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19/10/2026

Deputado pé-de-cana importunador mulheres é preso em flagrante e algemado pela polícia

Deputado chega algemado à delegacia

 

Há quem entre numa casa noturna para dançar, conversar, namorar ou simplesmente se divertir. E há quem, aparentemente, confunda o ambiente com uma extensão de seus privilégios parlamentares, onde o bom senso tira folga, a bebida assume o comando e uma arma de fogo transforma a diversão alheia em cenário de pânico. Foi esse o lamentável espetáculo do deputado estadual Marcelo Aguiar (PL), de 53 anos, na madrugada desta segunda-feira,19, no Santo Cupido, localizado no Itaim Bibi, área nobre da capital paulista.

 

Segundo os relatos apresentados, o parlamentar estava embriagado e abordando insistentemente mulheres que não demonstravam qualquer interesse em suas investidas. Uma delas chegou a pedir socorro aos amigos. Um dos rapazes precisou intervir e advertir o deputado para que deixasse as mulheres em paz. Mas o vexame estava apenas começando. Em meio à confusão, Marcelo caiu e, durante a queda, sua arma de fogo disparou, provocando pânico e correria no estabelecimento. O apresentador Fred Bruno, do Globo Esporte de São Paulo, relatou que o disparo atingiu seu pé.

 

Imaginem a cena: pessoas saem de casa para uma noite de diversão e acabam expostas ao risco de levar um tiro porque um representante do povo, segundo os relatos, resolveu combinar bebida, arma de fogo e comportamento inconveniente. É o tipo de espetáculo que dispensa ingresso. A população já paga caro demais para sustentar seus protagonistas. O deputado pé-de-cana acabou preso em flagrante, algemado e conduzido à delegacia, onde, conforme os relatos, chegou a chorar e se borrar todo de medo. A valentia da madrugada aparentemente não resistiu à claridade da delegacia.

 

Posteriormente, foi colocado em liberdade, em circunstâncias que envolvem as garantias constitucionais conferidas aos parlamentares e a natureza afiançável do delito de disparo de arma de fogo. E aqui surge uma questão que merece discussão séria: a imunidade parlamentar existe para proteger o exercício independente do mandato, não para funcionar como salvo-conduto moral de políticos envolvidos em episódios vergonhosos.

 

A Constituição não foi escrita para transformar deputado em cidadão de categoria superior, muito menos para fazer da atividade parlamentar uma espécie de seguro contra as consequências de comportamentos irresponsáveis. Imunidade não é impunidade, mandato não é licença para tudo r arma de fogo não é acessório de balada. Se fosse um cidadão comum, sem as garantias de um deputado bandido, importunador de mulheres, estaria trancafiado.

 

Outro detalhe chama a atenção. Conforme as informações apresentadas, os policiais registraram que, durante a abordagem, o parlamentar apresentava sinais de embriaguez. Cabe perguntar: qual foi a profundidade da apuração sobre o estado do deputado? Foram devidamente investigadas as denúncias das mulheres? Todas as circunstâncias envolvendo a arma e o disparo foram esclarecidas? É indispensável que a investigação seja rigorosa e transparente.

 


Afinal, o cidadão comum conhece muito bem o peso de uma abordagem policial, que quase sempre é arbitrária e com abuso de poder. Não seria aceitável que a condição de deputado, o sobrenome, a conta bancária ou a influência política servissem para produzir qualquer tratamento privilegiado. A lei precisa ter a mesma disposição diante de um trabalhador da periferia e de um parlamentar frequentador de estabelecimentos sofisticados do Itaim Bibi.

 

O episódio também deveria provocar uma reflexão dentro do próprio Partido Liberal e da Assembleia Legislativa de São Paulo. Que providências serão adotadas? Haverá apuração na esfera parlamentar? A conduta do deputado será examinada sob a ótica do decoro? Ou tudo terminará como tantas outras histórias da política brasileira: algumas manchetes, uma nota protocolar, um pedido de desculpas e, depois, o conveniente esquecimento?

 

As mulheres que relataram abordagens indesejadas merecem ser ouvidas e respeitadas, as pessoas expostas ao disparo merecem esclarecimentos e a sociedade merece saber como um representante eleito acabou envolvido numa ocorrência dessa gravidade. É importante ressaltar que as responsabilidades individuais devem ser apuradas, assegurando-se ao parlamentar o direito de defesa. Mas o devido processo legal não exige silêncio da sociedade diante de fatos que envolvem segurança pública e comportamento de agentes políticos.

 

No fim das contas, a imagem que fica é profundamente constrangedora: um deputado conduzido algemado à delegacia depois de uma madrugada marcada por relatos de embriaguez, abordagens inconvenientes e um disparo de arma de fogo. O Brasil não precisa de parlamentares armados de privilégios e desarmados de responsabilidade. Precisa de representantes que entendam que o mandato é uma obrigação pública, não um título de nobreza.

 

Porque, quando um político transforma uma casa noturna em caso de polícia, quem termina pagando o maior vexame não é apenas ele. É a instituição que representa. E, infelizmente, o contribuinte continua pagando a conta. Mesmo sem ter participado da bebedeira.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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