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07/10/2026

Delegacias de polícia vivem na idade da pedra e fianças têm que ser pagas em dinheiro vivo

Delegacia Regional de Barra de São Francisco/ES

Por *Elvécio Andrade

 

No país do Pix, cidadão pode ter dinheiro disponível no banco e continuar atrás das grades simplesmente porque não tem cédulas no bolso. Imagine a cena: a pessoa é presa, tem dinheiro suficiente em sua conta bancária para pagar a fiança, a liberdade poderia ser obtida mediante o pagamento do valor arbitrado, mas surge um obstáculo digno de outro século: “Precisa ser em dinheiro vivo”.

 

O dinheiro existe, a conta existe, a fiança existe e o direito de pagar existe, mas só falta uma coisa: as cédulas. E se a prisão acontecer longe de casa, durante a madrugada, e conduzido para uma cidade onde o cidadão não conhece ninguém? Aí começa a peregrinação. Enquanto o Pix transfere dinheiro em segundos, o cidadão pode ficar esperando alguém aparecer com dinheiro em espécie para resolver uma situação que poderia ser solucionada eletronicamente.

 

Isso precisa ser discutido com seriedade. Não se trata de acusar servidores públicos de irregularidade. Trata-se de questionar um modelo administrativo ultrapassado, que mantém dinheiro vivo circulando em ambientes onde deveria prevalecer o máximo de segurança, transparência e rastreabilidade. E não é uma preocupação meramente teórica. Já houve situações envolvendo roubo ou desaparecimento de valores relacionados a fianças em unidades policiais, inclusive com responsabilização de servidores.



Quanto menos dinheiro vivo circular dentro de repartições públicas, melhor para todos. Mas há ainda uma segunda parte dessa história que é igualmente preocupante: a devolução da fiança. Tenho caso concreto de cliente que foi preso em 2019, pagou fiança e posteriormente foi absolvido. A Justiça determinou a restituição do valor e a delegacia foi devidamente intimada, mas até hoje o dinheiro não foi devolvido.

 

É quase uma ironia burocrática: para sair da prisão, encontre dinheiro vivo. Para receber seu próprio dinheiro de volta, tenha paciência. Estamos em 2026. O cidadão paga imposto pelo celular, faz transferência bancária pelo celular, compra passagem pelo celular, paga supermercado pelo celular e faz negócios pelo celular. Mas, quando a questão envolve uma fiança e a liberdade de uma pessoa, ainda podemos encontrar procedimentos que parecem ter sido escritos quando o dinheiro era guardado debaixo do colchão.

 

Isso precisa mudar. O Estado deveria oferecer mecanismos eletrônicos oficiais, seguros, auditáveis e disponíveis nos plantões para o pagamento das fianças, além de procedimentos eficientes para a restituição dos valores quando determinada pela Justiça. Porque tecnologia não falta. O que falta, em alguns procedimentos, é modernizar o Estado na mesma velocidade em que a sociedade já se modernizou. No país do Pix, não faz sentido alguém permanecer preso simplesmente porque o dinheiro está na conta, e não no bolso.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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