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13/06/2026

A hipocrisia tem mandato. Deputado que ofendeu professor é condenado a indenizá-lo

Lucas Polese: Cópia piorada do Chupetinha

Por *Elvécio Andrade

 

A recente condenação do deputado estadual bolsonarista Lucas Polese (PL) pela Justiça do Espírito Santo lança luz sobre um problema que vem se tornando cada vez mais comum na política brasileira: a utilização das redes sociais como instrumento de acusação, exposição e linchamento moral de adversários ou cidadãos comuns sem a devida responsabilidade sobre as consequências.

 

Segundo a decisão judicial, o parlamentar deverá indenizar um professor da rede municipal de Jaguaré por ter divulgado um vídeo associando o educador à doutrinação ideológica, à apologia ao comunismo e ao incentivo à invasão de propriedades rurais. A Justiça entendeu que houve violação de direitos, determinando inclusive a retirada definitiva da publicação. Embora ainda caiba recurso, a sentença representa uma dura resposta ao uso irresponsável da influência política para atacar a honra de terceiros.

 

O caso é ainda mais emblemático porque a palestra que motivou a publicação tratava dos impactos dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente, um tema legítimo de interesse público e acadêmico. Transformar um debate educacional em acusação política grave não apenas prejudica a reputação de um profissional, mas também contribui para um ambiente de perseguição ideológica incompatível com uma sociedade democrática.

 

Mas o episódio ganha contornos ainda mais contraditórios quando se recorda o histórico do próprio parlamentar. Em 2022, Lucas Polese foi abordado em uma blitz da Lei Seca conduzindo um veículo oficial alugado pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Conforme registrado pela Polícia Militar, ele apresentava odor etílico e recusou-se a realizar o teste do bafômetro. Posteriormente, o próprio deputado admitiu publicamente ter ingerido uma taça de vinho antes de dirigir o automóvel oficial.

 


Apesar da gravidade dos fatos e das evidências existentes, a denúncia acabou vergonhosamente arquivada e o caso não teve as consequências políticas que muitos consideravam necessárias. O resultado foi a sensação de que existem pesos e medidas diferentes dependendo de quem está sendo julgado.

 

A contradição é evidente. Enquanto um professor foi publicamente rotulado e exposto sem provas das acusações que lhe foram atribuídas, um agente político flagrado em situação extremamente questionável conseguiu escapar de maiores consequências institucionais. É o velho problema da política brasileira: a facilidade para apontar o dedo contra os outros e a dificuldade para encarar os próprios erros.

 

A democracia exige liberdade de expressão, mas exige também responsabilidade. Acusar alguém sem provas não é fiscalização; é abuso. Expor cidadãos comuns ao tribunal das redes sociais não é defesa de valores; é uma tentativa de condenação pública sem direito de defesa. Isso é a cara do bolsonarismo.

 

Quando políticos se colocam na posição de juízes da moral alheia, deveriam ser os primeiros a aceitar o mesmo rigor sobre seus próprios atos. Caso contrário, o discurso de combate aos erros dos outros se transforma apenas em mais uma demonstração de hipocrisia. E a hipocrisia, quando ocupa cargo público, torna-se ainda mais perigosa, porque passa a ser exercida com o poder, a visibilidade e a influência que pertencem à sociedade, e não ao ego de quem foi eleito.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 


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