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30/08/2026

O cachê milionário de cantores, a "Lei Roubanet" e a hipocrisia de quem demoniza a Rouanet

Sertanejos criticam a Lei Rouanet, mas adoram as emendas Roubanet

 

Há uma curiosa modalidade de patriotismo que floresceu no Brasil: criticar dinheiro público quando ele financia cultura que não agrada, mas aplaudir quando a verba pública cai no bolso do artista preferido. É a velha política dos dois pesos e duas medidas, agora com microfone, palco, milhões de reais e, aparentemente, nenhuma vergonha na cara.

 

Ana Castela, de 26 anos, entrou recentemente no radar das críticas depois de posar ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Independentemente da fotografia ou das preferências políticas da cantora, existe uma questão muito mais importante, e que deveria interessar a qualquer cidadão, de direita, esquerda ou de Marte: quanto dinheiro público está sendo destinado aos seus shows?

 

Segundo os dados disponíveis no PNCP (Portal Nacional de Contratações Públicas), são 26 apresentações contratadas por prefeituras ao longo de 2026, somando aproximadamente R$ 22,6 milhões. É dinheiro público suficiente para fazer qualquer contribuinte olhar para o palco e perguntar: será que o Município realmente não tinha nada mais urgente para fazer? A maioria das cidades contratantes é administrada por prefeitos de partidos de direita ou centro. O PSD aparece na liderança das contratações, seguido por PP e PSDB.

 

E então surge um daqueles exemplos que parecem ter sido escritos por um roteirista especializado em ironia política. Nova Belém, em Minas Gerais, tem apenas 3.151 habitantes. Mesmo assim, o Município, administrado pelo prefeito Valdeci Dornelas (PSD-MG), contratou Ana Castela por R$ 900 mil para uma apresentação. Novecentos mil reais, para uma cidade muito pobre, de pouco mais de três mil habitantes e que sobrevive de FPM (Fundo de Participação dfos Municípios.

 

É impossível não fazer uma conta simples: estamos falando de um valor equivalente a aproximadamente R$ 285 por habitante. Evidentemente, isso não significa que cada morador tenha desembolsado individualmente esse valor, porque o dinheiro público tem outras fontes e despesas. Mas a proporção ajuda a dimensionar o tamanho do negócio. Enquanto isso, saúde, educação, infraestrutura, saneamento, estradas e tantos outros serviços públicos continuam disputando migalhas nos orçamentos municipais. Mas para o palco, aparentemente, aparece dinheiro. E aparece rápido.

 

Como se o problema de um Município pudesse ser resolvido com um caminhão de som, toneladas de estrutura, fogos, milhares de pessoas e um cachê que faria muita gente passar anos trabalhando para conseguir juntar. E a história não termina aí. Além dos R$ 22,68 milhões identificados em contratos pelo levantamento citado, Ana Castela ainda terá um cachê de R$ 850 mil em São Fidélis, no Rio de Janeiro, em um show bancado por uma emenda federal de R$ 1 milhão solicitada pela deputada Dani Cunha (PL), segundo levantamento.

 

Aqui chegamos ao ponto mais saboroso, e mais hipócrita, desse espetáculo. Existe uma parcela do meio artístico que transformou a Lei Rouanet em uma espécie de demônio nacional. Alguns artistas e seus admiradores passaram anos repetindo que a Lei Rouanet seria uma espécie de torneira de dinheiro público aberta para sustentar artistas. Só esqueceram de explicar uma coisa básica: a Lei Rouanet funciona por meio de incentivo fiscal, permitindo que empresas e pessoas físicas direcionem parte do imposto devido para projetos culturais previamente aprovados. Não é simplesmente o governo pegando um cheque e entregando diretamente ao artista.

 


Mas, curiosamente, quando o dinheiro público chega por outro caminho, especialmente por emendas parlamentares destinadas a eventos e shows de artistas de direita, o discurso frequentemente muda de tom. Aí a verba pública parece ficar mais cheirosa. É por isso que a expressão “Lei Roubanet” virou uma provocação perfeita para essa contradição: condena-se o incentivo cultural quando ele beneficia determinados artistas, mas há muito menos indignação quando recursos públicos são utilizados para bancar cachês milionários em festas municipais.

 

Gusttavo Lima, Leonardo, Bruno & Marrone, Amado Batista e tantos outros nomes associados à direita já fizeram críticas à Lei Rouanet. Cada artista tem todo o direito de defender sua posição política e criticar a política cultural que quiser. O que não combina é condenar dinheiro público destinado à cultura apenas quando o beneficiário está do outro lado do espectro político e silenciar quando uma emenda beneficia artistas simpáticos à própria ideologia. Porque dinheiro público não tem ideologia.

 

Nota de R$ 100 não vira conservadora porque foi parar no camarim de um artista de direita. E também não vira progressista porque financiou um espetáculo de esquerda. Dinheiro público continua sendo dinheiro do público. O problema, portanto, não é Ana Castela posar com Nikolas Ferreira, não é Gusttavo Lima declarar apoio a determinado político, não é Leonardo cantar para determinado público. O verdadeiro problema é outro.

 

Por que municípios pequenos estão dispostos a desembolsar centenas de milhares de reais, e, em alguns casos, quase um milhão, por algumas horas de entretenimento enquanto tantas necessidades permanentes continuam sem solução? E por que aqueles que passam o ano inteiro berrando contra a “mamata” cultural parecem ficar subitamente silenciosos quando a mamata, se é que podemos chamá-la assim, vem embrulhada em emenda parlamentar, festa municipal e cachê de artista politicamente conveniente?

 

Talvez seja porque, no Brasil, o problema nunca tenha sido exatamente o dinheiro público. O problema é quem está recebendo. Quando o dinheiro vai para o artista de quem eu gosto, é investimento; quando vai para o artista de quem eu não gosto, é desperdício; quando beneficia meu lado, é cultura; e quando beneficia o adversário, é mamata.

 

E assim seguimos, com os municípios pagando cachês milionários, os políticos fazendo festa com dinheiro público e os contribuintes assistindo ao espetáculo, muitas vezes sem sequer ter dinheiro suficiente para comprar o ingresso. No fim, a grande atração talvez nem esteja no palco: está nos bastidores. E, nesse espetáculo chamado Brasil, parece que a hipocrisia continua sendo a única atração com entrada garantida.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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