Por *Elvécio Andrade
A Copa do Mundo de 2026 corre o sério risco de entrar para a história não pelos gols, pelas grandes partidas ou pelos craques em campo, mas pelas polêmicas que cercam um de seus principais
anfitriões: os Estados Unidos da América, que está sendo considerada a pior sede de todos os tempos. O país que se apresenta ao mundo como
símbolo da democracia e da liberdade vem sendo alvo de críticas crescentes por
causa do tratamento dispensado a integrantes de delegações estrangeiras às
vésperas do maior evento esportivo do planeta.
O caso do árbitro somali Omar
Abdulkadir Artan, impedido de entrar em território estadunidense mesmo
possuindo visto válido e estando oficialmente credenciado pela FIFA, tornou-se
mais um capítulo de uma sequência de episódios que levantam sérias dúvidas
sobre a imparcialidade dos procedimentos migratórios adotados pelo governo estadunidense.
Antes dele, o atacante
iraquiano Aymen Hussein foi submetido a um interrogatório de aproximadamente
sete horas após ser confundido com outra pessoa. Integrantes da delegação
iraquiana também relataram dificuldades semelhantes, incluindo o impedimento da
entrada de um fotógrafo oficial da seleção. Em outro episódio, jogadores do
Senegal foram submetidos a revistas rigorosas ainda na pista do aeroporto. Já
membros da delegação do Uzbequistão passaram por inspeções com cães farejadores
e detectores de metal durante atividades ligadas à preparação para o Mundial.
Isoladamente, cada caso
poderia ser tratado como um incidente burocrático. Juntos, porém, formam um
quadro preocupante. Afinal, por que os relatos mais constrangedores parecem
atingir justamente representantes de países africanos, árabes e asiáticos? Por
que não surgem notícias semelhantes envolvendo delegações das grandes potências
europeias ou das tradicionais seleções da América do Sul?
A percepção de tratamento
desigual é extremamente danosa para um evento que deveria simbolizar união,
respeito e igualdade entre os povos. O futebol existe justamente para derrubar
fronteiras, não para reforçá-las.
A controvérsia torna-se ainda
mais intensa quando observamos aquilo que muitos enxergam como uma evidente
incoerência nos critérios políticos do futebol internacional. A Rússia foi
excluída de competições após a invasão da Ucrânia, medida amplamente apoiada
por diversos países ocidentais. Entretanto, críticos questionam por que outras
nações envolvidas em conflitos armados e operações militares, como os próprios
Estados Unidos e Israel, que juntos atacaram o Irã, não enfrentam sanções
semelhantes no âmbito esportivo.
Essa disparidade alimenta
acusações de seletividade política e de aplicação desigual dos princípios que
deveriam reger o esporte mundial. Nesse contexto, cresce entre alguns setores
da opinião pública internacional a defesa de protestos e até de boicotes
simbólicos contra a realização de partidas em território estadunidense. Para
esses críticos, a Copa de 2026 estaria sendo organizada em um ambiente marcado
por tensões migratórias, discursos nacionalistas e políticas que, segundo seus
opositores, contradizem os valores de inclusão que a FIFA afirma defender.
A figura do presidente Donald
J. Trump também aparece no centro desse debate. Seus adversários o acusam de
adotar uma postura agressiva na política internacional e de governar com forte
concentração de poder, alimentando divisões internas e conflitos diplomáticos.
Seus apoiadores, por outro lado, argumentam que suas políticas reforçam a
segurança nacional e a soberania dos Estados Unidos. Seja qual for a visão
adotada, é inegável que sua liderança desperta reações intensas em todo o
mundo.
A verdade é que uma Copa do
Mundo deveria ser lembrada pela confraternização entre os povos. Quando
árbitros são barrados, atletas são tratados como suspeitos e delegações
inteiras enfrentam constrangimentos por sua origem nacional, o espetáculo
esportivo corre o risco de ser ofuscado por algo muito maior: o questionamento
global sobre igualdade, respeito e dignidade humana.
Se esses episódios lamentáveis e com viés ditatorial continuarem
se repetindo, com autoridades estadunidenses agindo pior que em países onde
impera a ditadura, a Copa do Mundo de 2026 poderá ser lembrada não como a festa
do futebol, mas como o Mundial das fronteiras, da desconfiança, das discriminações
e das contradições.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook:
@sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal:
@colatinanews4085




Nenhum comentário:
Postar um comentário