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16/10/2026

Só aves de rapina. Deputados capixabas aprovam PEC contrária às orientações do STF

Aves de rapina em ação

Por *Elvécio Andrade

 

Há uma diferença gigantesca entre cumprir uma determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) e utilizar o nome da mais alta Corte do país como biombo para justificar uma decisão que beneficia os próprios parlamentares. E, pelo visto, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo resolveu transformar essa diferença em mero detalhe.

 

Ao aprovar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que estabelece o teto de 1,55% da receita corrente líquida do Estado para emendas parlamentares impositivas, os deputados capixabas apresentaram uma justificativa aparentemente nobre: adequar a legislação estadual às diretrizes estabelecidas pelo STF. Bonito discurso. Quase comovente. Só faltou contar a história inteira.

 

As diretrizes invocadas não obrigam o Espírito Santo a criar emendas impositivas, tampouco determinam que a Assembleia reserve aos parlamentares o percentual aprovado. O Supremo tem cobrado, sobretudo, transparência, rastreabilidade e controle na destinação dos recursos públicos. Mas parece que nossos nobres representantes entenderam a mensagem de maneira bastante peculiar: quando o assunto é ampliar o acesso ao dinheiro público, a interpretação é generosa. Quando chega a hora de detalhar os mecanismos de fiscalização, a inspiração constitucional sofre uma conveniente crise de criatividade.

 

O texto da PEC menciona transparência e controle, mas não detalha satisfatoriamente as diretrizes de rastreabilidade e fiscalização dos recursos. Eis o ponto central dessa história: não basta dizer que haverá transparência. É preciso estabelecer como ela funcionará, quem fiscalizará, quais informações serão disponibilizadas e de que maneira o cidadão poderá acompanhar o caminho de cada centavo, desde a indicação parlamentar até o destinatário final. Afinal, estamos falando de dinheiro público, não de uma herança deixada por algum parente milionário aos deputados estaduais.

 

A justificativa da proposta ainda apresenta uma verdadeira pérola ao afirmar que a medida pretende "evitar discriminações de natureza política ou partidária na execução das despesas públicas". Que demonstração enternecedora de preocupação com a igualdade. Agora, os parlamentares parecem querer garantir constitucionalmente que nenhum deles seja discriminado na hora de participar da distribuição do bolo orçamentário.

 


Enquanto isso, o cidadão comum continua enfrentando filas por atendimento médico, dificuldades para conseguir exames, estradas necessitando de manutenção e serviços públicos que nem sempre acompanham as necessidades da população. Para esses problemas, frequentemente aparecem as limitações orçamentárias. Para ampliar o poder parlamentar sobre a destinação dos recursos, aparece uma PEC. É impressionante como determinadas soluções financeiras surgem rapidamente quando os beneficiários da decisão são os próprios responsáveis por aprová-la.

 

Não se trata de negar a legitimidade das emendas parlamentares nem a participação do Legislativo na definição das prioridades orçamentárias. Trata-se de questionar uma inversão de prioridades: amplia-se a força obrigatória das indicações parlamentares sem apresentar, com a mesma clareza, as garantias necessárias para acompanhar sua execução. Se a preocupação fosse exclusivamente cumprir as diretrizes do Supremo, o protagonismo da proposta deveria estar nos mecanismos de publicidade, fiscalização e rastreabilidade.

 

Mas o que ganhou destaque foi justamente a garantia de uma fatia do orçamento estadual aos deputados. É como se alguém recebesse uma recomendação para instalar câmeras de segurança em um cofre e resolvesse, antes de qualquer coisa, distribuir cópias das chaves. E ainda anunciasse que tudo foi feito em nome da segurança. O episódio merece atenção redobrada da sociedade capixaba e dos órgãos de controle. É indispensável que se esclareça como serão identificados os autores das indicações, os beneficiários dos repasses e a efetiva aplicação dos recursos.

 

Porque emenda parlamentar não é propriedade particular de deputado, não é instrumento de recompensa eleitoral, não é moeda de negociação política e muito menos um cheque em branco assinado pelo contribuinte. O orçamento pertence ao povo capixaba, inclusive àqueles que não votaram em nenhum dos atuais ocupantes das cadeiras da Assembleia.

 

No fim das contas, fica uma pergunta incômoda: se a preocupação é realmente atender ao STF, por que a garantia de acesso ao dinheiro aparece com tanta precisão, enquanto os mecanismos de fiscalização permanecem sem o mesmo detalhamento? A resposta precisa vir a público. Porque, do jeito que a história foi apresentada, a impressão é que as aves de rapina não estão preocupadas em invadir o galinheiro. Estão muito mais interessadas em garantir, constitucionalmente, a própria ração. E com um detalhe: quem paga a conta é o povo.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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