Arca de Noé: uma estória extraordinariamente absurda. Um verdadeiro dilúvio da lógica - Colatina News

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24/08/2026

Arca de Noé: uma estória extraordinariamente absurda. Um verdadeiro dilúvio da lógica

A arca da mentira

 

Hoje resolvi escrever sobre um dos episódios mais extraordinários, e, quando analisado pela lógica, mais absurdos, da Bíblia: a famosa Arca de Noé. Segundo o relato bíblico, Noé colocou na arca um casal de cada espécie de animal para escapar de um dilúvio que segundo a bíblia destruiu praticamente toda a humanidade. E é aí que começam as perguntas que parecem ter sido esquecidas justamente no momento em que alguém decidiu mandar chover durante quarenta dias e quarenta noites.

 

Como explicar a convivência, dentro de uma embarcação, entre leões, lobos, cordeiros, elefantes, cobras de diferentes espécies, aves, insetos e tantos outros animais? Leão olhando para cordeiro, lobo olhando para galinha, cobra dividindo espaço com rato... tudo em perfeita harmonia, como se a natureza tivesse simplesmente tirado férias.

 

E tem mais: a arca, segundo a bíblia, permaneceu sobre as águas por quase um ano. Noé, já com cerca de 600 anos, precisava alimentar toda aquela multidão de animais. E não estamos falando de meia dúzia de bichos. Elefantes comem muito. Herbívoros precisam de grandes quantidades de vegetação. Carnívoros precisam de carne. E alguém precisava armazenar, transportar e distribuir tudo isso. Mas há um assunto que provavelmente nenhum ilustrador de livro infantil gosta de colocar naquelas imagens coloridas da arca: cocô.

 

Imagine a quantidade de fezes produzida diariamente por dezenas, centenas ou milhares de animais confinados durante meses. Quem limpava? Para onde ia tudo aquilo? Jogavam pela janela? E, se jogavam, o que acontecia quando a arca estava cercada por água? Talvez o grande milagre tenha sido justamente ninguém ter morrido sufocado pelo cheiro. Mas o problema fica ainda maior quando finalmente as águas baixam. A arca encalha. As portas se abrem. Os animais saem. E encontram o quê?

 

Um mundo devastado, sem plantações, sem pastagens, sem florestas recuperadas, sem ecossistema funcionando normalmente. Muito provavelmente, lama, restos e uma natureza completamente destruída. Então surge outra pergunta inevitável: o que os animais comeram? Os herbívoros precisariam de vegetação. Os carnívoros precisariam de presas. E as presas precisariam de vegetação. Ou seja, o sistema alimentar teria que ser reconstruído praticamente do zero.

 

E o leão, recém-saído da arca, teria decidido virar vegetariano até o capim crescer? Talvez a resposta seja simplesmente: “É um milagre”. E essa parece ser a solução universal para qualquer contradição da história: quando a lógica não fecha, entra o tal milagre para fechar a conta. Mas existe uma questão muito mais perturbadora do que todas essas. O maior absurdo do relato não está na logística da arca. Está no próprio motivo de sua construção.

 


O deus apresentado como onipotente decidiu destruir praticamente toda a humanidade por causa da corrupção e da maldade existentes na Terra. E o método escolhido foi afogar o planeta. Não foram mortos apenas adultos. Havia crianças. Mulheres. Idosos. Pessoas que, segundo a própria narrativa, simplesmente foram varridas pela água. E aqui aparece uma contradição que deveria incomodar qualquer pessoa disposta a refletir sobre a história: se deus era realmente onipotente, por que precisava destruir tudo?

 

Se o problema era a humanidade ter se corrompido, por que não corrigir o problema? Se era possível criar o mundo, criar os seres humanos, controlar as águas, salvar animais e construir uma arca, por que não simplesmente eliminar a corrupção sem transformar o planeta inteiro em uma gigantesca cova? É como enterra\r o boi para matar o carrapato. Seria muito mais simples corrigir o suposto erro do que exterminar quase todos os seres vivos.

 

É como se alguém construísse uma casa, percebesse que a pintura ficou feia e, em vez de pintar novamente, decidisse explodir a casa inteira, demolir a rua e começar tudo do zero. E existe ainda um detalhe curioso: os dinossauros. Se a intenção era preservar “cada espécie”, onde estavam os dinossauros? Nenhum casal de tiranossauros? Nenhum estegossauro? Nenhum braquiossauro?

 

Talvez tenham ficado de fora porque, na época em que essa narrativa foi construída, ninguém sabia que eles existiam. Mas aí temos outro problema: a história deixa de parecer uma descrição literal de acontecimentos universais e passa a revelar muito mais sobre os conhecimentos e as crenças dos povos antigos. No fim, a Arca de Noé pode ser lida como uma poderosa narrativa religiosa, simbólica e cultural. Mas transformá-la em relato histórico literal exige engolir uma quantidade monumental de improbabilidades.

 

Porque, quando fazemos perguntas simples, onde cabiam os animais? Quem alimentava todos? Como administravam toneladas de fezes? O que os carnívoros comeram depois? Como a vegetação voltou? E por que um deus todo-poderoso precisaria exterminar crianças, mulheres e idosos para resolver o problema da humanidade? A arca começa a fazer água por todos os lados.

 

E talvez esse seja o verdadeiro dilúvio: não o das águas, mas o da lógica. Porque até hoje a Arca de Noé continua navegando tranquilamente nas águas da fé. O problema é que, quando a razão entra no barco, alguém precisa explicar por que ele está cheio de furos. E outra coisa, o deus todo poderoso sempre que vê sua criação dar errado precisa matar alguém para consertar, inclusive o próprio filho. Mas sempre fracassa, pois sua criação continua precisando de conserto.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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