Por *Elvécio Andrade
Há acontecimentos tão absurdamente irônicos
que, se fossem escritos por um autor de humor ácido, provavelmente seriam
considerados exagerados. Mas a realidade, quando resolve caprichar no roteiro,
consegue superar até os mais criativos escritores de ficção. No último sábado, 17,
o padre Patricio Alfredo Sánchez Molinari morreu após ser atingido na cabeça
por uma grande cruz de madeira enquanto celebrava uma missa na Igreja Perpétuo
Socorro, em Guayaquil, no Equador.
Sim, você leu corretamente. O sacerdote estava
dentro de uma igreja, celebrando um ritual religioso, diante de fiéis, quando
justamente um dos maiores símbolos do cristianismo despencou sobre sua cabeça. A
tragédia foi registrada durante a transmissão ao vivo da celebração. O
religioso recebeu socorro dos fiéis, mas não resistiu. Até o momento, não há
informações conclusivas sobre o que provocou a queda da estrutura. E foi
justamente aí que surgiu uma questão capaz de provocar um verdadeiro terremoto
nas certezas religiosas.
Entre os inúmeros comentários publicados sobre
o episódio, um internauta disparou: "Onde estava o deus dele naquele
momento que não o protegeu? Essa é só mais uma prova da inexistência de
deus!" A afirmação é categórica demais para ser considerada uma
demonstração científica da inexistência de Deus. Entretanto, a pergunta que a
antecede merece reflexão, especialmente quando confrontada com determinados
discursos religiosos. Afinal, onde estava a proteção divina?
Estaria ocupada com alguma demanda celestial
mais urgente? O anjo da guarda teria saído para o intervalo? Ou será que o
departamento responsável pelos milagres estava funcionando em regime de plantão
reduzido? Porque convenhamos: se nem mesmo um sacerdote, dentro de uma igreja,
durante uma missa, diante de uma cruz, está necessariamente protegido de uma
tragédia, talvez seja hora de rever certas propagandas sobre proteção
sobrenatural.
Principalmente aquelas que prometem livramento,
blindagem espiritual e intervenção divina mediante generosas contribuições
financeiras. É curioso observar como funciona determinada contabilidade
religiosa: quando alguém escapa milagrosamente de um acidente, a glória é
imediatamente atribuída a Deus. Quando não escapa, entram em cena os
insondáveis desígnios divinos. Se sobrevive, foi milagre. Se morre, era a
vontade do Senhor.
Uma explicação tão conveniente que jamais perde
uma discussão. Afinal, qualquer resultado serve para confirmar a mesma tese. Mas
existe outra questão, bem menos metafísica e muito mais terrena, que precisa
ser respondida: quem era responsável pela segurança daquela estrutura de
madeira? Porque, independentemente da crença de cada um, cruzes não deveriam
despencar sobre a cabeça das pessoas. Muito menos durante celebrações
religiosas.
É necessário investigar se houve falha de
instalação, ausência de manutenção ou qualquer outra circunstância que tenha
contribuído para o acidente. Sem investigação, seria irresponsável atribuir
culpa a alguém. Fé não substitui parafuso, oração não substitui vistoria e água
benta, até onde a engenharia conseguiu demonstrar, não funciona como reforço
estrutural. A morte do padre merece respeito, a tragédia merece investigação e
os discursos que transformam a proteção divina numa espécie de seguro contra
todos os males merecem, no mínimo, uma boa dose de questionamento.
No fim das contas, o episódio deixa uma
constatação desconfortável: não basta pedir proteção aos céus quando existe uma
estrutura pesada ameaçando cair sobre a cabeça dos fiéis. Antes de esperar que
Deus segure a cruz, seria prudente verificar se alguém a fixou direito, porque,
pelo visto, até dentro da casa do Senhor, a manutenção preventiva continua
sendo uma responsabilidade dos homens. Não tem nenhum Deus capaz de evitar o
pior se o homem, que é real, não tiver cuidado.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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