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22/08/2026

Gaiolas da vergonha. Pássaros continuam sendo aprisionados com anuência das autoridades

O homem é o lixo da humanidade

Por *Elvécio Andrade

 

A coisa mais triste da face da Terra não é um pôr do sol coberto de fumaça, nem uma praça vazia ao amanhecer: é um passarinho preso. Há uma crueldade tão baixa e tão comum no hábito de humanos que compram, capturam e engaiolam seres que nasceram para abrir asas, e a miséria dessa prática não é só do gesto, é da complacência institucional que a mantém viva. Os pássaros, em sua essência, são arquitetura de liberdade: pequenos corpos feitos para riscar o céu, para bordar a paisagem com movimentos e versos.

 

Reduzi-los a objetos de ornamentação doméstica é um insulto à natureza e uma confirmação da hipocrisia humana. Esses “donos”, homens e mulheres que se orgulham de uma gaiola como se fosse troféu, não estão apenas silenciando fauna; estão celebrando um crime contra a alegria. A gaiola não prende só o corpo: prende a memória do voo, aprisiona a urgência do canto, transfere para o peito da ave uma melancolia tão profunda que parece até uma condenação. E que dizer das autoridades? Quando a lei existe no papel e a mesma mão do Estado vira-se para o outro lado, a permissividade vira conivência.

 

Há delegacias que anotam boletins, há fiscais que documentam infracções e há dispositivos legais que preveem punição, mas na prática a norma é letra morta. Multas que não são aplicadas, procedimentos que se arrastam por anos, flagrantes que se transformam em silêncio: assim se constrói um Estado que tolera pequenos tormentos. A indiferença pública é a cobiça do crime: quem aprisiona aves sabe que, na maioria dos casos, não haverá consequência real. E quando a autoridade falha, a culpa se reparte entre o carrasco e o guarda que fechou os olhos.

 

Olhe para a ave na gaiola. Seu canto não é alegre: é um pedido. O trinado que nos comove à cozinha e à varanda é muitas vezes um clamor por socorro, uma tentativa de traduzir em som a vertigem do aprisionamento. Mas os que escutam, vizinhos acomodados, compradores impassíveis, agentes do poder distraídos, traduzem-no como som decorativo, plano de fundo para a vida doméstica. Transformamos o lamento em música de ambiente, e assim normalizamos a tortura.

 


A metáfora é simples e brutal: aprisionar um passarinho é amputar-lhe o horizonte. Tirar-lhe o céu é transformá-lo em objeto. E quem lucra com esse comércio, traficantes, vendedores, compradores, e quem protege esse comércio pela omissão merece ser exposto à luz do ridículo e à ira da lei. Não há tradição que justifique o roubo da liberdade alheia; não há cultura que legitime o prazer sadomasoquista de ver um ser vivo reduzido a um enfeite.


A denúncia deve ser clara: presas são pássaros, não pessoas. Cadeias e multas devem recair sobre quem priva vidas alheias de seu direito mais elementar: voar. É preciso investigação rigorosa dos pontos de venda, fiscalização efetiva nos mercados e punições exemplares para quem captura e comercializa espécies. É preciso também que haja campanhas públicas que traduzam empatia em ação, não em retórica vazia, e que reeduquem gostos que transformaram a beleza em posse.

 

Até lá, cada gaiola com um canto trêmulo é uma acusação contra a cidade inteira. Cada canto melancólico que ecoa de uma sala de estar é um espelho que nos mostra o que nos tornamos: seres que colecionam sofrimento e se orgulham disso. Libertar um pássaro não é só um gesto de misericórdia; é um ato de civilidade, um lembrete de que ainda podemos escolher outra face da humanidade, uma que protege, respeita e restitui o céu aos seus legítimos moradores.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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