Hoje resolvi escrever sobre um dos
episódios mais extraordinários, e, quando analisado pela lógica, mais absurdos,
da Bíblia: a famosa Arca de Noé. Segundo o relato bíblico, Noé colocou na arca
um casal de cada espécie de animal para escapar de um dilúvio que segundo a
bíblia destruiu praticamente toda a humanidade. E é aí que começam as perguntas
que parecem ter sido esquecidas justamente no momento em que alguém decidiu
mandar chover durante quarenta dias e quarenta noites.
Como explicar a convivência, dentro
de uma embarcação, entre leões, lobos, cordeiros, elefantes, cobras de
diferentes espécies, aves, insetos e tantos outros animais? Leão olhando para
cordeiro, lobo olhando para galinha, cobra dividindo espaço com rato... tudo em
perfeita harmonia, como se a natureza tivesse simplesmente tirado férias.
E tem mais: a arca, segundo a bíblia,
permaneceu sobre as águas por quase um ano. Noé, já com cerca de 600 anos,
precisava alimentar toda aquela multidão de animais. E não estamos falando de
meia dúzia de bichos. Elefantes comem muito. Herbívoros precisam de grandes quantidades
de vegetação. Carnívoros precisam de carne. E alguém precisava armazenar,
transportar e distribuir tudo isso. Mas há um assunto que provavelmente nenhum
ilustrador de livro infantil gosta de colocar naquelas imagens coloridas da
arca: cocô.
Imagine a quantidade de fezes
produzida diariamente por dezenas, centenas ou milhares de animais confinados
durante meses. Quem limpava? Para onde ia tudo aquilo? Jogavam pela janela? E,
se jogavam, o que acontecia quando a arca estava cercada por água? Talvez o
grande milagre tenha sido justamente ninguém ter morrido sufocado pelo cheiro. Mas
o problema fica ainda maior quando finalmente as águas baixam. A arca encalha.
As portas se abrem. Os animais saem. E encontram o quê?
Um mundo devastado, sem plantações,
sem pastagens, sem florestas recuperadas, sem ecossistema funcionando
normalmente. Muito provavelmente, lama, restos e uma natureza completamente
destruída. Então surge outra pergunta inevitável: o que os animais comeram? Os
herbívoros precisariam de vegetação. Os carnívoros precisariam de presas. E as
presas precisariam de vegetação. Ou seja, o sistema alimentar teria que ser
reconstruído praticamente do zero.
E o leão, recém-saído da arca, teria
decidido virar vegetariano até o capim crescer? Talvez a resposta seja
simplesmente: “É um milagre”. E essa parece ser a solução universal para
qualquer contradição da história: quando a lógica não fecha, entra o tal milagre
para fechar a conta. Mas existe uma questão muito mais perturbadora do que
todas essas. O maior absurdo do relato não está na logística da arca. Está no
próprio motivo de sua construção.
O deus apresentado como onipotente decidiu
destruir praticamente toda a humanidade por causa da corrupção e da maldade
existentes na Terra. E o método escolhido foi afogar o planeta. Não foram
mortos apenas adultos. Havia crianças. Mulheres. Idosos. Pessoas que, segundo a
própria narrativa, simplesmente foram varridas pela água. E aqui aparece uma
contradição que deveria incomodar qualquer pessoa disposta a refletir sobre a
história: se deus era realmente onipotente, por que precisava destruir tudo?
Se o problema era a humanidade ter se
corrompido, por que não corrigir o problema? Se era possível criar o mundo,
criar os seres humanos, controlar as águas, salvar animais e construir uma
arca, por que não simplesmente eliminar a corrupção sem transformar o planeta
inteiro em uma gigantesca cova? É como enterra\r o boi para matar o carrapato. Seria
muito mais simples corrigir o suposto erro do que exterminar quase todos os
seres vivos.
É como se alguém construísse uma
casa, percebesse que a pintura ficou feia e, em vez de pintar novamente,
decidisse explodir a casa inteira, demolir a rua e começar tudo do zero. E
existe ainda um detalhe curioso: os dinossauros. Se a intenção era preservar
“cada espécie”, onde estavam os dinossauros? Nenhum casal de tiranossauros?
Nenhum estegossauro? Nenhum braquiossauro?
Talvez tenham ficado de fora porque,
na época em que essa narrativa foi construída, ninguém sabia que eles existiam.
Mas aí temos outro problema: a história deixa de parecer uma descrição literal
de acontecimentos universais e passa a revelar muito mais sobre os
conhecimentos e as crenças dos povos antigos. No fim, a Arca de Noé pode ser
lida como uma poderosa narrativa religiosa, simbólica e cultural. Mas
transformá-la em relato histórico literal exige engolir uma quantidade
monumental de improbabilidades.
Porque, quando fazemos perguntas
simples, onde cabiam os animais? Quem alimentava todos? Como administravam
toneladas de fezes? O que os carnívoros comeram depois? Como a vegetação
voltou? E por que um deus todo-poderoso precisaria exterminar crianças,
mulheres e idosos para resolver o problema da humanidade? A arca começa a fazer
água por todos os lados.
E talvez esse seja o verdadeiro dilúvio:
não o das águas, mas o da lógica. Porque até hoje a Arca de Noé continua
navegando tranquilamente nas águas da fé. O problema é que, quando a razão
entra no barco, alguém precisa explicar por que ele está cheio de furos. E
outra coisa, o deus todo poderoso sempre que vê sua criação dar errado precisa
matar alguém para consertar, inclusive o próprio filho. Mas sempre fracassa,
pois sua criação continua precisando de conserto.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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