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18/10/2026

Cruz assassina despenca do altar e mata padre na frente de fieis quando celebrava missa

Momento em que a cruz despencou

Por *Elvécio Andrade

 

Há acontecimentos tão absurdamente irônicos que, se fossem escritos por um autor de humor ácido, provavelmente seriam considerados exagerados. Mas a realidade, quando resolve caprichar no roteiro, consegue superar até os mais criativos escritores de ficção. No último sábado, 17, o padre Patricio Alfredo Sánchez Molinari morreu após ser atingido na cabeça por uma grande cruz de madeira enquanto celebrava uma missa na Igreja Perpétuo Socorro, em Guayaquil, no Equador.

 

Sim, você leu corretamente. O sacerdote estava dentro de uma igreja, celebrando um ritual religioso, diante de fiéis, quando justamente um dos maiores símbolos do cristianismo despencou sobre sua cabeça. A tragédia foi registrada durante a transmissão ao vivo da celebração. O religioso recebeu socorro dos fiéis, mas não resistiu. Até o momento, não há informações conclusivas sobre o que provocou a queda da estrutura. E foi justamente aí que surgiu uma questão capaz de provocar um verdadeiro terremoto nas certezas religiosas.

 

Entre os inúmeros comentários publicados sobre o episódio, um internauta disparou: "Onde estava o deus dele naquele momento que não o protegeu? Essa é só mais uma prova da inexistência de deus!" A afirmação é categórica demais para ser considerada uma demonstração científica da inexistência de Deus. Entretanto, a pergunta que a antecede merece reflexão, especialmente quando confrontada com determinados discursos religiosos. Afinal, onde estava a proteção divina?

 

Estaria ocupada com alguma demanda celestial mais urgente? O anjo da guarda teria saído para o intervalo? Ou será que o departamento responsável pelos milagres estava funcionando em regime de plantão reduzido? Porque convenhamos: se nem mesmo um sacerdote, dentro de uma igreja, durante uma missa, diante de uma cruz, está necessariamente protegido de uma tragédia, talvez seja hora de rever certas propagandas sobre proteção sobrenatural.

 


Principalmente aquelas que prometem livramento, blindagem espiritual e intervenção divina mediante generosas contribuições financeiras. É curioso observar como funciona determinada contabilidade religiosa: quando alguém escapa milagrosamente de um acidente, a glória é imediatamente atribuída a Deus. Quando não escapa, entram em cena os insondáveis desígnios divinos. Se sobrevive, foi milagre. Se morre, era a vontade do Senhor.

 

Uma explicação tão conveniente que jamais perde uma discussão. Afinal, qualquer resultado serve para confirmar a mesma tese. Mas existe outra questão, bem menos metafísica e muito mais terrena, que precisa ser respondida: quem era responsável pela segurança daquela estrutura de madeira? Porque, independentemente da crença de cada um, cruzes não deveriam despencar sobre a cabeça das pessoas. Muito menos durante celebrações religiosas.

 

É necessário investigar se houve falha de instalação, ausência de manutenção ou qualquer outra circunstância que tenha contribuído para o acidente. Sem investigação, seria irresponsável atribuir culpa a alguém. Fé não substitui parafuso, oração não substitui vistoria e água benta, até onde a engenharia conseguiu demonstrar, não funciona como reforço estrutural. A morte do padre merece respeito, a tragédia merece investigação e os discursos que transformam a proteção divina numa espécie de seguro contra todos os males merecem, no mínimo, uma boa dose de questionamento.

 

No fim das contas, o episódio deixa uma constatação desconfortável: não basta pedir proteção aos céus quando existe uma estrutura pesada ameaçando cair sobre a cabeça dos fiéis. Antes de esperar que Deus segure a cruz, seria prudente verificar se alguém a fixou direito, porque, pelo visto, até dentro da casa do Senhor, a manutenção preventiva continua sendo uma responsabilidade dos homens. Não tem nenhum Deus capaz de evitar o pior se o homem, que é real, não tiver cuidado.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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