Por *Elvécio Andrade
A coisa mais triste da face da Terra
não é um pôr do sol coberto de fumaça, nem uma praça vazia ao amanhecer: é um
passarinho preso. Há uma crueldade tão baixa e tão comum no hábito de humanos
que compram, capturam e engaiolam seres que nasceram para abrir asas, e a
miséria dessa prática não é só do gesto, é da complacência institucional que a
mantém viva. Os pássaros, em sua essência, são arquitetura de liberdade:
pequenos corpos feitos para riscar o céu, para bordar a paisagem com movimentos
e versos.
Reduzi-los a objetos de ornamentação
doméstica é um insulto à natureza e uma confirmação da hipocrisia humana. Esses
“donos”, homens e mulheres que se orgulham de uma gaiola como se fosse troféu,
não estão apenas silenciando fauna; estão celebrando um crime contra a alegria.
A gaiola não prende só o corpo: prende a memória do voo, aprisiona a urgência
do canto, transfere para o peito da ave uma melancolia tão profunda que parece
até uma condenação. E que dizer das autoridades? Quando a lei existe no papel e
a mesma mão do Estado vira-se para o outro lado, a permissividade vira
conivência.
Há delegacias que anotam boletins, há
fiscais que documentam infracções e há dispositivos legais que preveem punição,
mas na prática a norma é letra morta. Multas que não são aplicadas,
procedimentos que se arrastam por anos, flagrantes que se transformam em
silêncio: assim se constrói um Estado que tolera pequenos tormentos. A
indiferença pública é a cobiça do crime: quem aprisiona aves sabe que, na
maioria dos casos, não haverá consequência real. E quando a autoridade falha, a
culpa se reparte entre o carrasco e o guarda que fechou os olhos.
Olhe para a ave na gaiola. Seu canto
não é alegre: é um pedido. O trinado que nos comove à cozinha e à varanda é
muitas vezes um clamor por socorro, uma tentativa de traduzir em som a vertigem
do aprisionamento. Mas os que escutam, vizinhos acomodados, compradores
impassíveis, agentes do poder distraídos, traduzem-no como som decorativo,
plano de fundo para a vida doméstica. Transformamos o lamento em música de
ambiente, e assim normalizamos a tortura.
A metáfora é simples e brutal: aprisionar um passarinho é amputar-lhe o horizonte. Tirar-lhe o céu é transformá-lo em objeto. E quem lucra com esse comércio, traficantes, vendedores, compradores, e quem protege esse comércio pela omissão merece ser exposto à luz do ridículo e à ira da lei. Não há tradição que justifique o roubo da liberdade alheia; não há cultura que legitime o prazer sadomasoquista de ver um ser vivo reduzido a um enfeite.
A denúncia deve ser clara: presas são pássaros, não pessoas. Cadeias e multas devem recair sobre quem priva vidas alheias de seu direito mais elementar: voar. É preciso investigação rigorosa dos pontos de venda, fiscalização efetiva nos mercados e punições exemplares para quem captura e comercializa espécies. É preciso também que haja campanhas públicas que traduzam empatia em ação, não em retórica vazia, e que reeduquem gostos que transformaram a beleza em posse.
Até lá, cada gaiola com um canto
trêmulo é uma acusação contra a cidade inteira. Cada canto melancólico que ecoa
de uma sala de estar é um espelho que nos mostra o que nos tornamos: seres que
colecionam sofrimento e se orgulham disso. Libertar um pássaro não é só um
gesto de misericórdia; é um ato de civilidade, um lembrete de que ainda podemos
escolher outra face da humanidade, uma que protege, respeita e restitui o céu
aos seus legítimos moradores.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook
@sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal:
@colatinanews4085




Nenhum comentário:
Postar um comentário