Por que Flávio Bolsonaro quer acabar com munições rastreáveis? Será que deixou rastros? - Colatina News

Recentes


Acessos

google.com, pub-2151647549971277, DIRECT, f08c47fec0942fa0

18/10/2026

Por que Flávio Bolsonaro quer acabar com munições rastreáveis? Será que deixou rastros?

Flávio Rachadinha só levou lapada

Por *Elvécio Andrade

 

Há coisas na política brasileira que desafiam a inteligência humana. Uma delas é a disposição do senador Flávio Bolsonaro de combater regras de identificação e rastreabilidade de munições utilizadas pelos órgãos de segurança pública. A pergunta que não quer calar é simples: a quem interessa dificultar o rastreamento de munições? À polícia que investiga ou ao criminoso que deseja permanecer nas sombras?

 

A marcação de munições não é enfeite de fábrica, frescura burocrática nem capricho de funcionário público. É um instrumento de segurança que permite identificar lotes, fabricantes e a destinação de materiais controlados, contribuindo para investigações criminais, fiscalização de estoques e apuração de possíveis desvios. Quando estojos de munição são encontrados numa cena de crime, essas informações podem ajudar investigadores a reconstruir caminhos, identificar procedências e estabelecer conexões relevantes para uma investigação.

 

Num país marcado pela violência armada, pelo tráfico de armas e pela atuação de organizações criminosas como o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital), enfraquecer mecanismos de rastreabilidade deveria ser a última preocupação de alguém que pretende governar um país. Mas, aparentemente, para Flávio Bolsonaro, que tem alguns amigos e aliados presos com envolvimento com essas organizações criminosas conforme divulgado pela imprensa, isso não passa de um detalhe.

 

O assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes é uma lembrança dolorosa da importância de preservar todos os elementos capazes de auxiliar uma investigação criminal. Em crimes dessa gravidade, nenhuma pista deveria ser desprezada. Muito menos por conveniência política. É justamente por isso que causa indignação a tentativa de flexibilizar regras destinadas a identificar a origem e a circulação de munições adquiridas pelo poder público.

 

Afinal, o que ganha a sociedade quando se reduz a capacidade de rastreamento de um material que pode acabar nas mãos de organizações criminosas? Quem se beneficia quando uma munição desviada de um estoque oficial se torna mais difícil de identificar? E por que um senador que pretende ocupar a Presidência da República deveria considerar irrelevante um mecanismo que auxilia o próprio Estado no combate à criminalidade?

 

A controvérsia ganha contornos ainda mais preocupantes diante das notícias sobre investigações envolvendo políticos e pessoas ligadas a diferentes grupos de poder, suspeitos de relações com organizações criminosas. Isso não autoriza atribuir ao senador participação em crimes ou vínculos criminosos sem provas. Mas torna absolutamente legítimo cobrar explicações públicas sobre suas escolhas legislativas e os efeitos concretos que elas podem produzir.

 


Quem pretende governar o Brasil precisa explicar por que considera dispensável uma ferramenta que pode ajudar a identificar desvios de munições e abastecimento ilegal de armamentos. Não basta vestir a fantasia de defensor da segurança pública, discursar contra a criminalidade e, na hora de discutir instrumentos concretos de investigação, tratar a rastreabilidade como um incômodo burocrático. Segurança pública não se faz apenas com discursos inflamados, fotografias ao lado de policiais e promessas de endurecimento penal. Também se faz com inteligência, controle, tecnologia e capacidade de investigação.

 

A iniciativa de derrubar regras de marcação e rastreamento de munições destinadas aos órgãos de segurança pública remonta ao governo de Jair Bolsonaro. Agora, a discussão volta a colocar a família Bolsonaro diante de uma contradição política que merece explicações. Como alguém pode defender o combate implacável ao crime organizado e, simultaneamente, apoiar medidas que podem dificultar a identificação da origem de munições? A sociedade não precisa de slogans. Precisa de respostas.

 

Porque o problema não está apenas numa gravação feita sobre o metal de um estojo. Está na mensagem transmitida quando uma ferramenta de controle estatal é tratada como algo descartável. E, se a marcação é mesmo um detalhe tão insignificante, por que tanto empenho político para eliminá-la?

 

A identificação de munições não resolve sozinha a violência brasileira, tampouco substitui perícias, investigações e políticas públicas eficientes. Mas eliminar ou enfraquecer instrumentos de controle sem apresentar alternativas igualmente eficazes é uma escolha que exige justificativa técnica, transparência e responsabilidade. Flávio Bolsonaro deve essa explicação à sociedade.

 

Porque, enquanto políticos discutem a conveniência de apagar informações, investigadores precisam delas para esclarecer crimes, famílias aguardam justiça e organizações criminosas continuam desafiando o Estado. No combate ao crime, um pequeno registro pode representar uma grande pista. E há uma diferença gigantesca entre combater a criminalidade e combater os instrumentos utilizados para investigá-la.

 

Para quem perdeu um filho, uma mãe, um pai ou um irmão assassinado, nenhuma pista é um “detalhezinho”. Detalhe, senador, é aquilo que não faz diferença. Rastreabilidade pode fazer a diferença entre esclarecer um crime e permitir que ele permaneça impune.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook @sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal: @colatinanews4085

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário