Por *Elvécio Andrade
A recente condenação do
deputado estadual bolsonarista Lucas Polese (PL) pela Justiça do Espírito Santo
lança luz sobre um problema que vem se tornando cada vez mais comum na política
brasileira: a utilização das redes sociais como instrumento de acusação,
exposição e linchamento moral de adversários ou cidadãos comuns sem a devida
responsabilidade sobre as consequências.
Segundo a decisão judicial, o
parlamentar deverá indenizar um professor da rede municipal de Jaguaré por ter
divulgado um vídeo associando o educador à doutrinação ideológica, à apologia
ao comunismo e ao incentivo à invasão de propriedades rurais. A Justiça
entendeu que houve violação de direitos, determinando inclusive a retirada
definitiva da publicação. Embora ainda caiba recurso, a sentença representa uma
dura resposta ao uso irresponsável da influência política para atacar a honra
de terceiros.
O caso é ainda mais
emblemático porque a palestra que motivou a publicação tratava dos impactos dos
agrotóxicos na saúde e no meio ambiente, um tema legítimo de interesse público
e acadêmico. Transformar um debate educacional em acusação política grave não
apenas prejudica a reputação de um profissional, mas também contribui para um
ambiente de perseguição ideológica incompatível com uma sociedade democrática.
Mas o episódio ganha contornos
ainda mais contraditórios quando se recorda o histórico do próprio parlamentar.
Em 2022, Lucas Polese foi abordado em uma blitz da Lei Seca conduzindo um
veículo oficial alugado pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Conforme
registrado pela Polícia Militar, ele apresentava odor etílico e recusou-se a
realizar o teste do bafômetro. Posteriormente, o próprio deputado admitiu
publicamente ter ingerido uma taça de vinho antes de dirigir o automóvel
oficial.
Apesar da gravidade dos fatos
e das evidências existentes, a denúncia acabou vergonhosamente arquivada e o
caso não teve as consequências políticas que muitos consideravam necessárias. O
resultado foi a sensação de que existem pesos e medidas diferentes dependendo
de quem está sendo julgado.
A contradição é evidente.
Enquanto um professor foi publicamente rotulado e exposto sem provas das
acusações que lhe foram atribuídas, um agente político flagrado em situação
extremamente questionável conseguiu escapar de maiores consequências institucionais.
É o velho problema da política brasileira: a facilidade para apontar o dedo
contra os outros e a dificuldade para encarar os próprios erros.
A democracia exige liberdade
de expressão, mas exige também responsabilidade. Acusar alguém sem provas não é
fiscalização; é abuso. Expor cidadãos comuns ao tribunal das redes sociais não
é defesa de valores; é uma tentativa de condenação pública sem direito de
defesa. Isso é a cara do bolsonarismo.
Quando políticos se colocam na
posição de juízes da moral alheia, deveriam ser os primeiros a aceitar o mesmo
rigor sobre seus próprios atos. Caso contrário, o discurso de combate aos erros
dos outros se transforma apenas em mais uma demonstração de hipocrisia. E a
hipocrisia, quando ocupa cargo público, torna-se ainda mais perigosa, porque
passa a ser exercida com o poder, a visibilidade e a influência que pertencem à
sociedade, e não ao ego de quem foi eleito.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook:
@sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal:
@colatinanews4085




Nenhum comentário:
Postar um comentário