Por *Elvécio Andrade
Em Vila Valério, no Noroeste
do Espírito Santo, uma situação no mínimo curiosa e, para muitos,
constrangedora, vem chamando a atenção da população. O ex-Secretário Municipal de Comunicação, Jorge Ribeiro, que publicamente sustentou a versão de que havia deixado o cargo por vontade própria, agora se vê no centro de uma polêmica que levanta questionamentos sobre transparência, sinceridade e respeito à inteligência dos cidadãos.
Os fatos são simples e
documentados. O Decreto nº 133/2026, publicado pela Prefeitura Municipal de
Vila Valério no dia 12 de junho, determinou a exoneração de Jorge Ribeiro do
cargo de Secretário Municipal de Comunicação. O ato administrativo tornou-se
público, foi divulgado oficialmente e ficou acessível tanto à imprensa quanto à
população.
Entretanto, mesmo após a publicação
do decreto que o retirava formalmente do cargo, Jorge Ribeiro compareceu à
Prefeitura na segunda-feira, dia 15, para protocolar um pedido de exoneração.
Surge então uma pergunta inevitável: pedir exoneração de qual cargo, se três
dias antes ele já havia sido exonerado pelo prefeito?
A situação beira o absurdo.
Afinal, ninguém pode pedir desligamento de uma função que já não ocupa. O ato
parece contradizer os documentos oficiais e gera dúvidas legítimas sobre as
verdadeiras intenções por trás da iniciativa do ex-secretário. Trata-se de uma
tentativa de reescrever os fatos? De construir uma narrativa diferente daquela
registrada oficialmente? Ou apenas de criar uma versão conveniente para consumo
político?
O mais grave é que a população
valerIense não merece ser tratada como ingênua. Os documentos públicos existem
justamente para garantir transparência e impedir versões fabricadas dos
acontecimentos. Quando um decreto oficial informa uma exoneração e, dias
depois, surge um pedido de exoneração do mesmo cargo, o mínimo que se espera é
uma explicação convincente.
O comentário que circula entre
políticos e moradores é que a exoneração ocorreu em razão de supostas
articulações internas contra a própria administração municipal. Segundo essas
conversas, Jorge Ribeiro estava se aproximando do grupo político do ex-prefeito
Robinho Partelli, apontado por seus críticos como o pior prefeito da história
do Município, e participando de movimentações visando fortalecer o projeto
político do ex-prefeito de Vitória, o bolsonarista Lorenzo Pazolini (Republicanos),
apontado como possível candidato ao Governo do Estado.
Se essas informações
correspondem ou não à realidade, cabe aos envolvidos esclarecer. O que não pode
permanecer sem resposta é a contradição objetiva entre os fatos oficiais e a
narrativa apresentada posteriormente. A política já sofre demais com a falta de
credibilidade. Quando agentes públicos tentam transformar documentos oficiais
em meros detalhes inconvenientes, contribuem para aumentar a desconfiança da
população nas instituições. E a pergunta continua sem resposta: por que alguém
pediria exoneração de um cargo que já havia perdido dias antes?
Enquanto essa explicação não
aparece, fica a impressão de que, em Vila Valério, alguns personagens políticos
acreditam que uma caneta pode apagar a memória dos fatos. Mas documentos
públicos têm uma característica inconveniente para quem tenta reescrever a
história: eles permanecem registrados para que todos possam conferir a verdade.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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