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31/08/2026

Henrique & Juliano são os únicos sertanejos que não aceitam dinheiro público para shows

Henrique & Juliano não exploram municípios

Por *ElvécioAndrade

 

Enquanto milhares de brasileiros enfrentam filas em postos de saúde, escolas precárias, ruas abandonadas, falta de saneamento e uma infinidade de necessidades básicas, existe prefeito que parece viver em outro planeta: para aquilo que realmente importa, nunca há dinheiro; para contratar cantor famoso, de repente aparece uma fortuna. E não estamos falando de trocados. Estamos falando de centenas de milhares, e, em alguns casos, milhões de reais, retirados dos cofres municipais para pagar cachês de artistas que já movimentam fortunas no setor privado.

 

O cidadão paga imposto, espera por atendimento médico, cobra melhorias na escola do filho, reclama do esgoto, da rua esburacada, da iluminação precária. E o prefeito? Contrata um show. A lógica é simplesmente absurda. Em Nova Belém (MG), um Município com pouco mais de três mil habitantes, foi divulgado um cachê de R$ 900 mil para Ana Castela. E esse valor não representa necessariamente o custo total da festa, já que existem outras contratações e despesas envolvidas. Novecentos mil reais.

 

Para um Município minúsculo e pobre, é uma cifra que deveria provocar muito mais do que aplausos. Deveria provocar questionamentos, porque uma prefeitura que encontra R$ 900 mil para contratar uma única artista precisa explicar, com absoluta transparência, por que esse dinheiro não deveria estar sendo empregado em alguma das inúmeras necessidades permanentes da população. E não adianta responder com o velho argumento de que “a festa movimenta a economia”.

 

Se a intenção é movimentar a economia, existem inúmeras maneiras de fazê-lo sem transformar o orçamento municipal em uma máquina de financiar cachês milionários. O problema não é o artista. O problema é a prioridade do governante. Artista tem todo o direito de cobrar o quanto quiser pelo seu trabalho. Prefeito também tem todo o direito de organizar eventos. Mas existe uma pergunta que não pode ser enterrada debaixo de toneladas de som, fogos e propaganda:

 

É razoável retirar centenas de milhares de reais dos cofres de um Município pobre para pagar algumas horas de entretenimento enquanto necessidades básicas continuam esperando? E é justamente nesse ponto que a postura de Henrique & Juliano merece ser destacada. A dupla adotou publicamente a posição de não aceitar contratos financiados por verbas municipais, defendendo que os recursos públicos devem priorizar áreas essenciais.

 

É uma escolha que coloca um espelho diante de todo esse modelo. Porque se uma dupla de enorme sucesso consegue construir sua carreira apostando em eventos privados e bilheteria própria, por que uma prefeitura precisa assumir o custo de cachês milionários de artistas que já possuem enorme capacidade comercial? O dinheiro público não pode ser tratado como dinheiro grátis. Não é dinheiro do prefeito, não é dinheiro do vereador, não é dinheiro do empresário do evento, e muito menos é dinheiro que o artista “ganhou” simplesmente porque alguém assinou um contrato.

 


É dinheiro arrancado da sociedade por meio de impostos. Cada real gasto em uma contratação precisa ser justificado pelo interesse público. E quanto mais pobre é o Município, maior deveria ser a responsabilidade. O que causa indignação é assistir a cidades com carências históricas transformarem aquilo que deveria ser orçamento para políticas públicas em uma espécie de festival permanente de cachês milionários.

 

Depois aparecem as fotos, o prefeito no palco, o artista sorrindo, os fogos explodindo, a multidão gritando. E, no dia seguinte, a realidade volta: o posto continua sem estrutura, a escola continua precisando de investimento, a rua continua esburacada e o saneamento continua esperando. Mas o cachê? Bem, esse já foi pago. E há uma pergunta ainda mais incômoda: onde estão os fiscais? Onde estão os vereadores? Os órgãos de controle? O Ministério Público? Os Tribunais de Contas? Quem está examinando esses contratos?

 

Quem está verificando preços, justificativas, prioridades e efetivo interesse público? Porque fiscalizar dinheiro público não pode significar apenas aparecer depois que a notícia explode. A população não precisa de autoridades que descubram o problema depois. Precisa de fiscalização antes que o dinheiro saia, e que ninguém confunda crítica a gasto público com ataque à cultura. Cultura é essencial, lazer é importante. Festas populares também fazem parte da vida de uma cidade.

 

O que não é aceitável é usar a pobreza de um Município como desculpa para gastar sem responsabilidade, e depois exigir que o cidadão aplauda. Se há dinheiro suficiente para bancar cachês de R$ 900 mil, a população tem o direito de perguntar se existe dinheiro suficiente para garantir o básico. Se não existe, então a festa pode até ter terminado em aplausos.

 

Mas a administração pública terá deixado uma pergunta pendurada no ar: quem realmente ganhou com essa festa, e quem ficou pagando a conta? Porque o palco desmonta, o cantor vai embora, os fogos acabam, a propaganda desaparece. Mas o dinheiro público não volta e o cidadão continua lá. Pagando imposto, esperando atendimento e assistindo à festa dos outros.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 


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