Por
*Elvécio Andrade
O
que deveria ser uma reunião para ouvir a população de Guriri acabou se
transformando em um episódio que provocou indignação e revolta entre moradores
e lideranças comunitárias de São Mateus, no Norte do Espírito Santo. O prefeito
Marcus Azevedo Batista, o Marcus da Cozivip (Podemos), voltou a ser alvo
de duras críticas após, segundo participantes, utilizar um encontro promovido
pela administração municipal como palco para promover politicamente seu aliado,
o deputado federal Gilson Daniel (Podemos).
Eleito
prometendo uma profunda transformação administrativa em São Mateus, Marcus
da Cozivip ainda enfrenta cobranças pelo não cumprimento de diversas
promessas de campanha. Para muitos moradores, a gestão segue repetindo práticas
da velha política que ele próprio dizia combater.
De
acordo com representantes de entidades de Guriri, o convite para a reunião foi
feito com a expectativa de que a Prefeitura ouviria as reivindicações da
comunidade. A população compareceu preparada para discutir problemas que se
arrastam há anos, como a precariedade do transporte público, falhas na limpeza
urbana, o retorno da lixeira comunitária, a troca de lâmpadas queimadas e a
conclusão do patrolamento da Rua 26 Norte.
Mas,
segundo os relatos, nada disso aconteceu, e os participantes afirmam que o
prefeito concentrou sua fala na apresentação e no lançamento político da
candidatura à reeleição de Gilson Daniel. Encerrado o discurso, a reunião
também terminou. O prefeito deixou o local apressadamente, e as lideranças
comunitárias sequer tiveram a oportunidade de apresentar suas demandas.
"Fomos
chamados para falar da comunidade, mas servimos apenas de plateia para um ato
político, o que acho um desrespeito não só conosco representantes do bairro,
mas com foda a população de São Mateus", resumiu um dos participantes,
inconformado com o desfecho do encontro.
A
denúncia é ainda mais grave porque, segundo os presentes, o evento foi
organizado pela estrutura da Prefeitura, com toda a condução feita pela
assessoria de comunicação do Município. Em vez de um espaço democrático de
diálogo, o que se viu, segundo eles, foi um roteiro previamente definido, sem
abertura para ouvir quem convive diariamente com os problemas do balneário.
O
episódio levanta questionamentos que merecem atenção dos órgãos de
fiscalização, principalmente do Ministério Público. A legislação eleitoral
estabelece limites para a utilização da estrutura pública em benefício de
candidaturas, justamente para preservar a igualdade de oportunidades entre os
concorrentes. Caberá às autoridades competentes verificar se os fatos narrados
configuram eventual irregularidade ou abuso de poder político.
Enquanto
isso, cresce o sentimento de decepção entre os moradores de Guriri. A população
esperava soluções para problemas reais, mas saiu do encontro sem respostas, sem
diálogo e com a impressão de que os interesses políticos voltaram a ocupar o
espaço que deveria ser reservado exclusivamente ao interesse público.
Quando
um governante deixa de ouvir a comunidade para priorizar a promoção de aliados
políticos, a principal derrotada é a própria democracia. Afinal, quem governa
deve prestar contas ao povo, e não transformar eventos públicos em instrumentos
de conveniência eleitoral.
*Elvécio Andrade
é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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