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17/06/2026

A impressão que se tem é de que a imprensa capixaba perdeu a memória. Ou seria a vergonha?

A imprensa já não é mais a mesma

Por *Elvécio Andrade

 

Definitivamente, parte da imprensa capixaba parece ter perdido qualquer compromisso com a realidade dos fatos. A mais recente demonstração disso veio em uma publicação de A Gazeta, que trata como grande novidade o fato de o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), aparecer em um vídeo no Instagram assumindo a condição de pré-candidato ao Governo do Espírito Santo nas eleições de outubro de 2026.

 

Segundo a reportagem, era a primeira vez que Pazolini admitia publicamente a possibilidade de disputar o Palácio Anchieta. O texto ainda sustenta que, desde que passou a ser apontado nos bastidores como potencial candidato à sucessão estadual, ele evitava confirmar seu destino político e deixava a decisão nas mãos do partido. Mas surge uma pergunta inevitável: em que Estado viveu a redação que produziu essa matéria nos últimos meses?

 

Desde que renunciou ao mandato de prefeito, em abril deste ano, Pazolini tem percorrido o Espírito Santo de ponta a ponta. Sua agenda política se tornou pública e constante, especialmente nas regiões Norte e Noroeste do Estado. O ex-prefeito tem participado de eventos populares, visitado municípios, reunido-se com lideranças políticas, conversado com prefeitos e recebido manifestações explícitas de apoio de grupos que defendem sua candidatura ao governo estadual.

 

Nada disso aconteceu às escondidas. Pelo contrário. As movimentações foram amplamente comentadas nos meios políticos, acompanhadas por lideranças locais e observadas por qualquer cidadão minimamente atento ao cenário eleitoral capixaba. Diante disso, causa espanto que um dos maiores veículos de comunicação do Espírito Santo trate como novidade algo que, na prática, já era evidente há meses.

 

A situação levanta questionamentos inevitáveis. Estaria faltando apuração? Faltariam fontes? Teria a redação se distanciado completamente dos acontecimentos políticos do Estado? Ou estamos diante de mais um exemplo da velha prática de construir narrativas conforme conveniências e interesses circunstanciais?

 


O problema é que erros desse tipo não são meros detalhes jornalísticos. Quando a imprensa ignora fatos públicos e notórios para apresentar versões que não correspondem à realidade observada pela população, acaba comprometendo sua própria credibilidade. E credibilidade, uma vez perdida, dificilmente é recuperada.

 

O cidadão capixaba não é ingênuo. A população acompanha as movimentações políticas, observa quem está nas ruas, quem visita os municípios e quem se apresenta como alternativa para o futuro do Estado. Tentar vender como surpresa aquilo que já era conhecido por milhares de pessoas soa menos como informação e mais como uma tentativa de reescrever os fatos.

 

Seja por incompetência, desatenção ou interesses políticos, a imprensa que abandona o compromisso com a verdade deixa de cumprir seu papel e passa a alimentar a desconfiança popular. E isso é extremamente grave para a democracia.

 

Que o eleitor mantenha os olhos abertos. Não apenas para os discursos dos candidatos, mas também para as narrativas construídas por setores da mídia. Afinal, quando a verdade passa a ser tratada como novidade, alguma coisa está profundamente errada no jornalismo.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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