Por *Elvécio Andrade
São Domingos do Norte, no Noroeste do
Espírito Santo, acaba de ganhar uma história daquelas que parecem roteiro de
filme policial. Só que, desta vez, com um detalhe particularmente curioso:
entre os personagens está o diretor do Saee (Serviço Autônomo de Água e Esgoto)
do Município.
Wilson Sedda, este é o nome do cara,
foi preso em flagrante na manhã de quarta-feira, dia 07, por suspeita de
receptação qualificada. Segundo a Polícia Civil, ele estava conduzindo um
veículo no qual foram encontrados aproximadamente 10 metros de fios de cobre
semelhantes aos que haviam sido furtados horas antes de uma residência. E o
roteiro não para aí.
De acordo com a polícia, Maickol
Filipe Silva Schroder e Fabíola Capeleto Fagundes são apontados como envolvidos
no furto dos fios que ligavam um poste de energia elétrica a uma residência na
região central da cidade. Resultado: a casa ficou sem energia e a proprietária afirma
ter sofrido um prejuízo estimado em R$ 500,00.
Até aí, já seria uma ocorrência
bastante grave. Mas aí entra o famoso “plot twist”. Segundo a Polícia Civil,
Maickol foi localizado nas proximidades de uma praça, sentado no banco do
carona do veículo conduzido justamente pelo diretor do Saae. Durante a
abordagem, os policiais encontraram com Maickol uma faca e uma chave allen. Com
Wilson, estavam os fios de cobre semelhantes aos que haviam sido furtados.
Convenhamos: é muita coincidência
para um único pedaço de fio. E aqui surge a pergunta que não quer calar: o que
fazia um diretor de órgão público conduzindo um veículo com um homem apontado
pela polícia como envolvido no furto e, dentro do carro, aproximadamente 10
metros de fios iguais aos que acabavam de ser furtados? A pergunta não é
acusação. É pergunta mesmo. Quem deve responder é a investigação.
Wilson Sedda e os demais envolvidos
são considerados inocentes até eventual condenação definitiva e têm direito à
ampla defesa e ao contraditório. Mas o episódio, pela própria natureza do cargo
ocupado por Wilson, merece uma explicação pública convincente. Afinal, quem
ocupa uma função de confiança na administração municipal precisa entender que
determinadas companhias, determinados materiais e determinadas circunstâncias
podem produzir algo mais complicado do que uma simples queda de pressão na
rede.
Podem produzir uma queda brutal na
confiança da população. E há uma ironia quase pronta no episódio: o Saae
trabalha com água e esgoto, mas quem acabou mergulhando em uma ocorrência
policial foi o seu diretor. E olha que nem foi por falta d’água. Foi por causa
de fio. Agora cabe à Polícia Civil investigar, ao Ministério Público analisar o
que for de sua competência e à Justiça decidir. Mas uma coisa já ficou
evidente: em São Domingos do Norte, esse fio tem muita coisa para desencapar.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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