade humana.

 

Se esses episódios lamentáveis e com viés ditatorial continuarem se repetindo, com autoridades estadunidenses agindo pior que em países onde impera a ditadura, a Copa do Mundo de 2026 poderá ser lembrada não como a festa do futebol, mas como o Mundial das fronteiras, da desconfiança, das discriminações e das contradições.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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