Por *Elvécio Andrade
Houve um tempo em que Itapina
não era apenas um distrito de Colatina. Era um símbolo de riqueza, progresso e
esperança. Às margens do majestoso Rio Doce, suas ruas fervilhavam de vida,
seus armazéns exibiam produtos importados, o cinema encantava famílias inteiras
e o apito da Estrada de Ferro Vitória a Minas anunciava a chegada de pessoas,
mercadorias e sonhos.
Oficialmente criada como Lage
em 1923 e rebatizada como Itapina em 1943, a pequena vila tornou-se uma das
localidades mais importantes do Espírito Santo. O café transformou a economia,
a ferrovia abriu caminhos para o desenvolvimento e a "Pérola do Rio
Doce" brilhava intensamente, atraindo comerciantes, viajantes e moradores
que acreditavam em um futuro cada vez mais promissor. Mas o tempo, às vezes,
escreve capítulos dolorosos.
A partir da década de 1970,
com a erradicação dos cafezais, a prosperidade começou a desaparecer. As
famílias partiram em busca de novas oportunidades, o comércio perdeu sua força
e o movimento que antes dava vida às ruas foi sendo substituído por um silêncio
quase melancólico. Paradoxalmente, foi justamente esse abandono que preservou
sua maior riqueza.
Enquanto tantas cidades
demoliram seu passado para dar lugar ao concreto moderno, Itapina permaneceu
praticamente intacta. Seus 82 imóveis históricos, protegidos pelo tombamento do
Conselho Estadual de Cultura, contam histórias sem precisar pronunciar uma
única palavra. Cada janela de madeira, cada casarão antigo, cada pedra de suas
ruas parece guardar lembranças de um tempo em que a vida seguia o ritmo dos
trens e do Rio Doce.
A antiga estação ferroviária
continua sendo um dos cartões-postais mais marcantes. A velha ponte metálica
ainda desafia os anos, enquanto a famosa "ponte fantasma", um enorme
esqueleto de concreto jamais concluído, permanece como um monumento às
promessas interrompidas e aos projetos que nunca saíram do papel.
Entre tantos tesouros,
destaca-se também o Centro Cultural Virgínia Tamanini, instalado na antiga
residência da poetisa e romancista capixaba, onde objetos pessoais, documentos
e lembranças mantêm viva a memória de uma das grandes figuras da literatura
espírito-santense.
E, mostrando que passado e
futuro podem caminhar juntos, Itapina abriga uma unidade do Ifes (Instituto
Federal do Espírito Santo), referência na educação da região e responsável por
renovar diariamente a esperança de centenas de jovens.
Quem visita Itapina não
encontra apenas um destino turístico. Encontra um pedaço da história do
Espírito Santo. Um lugar onde o relógio parece ter parado, onde o apito
imaginário dos trens ainda ecoa na memória e onde cada esquina desperta
lembranças de uma época em que o progresso parecia infinito.
Talvez Itapina já não seja a
potência econômica que um dia foi. Talvez suas ruas estejam mais silenciosas do
que antes. Mas há lugares que nunca deixam de ser grandiosos. Porque sua
verdadeira riqueza não está no dinheiro, nem no movimento do comércio, mas nas
histórias que sobreviveram ao tempo.
E enquanto houver alguém
caminhando por suas ruas, admirando seus casarões ou contemplando o Rio Doce ao
entardecer, a velha Pérola do Rio Doce jamais deixará de brilhar.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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