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17/04/2026

Bomba em Mantena: MP denuncia esquema milionário na saúde e captura de hospitais

Hospitais envolvidos no esquema milionário

Por *Elvécio Andrade

 

Em Mantena, no Vale do Rio Doce, Leste de Minas Gerais, a saúde pública aparentemente resolveu inovar. Sai o jaleco, entra o contrato. Sai o paciente, entra o faturamento. E o hospital... bom, esse virou quase uma filial.

 

A denúncia do Ministério Público do Estado de Minas Gerais não descreve apenas irregularidades. Ela desenha um roteiro digno de manual: como transformar hospitais filantrópicos em balcão de negócios sem que, à primeira vista, ninguém perceba. E não estamos falando de troco de padaria. O que circula nesse enredo passa dos R$ 964 milhões em recursos públicos. Isso mesmo: quase um bilhão. Mas calma, que fica pior.

 

Mantena tem dois hospitais que sustentam o atendimento da cidade inteira: o Evangélico e o São Vicente de Paulo. Ambos filantrópicos. Ambos com privilégios legais. Ambos, segundo o Ministério Público, entregues de bandeja para uma empresa privada. E aqui entra o pulo do gato.

 

Os hospitais assinam contratos com o SUS (Sistema Único de Saúde), aquele dinheiro carimbado, público, destinado à saúde da população. Dias depois, quase como quem não quer nada, repassam a gestão completa para a Unirad (Unidade de Radiodiagnóstico São Francisco Ltda), empresa que não participou de licitação, não foi habilitada e, teoricamente, nem poderia estar ali. Coincidência? O Ministério Público chama de planejamento.

 

No meio dessa engenharia, aparece um detalhe quase singelo: 3% do faturamento bruto dos hospitais indo direto para a empresa. “Ah, é pouco”, diria um desavisado. Só que esse percentual incide sobre dinheiro público. Sobre SUS. Sobre atendimento. Sobre gente. E aí o que era detalhe vira pergunta incômoda: quanto vale 3% de quase um bilhão?

 

Hospitais filantrópicos existem para não dar lucro. Em troca, recebem benefícios fiscais gigantescos. Mas, segundo a denúncia, a mágica foi simples: mantém-se a fachada filantrópica, preservam-se os benefícios tributários, transfere-se a operação para quem quer lucrar. Resultado? Uma espécie de criatura híbrida: lucro privado com imunidade pública. Ou seja, a filantropia é de papel e o lucro de verdade.

 


A coisa fica ainda mais elegante, ou grotesca, como queira, quando se descobre que a empresa de radiodiagnóstico virou, na prática, gestora de hospital inteiro. Define escala médica, decide contratação, administra recursos e controla tudo sem ter, segundo o Ministério Público, habilitação para isso. É como se você levasse o carro para trocar o óleo e o mecânico resolvesse assumir a direção da sua vida.

 

Talvez o trecho mais simbólico da denúncia seja este: havia previsão contratual para interromper atendimento do SUS por critério financeiro. Traduzindo: se não estiver compensando, fecha a torneira. Não por falta de médico. Não por falta de estrutura. Mas por decisão de negócio. A saúde, definitivamente, entrou no Excel.

 

O Ministério Público fala em cartel, em domínio de mercado e em eliminação de concorrência. Mas, na prática, o cenário é ainda mais simples de entender: dois hospitais, uma empresa mandando nos dois, uma cidade inteira sem alternativa. Chamam isso de gestão. Outros chamariam de controle absoluto.

 

Ah, o povo… Esse continua na fila, esperando consulta, esperando exame, Esperando atendimento, sem saber que, por trás da porta do hospital, pode estar acontecendo algo muito maior do que falta de médico ou demora no atendimento. Pode estar acontecendo um modelo. Um sistema. Um negócio.

 

No fim, a pergunta que não cala. Se tudo isso se confirmar, não será apenas mais um caso de corrupção. Será algo mais sofisticado: a transformação da saúde pública em produto, com selo filantrópico e lucro garantido. E aí Mantena deixa de ser cidade e vira empresa. E o paciente… vira custo.

 

Na marca do pênalti, digo, nas garras do Judiciário estão os empresários Fernando Martins Pereira, André Custódio de Matos, Andréia Lilian Marques Fernandes Vieira e Emerson Monteiro Rodrigues, todos representantes da Unirad; Maria Alice Nagy, dirigente do HSVP (Hospital São Vicente de Paulo), e Gilberto Francisco da Silva, dirigente do HEM (Hospital Evangélico de Mantena).

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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